Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 31 de janeiro de 2009

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

À NOITE

Ron di SCENZA, Hearling Water
.[**[[[
Noite melhor que o dia, quem não te ama?
Quem não vive mais brando em teu regaço;
Despindo da alma e dos cansados membros
O dia afadigado?
[...]
Filinto ELÍSIO, , séc. XVIII
*
http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugu%C3%AAs/livro/coleccaoObrasClassicas/Paginas/ObrasCompletasdeFilintoEl%C3%ADsioVol.1058.aspx

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Epitáfio para o Inverno

Vincent Van Gogh, The Sower, 1888
*
Não...
que a paz
do pão
jaz
aqui...
E, vós,
Espinhos,
Flori!Ana

domingo, 25 de janeiro de 2009

Renascer

Nadir Afonso, Mortes même dans le souvenir

Num grão de areia

Escondeu

O Mestre

Todo o Infinito

O átomo

A alma

O Mito

Toda a chama de Perseu

As sombras

Vergam a luz

A distância

O momento

Arde a sarça

Em fogo lento

Morre o profeta

Na cruz

Numa lamela coloco

Toda a vida

Em que toco

Desde o nascer

Ao morrer

Encontro

A essência apagada

Tudo existe

No Nada

Germina do Nada

O Ser.
*
Ana

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Estatutos do Homem

Frida Kahlo, El abrazo amoroso del universo, 1949

(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.

agora vale a vida,

e de mãos dadas,

marcharemos todos pela vida verdadeira.

*

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

*

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

*

Artigo IV

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

*

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

*

Artigo V

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

*

Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

*

Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

*

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

*

Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha

sempre o quente sabor da ternura.

*

Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,

qualquer hora da vida,

uso do traje branco.

*

Artigo XI

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo,

muito mais belo que a estrela da manhã.

*

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado

nem proibido,

tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

*

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

*

Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

*

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

*

Santiago do Chile, abril de 1964

Thiago de MELLO
http://secrel.com.br/jpoesia/tmello.html#estat

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

América é um continente imenso...

1507 - Martin Waldsermüller, América
*
Na minha aula de Literatura, às oito horas, os alunos - alguns resistentes que ainda estudam esta matéria - procuravam localizar, geograficamente, o Canal do Suez a partir de uma citação de Dário, o velho rei persa. Estudamos Eça de Queirós que, ali se deslocou aquando da inauguração da actual obra do tempo de Napoleão III, para relatar a ocorrência no Diário de Notícias. Insistentemente, os meus alunos confundiam aquele lugar com o canal do Panamá...
Falaram, então, da América...da importância do dia de hoje, enquanto bolsa de esperança. Não os desmenti. Tenho amigos nos USA*, tenho família nos USA, observo sem pudor a realidade e por natureza sou eclética... Porém, permitam-me que saúde, daqui, todos os outros americanos: aqueles que falam a minha Língua e habitam o Brasil e os de todos os outros países desse imenso continente, tão diverso e plural que se vê, tão amiúde, reduzido e esmagado por esse erro semântico generalizado.
Os meus queridos alunos nunca mais se esquecerão!
A América não é os USA, os USA é que são América.
*
*Hello Janette and Bob Alexander!
Saudades querido cunhado João e família, aguenta NY!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Credos

cafetorah.com, Cavalos do Apocalipse
*
Havia nos teus dedos
Harpas e credos e medos...
Religiosidades evidentes...
Cenários e hinos e destinos iguais,
Ecos, vozes conhecidas, barros confidenciais!
Murmúrios orgulhosos, preces negociadas,
Pedidos, súplicas, coisas térreas e desejadas...
Interrogo esse teu Deus nos antípodas de tudo:
Orgulhoso, privilegiado, cómodo e mudo!
Essa ilusão tremenda e castradora,
Juiz supremo de uma crença redentora!
Havia nos teus credos mitos e lendas,
Palavras cavernosas, dias marcados, prendas...
Amores venais, gestos de convenção, rituais,
Pompas subtis, mentiras colossais...
E do alto dos tempos circulares...
Sem grandes brados, sem grandes ares,
Alguém disse: «Olhai os lírios, olhai a flor!
Despi os mantos, rasgai os tempos, vivei Amor!»
*
colorhome , lírio selvagem

