Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Condicional

Salvador DALÍ, The Broken Bridge and the Dream
*
Havia ainda um pouco de sonho

E a Luz e o Sol!

O encanto supérfluo da Beleza;

A procura descabida

Da Verdade...

Havia o teu nome e o meu

E os outros nomes idênticos

De identidades diversas!

A falta de verdade no gesto

E o incontido a transbordar,

Devagar...

Fingimento submerso!

Torrente poderosa do teu olhar...

Era preciso perturbar.

Havia cores de arco-íris

A morrerem nos teus passos;

Havia lampejos de luz,

A desmaiar...

Supremo - Natural!

Era preciso acreditar

No paradoxo sublime do Vital.

Havia um condicional

Hipotético e lúdico dentro de cada ideal...

Era fatal a Verdade renascer;

Era vital o Amor acontecer!
Ponte de Sor

Anna

terça-feira, 27 de maio de 2008

Vórtice

DELACROIX, A Paz descendo sobre a Terra
***
Há notícias que, pela sua dimensão, nos deveriam fazer reflectir...
Afinal, que estranho caminho nos leva de retorno ao caos, em plena era tecnológica? Humanamente, já olhámos as consequências?
***

« É a maior lixeira do mundo, cerca de 1oo milhões de toneladas de resíduos, na sua maioria plásticos, originários de descargas de navios e plataformas petrolíferas. Este «país do lixo» é constituído por duas manchas com mais de 900 quilómetros de comprimento e vagueia defronte da costa da Califórnia, passa pelo Havai e quase chega ao Japão. E não pára de crescer. "Nesta zona do Pacífico Norte, geram-se, por acção do vento na superfície do oceano e da rotação da Terra, dois vórtices. Essas áreas de convergência acumulam o lixo deitado ao mar", explica Isabel Âmbar, 62 anos, directora do Instituto de Oceanografia da Universidade de Lisboa.
Tem duas vezes o tamanho dos Estados Unidos da América e anda à deriva no Pacífico. ».

PEDRO SANTOS, in Visão, n.º 793

domingo, 25 de maio de 2008

Rupturas

Eugéne GRASSET, Three Women and Three Wolves, 1845-1917

*
Um dia caminhámos por estes vales e montanhas e, de olhar extasiado, deslumbrámo-nos e sonhámos. Depois, a Lena partiu. Memórias suaves, num dia a haver. Se houver... eternidade...


Dan Johnson (akeyswede)

+** *Traziam silêncio
Os sonhos dos homens,
Amorfos,
Secretos,
Imensos...
Traziam rupturas
Sentidas,
Secretas...
Amarguras.
Então...
Dizê-lo aos jovens
Rebeldes,
Imersos, imóveis...
Seria a verdade,
Pressentida,
Inconfessada...
Não!
*
Suíça, Kandersteg

Anna

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Reflexo

Madeira, img.520
***
Sol na Ilha
*
Silêncio...
*
*
Sol.
Ana

terça-feira, 20 de maio de 2008

Arrebol Eterno

Walter CRANE, Neptune's Horses - 1910

Não existe essa prisão que construiste para o teu corpo. Não podes, sequer, aprisionar o sonho de uma praia deserta, vestida dos tons dourados de um apocalíptico poente.

Sabes que, no arrebol eterno, todas as raízes vão obrar a seiva capaz de expandir longos rebentos carregados de verdes tons silenciosos.

É imperioso destruir as graníticas pedras que seguram as garras ferrugentas do teu ser...

HOMEM!


Anna

domingo, 18 de maio de 2008

«Quem nada conhece, nada ama», PARACELSO

António Pedro, surrealista português

Por que dizem os portugueses, em geral, que não gostam de Saramago?
Irreverente, incongruente ...virou-nos as costas e exilou-se em Lanzarote. Esse é o homem, inconformado com os conservadores nacionais e com a Igreja católica.
Quer-nos espanhóis e nós olhamos o mar de frente. A nossa geografia tem esse perfil duro que encara o oceano e vira as costas aos castelhanos. A nossa História também.
Surge nos nossos ecrãs - ventres repletos de banalidades - e, arrogante, do alto do seu autodidactismo, perturba e incomoda intelectuais estreitos...
Mas, todavia, o homem não é o Autor!
Após o primeiro livro, lemos um e outro e vamos de inquietação em inquietação, rumo ao hedonismo ocidental que se fractura e estilhaça, ali, no âmago do HUMANO!
Saramago, o escritor, perturba e inquieta. Quem nunca foi capaz de ler um dos seus livros até ao fim, sem dúvida: não o conhece.

http://www.caleida.pt/saramago/

Ana

Blindness - José Saramago

quinta-feira, 15 de maio de 2008

E Tu Serias

Athanasius KIRCHER (1602-1680), Diagrama dos Nomes de Deus


Era preciso um pouco de mito
e a luz de um sólido ideal!
Um certo nexo e o certo ritmo
de uma clássica orquestra musical...
***
Era preciso o orvalho e a manhã;
o tecer de um sonho e a vida.
Converter a tua fé pagã
num hino de métrica medida.
***
E tu serias a aurora boreal
ou talvez um sol nascente...
Tu terias o eco divinal
de um doce e profético poente!

Anna

terça-feira, 13 de maio de 2008

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Antero de Quental, poeta açoreano

Antero de Quental moldou o meu carácter, desde a adolescência. Gostava de recitar os seus sonetos e de pensar a semântica apelativa das suas ideias...
Gosto de lê-lo, escutando o chamamento fraterno e intemporal.



A um poeta
**
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

***
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

***
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
***
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

**
Antero de Quental

http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/quental/

http://faroldasletras.no.sapo.pt/sonetos_antero_de_quental.htm

Açores I: escutando vulcões

domingo, 4 de maio de 2008

Anátemas

Salvador Dalí, O Barco




Partimos de braços abertos:


Anátemas...


Sonhos nos ares boiando!


Partimos sonhando:


Profetas!


Adivinhamos, no dia,


A hora das descobertas.


E, todavia...


Ficamos!


Baloiçamos no espaço


De seres violados.


Somos um febril compasso


De tons desafinados!


Sociais...


Coerentes e desiguais.
Anna

sexta-feira, 2 de maio de 2008

E SE...

Giorgio de CHIRICO, 1888 - 1978, Partida dos Argonautas


E, os homens

aportaram, então,

num caos longínquo

onde, o mundo recomeçaria,

límpido como a madrugada!

***

Uma sonolência vaga

sobrevoou...

sobre o delírio geral!

E os cérebros navegaram

até ilhas vagas,

dispersas...

***

A ironia é uma arma branca.

Aflora, veladamente,

o sono dos justos,

os interesses...

tão humanamente,

interessantes...

interessados!

Anna