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Manhã

C. David Friedrich - 1774/1840, The Stages of Life


Oito da manhã,
Como em qualquer lugar!
O parque,
Pobremente outonal,
Vestido dos incensos matinais.
Os sonhos,
Os dias,
Finalmente acordados
Nas vidas!
***
Recomeçar,
segunda-feira, agora!
A vila,
Lugubremente inconformista,
Sob um céu de chumbo...
Tu e eu
Os outros,
Finalmente reforçados
Nos sonhos!***Oito da manhã,
Segunda-feira, agora!
O parque;
A vila;
Tu e eu;
Os sonhos;
Os outros;
Os dias
Nos sonhos,
Finalmente reforçados
Nas vidas vestidas de incensos matinais.
Ana

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Avaliação simplificada dos professores


«Vivemos todos num estado de pobreza ambiciosa

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Apocalipse Sonhado


Giorgio Vasari, Fundação de Florença, 1565
O Homem procurou então
o último estádio
de si próprio...
Há quantos anos?
Há quantos milénios?
- Olha, Meu Amor, nós...
Olha!
Nós queremos ser
o Homem!
Ana

domingo, 11 de janeiro de 2009

Rosto Na Cidade



René Magritte, la Golconde, 1953
Eras o rosto pressentido
No amanhecer
Pluvioso e cinza...
Pressentia-te ali,
Sofregamente,
Absorvendo cada gota de emoção!
E tombava, insistente,
Sobre a tua solidão,
Aquele caudal sem nome:
A multidão...
Sentia-te crescer
Como vegeta a planta
No dourado outono
De uma galáxia distante.
Eras o coração embevecido
Nos traços caricaturais
Daquele betão disforme...
Onde a essência perdida
É tão somente aparência,
Tão simplesmente não - vida!


Ana

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

E...as crianças, Senhor?

Gaza - Israel, Globo /8 de Janeiro
Onde estás,
Arquétipo...
Involutivo,
Eterno?
Escatologia dos oprimidos,
Quem És?
Cruz de tantas cruzes...
Messias?
Iman?
Mahatma?
SER?
Ele era
Na era
Do Império
O Segundo...
Deus?
Pai?
MENINO!

Ana
Stephane de Bourgies

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Aqui fica uma flor! Nesta noite sem igual...

foto: Manuel da Nóbrega
Flores - Vale de Açor

«Na noite de 5 para 6 de janeiro de todos os anos, juntam-se os jovens que vão à tropa nesse ano, munidos com jesso água e formas em papel com desenhos de caçadores, bonecos a jogar futebol... e andam de porta em porta a colocar aqueles desenhos nas portas de toda a terra, enquanto uns colocam esses desenhos, outros cantam acompanhados por um senhor com acordeão uma quadra dedicada a pessoa onde está o dito boneco, têm de fazer isto em todas as portas da terra.»in Planeta clix
***
De forma singela o povo alentejano presta homenagem aos Reis...sentidos gregários e iniciáticos unem, ainda, estas gentes! Voemos com as aves do sul, rumo à infância perdida...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Eli, Eli ... Allah Irahmu


Rafael, séc. XV, Criação da mulher

A morte?
Trouxe-a o vento,
gelada como um lamento,
dorida como o Suão.




Bergner Yosel, pintor israelita


A morte?
Trouxe-a o tempo
pregada no esquecimento
dos cravos
que a cruz tem.



Mona Hatoum, artista palestino

A morte?
Trouxe-a o deserto
e a lua ali tão perto
tapou metade
do rosto.
***
A morte?
Perdeu-se em profecias!


Ana