Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Recuso

Carlos Botelho


Recuso toda a pieguice
Da minha atribulada meninice!
Recuso seguir os caminhos já trilhados
Onde se enlutavam almas
E se pisavam cardos.
Acuso os hábitos de vossas vidas,
Tão distantes das verdades proferidas!
Acuso a mentira que habita o nada e o tudo
E que polui, suavemente...
Num gesto parado e mudo!
Recuso o comodismo
Dos que julgam ver direito, plenos de estrabismo.
Recuso o ser vendido, o ser comprado
Em recantos da vida onde o dado é roubado.
Acuso toda a moleza...
Que distancia os que amam
A verdade e a pureza!
Acuso os que se deixam
Pela cobardia limitar
E se afastam de fardos que deveriam suportar.

Recuso servir a mentira
Ainda que ela surja ao som de lira.
Recuso ser julgada e ao que acuso julgar
Porque não uso o gesto torpe de matar ou condenar.

Ana

sábado, 25 de setembro de 2010

QIM

video


Antoine de Saint-Exupéry diz: “No momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”.

Rafal Olbinski
 Após um dia de intenso trabalho com QIM (Quadros Interactivos Multimédia), venho deixar-vos um SORRISO. 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Setembro boreal

José Alves, 2010

José Alves, 2010

José Alves, 2010


Em Setembro
Amadureço e relembro
Pedaços de luz boreal.
Em Setembro
Amanheço e entendo
Um orvalho matinal.
Em Setembro
Professo e compreendo
O Amor puro, universal.

Ana

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Caminha

Caminha, José Alves, 2010

Caminhamos por Caminha. Pêro Vaz já chegou a Porto Seguro e a baía que se abre para nós é uma brecha de tempo que nos permite viajar para outros dias.

Caminha, José Alves, 2010

A água quente do rio Coura encontra-se com o rio Minho e eu adivinho um tremor secreto. Caminha está sob os meus pés, peregrina que sou da juventude que aqui reencontro.


Caminha, José Alves, 2010
Apertas um pouco mais o meu braço e eu sei que estamos no regresso. Já não remas por aqui, mas rumaremos sempre para este reencontro.


Caminha, 2010
A Rua Direita já não te leva a casa, mas reconheces ali um lar de lembranças. Aqui no Largo fervilha a vida e um caminhense adoçará esta saudade.

Caminha, José Alves, 2010
Caminha esconde-se para outro dia. O rio Minho descansa no mar. Vamos, que a brisa gelada vai trazer o  nevoeiro e Santa Tecla irá dar uma volta pela Galiza. Amanhã tudo clareará. 
Espera amanhecer.

Ana





quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A vida

Ponte de Lima, José Alves/10

A vida é um hino, um salmo recitado,
A vida é o amor fecundo no ser inacabado.
É um estranho fragor sensual e ideal,
Qual Cântico dos Cânticos arrancado do real.


Ponte de Lima, José Alves/10

A vida é o teu amor preenchendo o que eu não era;
O teu amor entrega e posse daquilo que sou!
É a elevação, a plenitude que sempre quisera
Pôr no amor a no caminho por vou...


Ponte de Lima, José Alves/10


A vida é o amor desmedido e incontido
Que à minha vida trouxe a própria vida!
A vida é o amor que revelou o Amor enaltecido
E me fez amar de forma desmedida.

Ana


Ponte de Lima, José Alves/10

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma vontade

Savador Dalí
Quando nasça a Lei
Que seja da semente da Justiça!
Quando nasça a Justiça
Que rebente da Fraternidade!
Depois, que:
A Lei seja Lei!
Que o Homem seja Humano!
Que os povos sejam irmãos.
Que a sociedade seja
A formal estrutura
Do Amor e da Verdade!

Ana

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O sagrado e o profano

Diocese de Portalegre e Castelo Branco



Um dia depois estamos na Beira profunda. Montes que sobem e caem em abismos. Labirintos que nos desafiam.
Passou tanto tempo. Procurei tanto outro tempo. 
Vamos ao encontro de um amigo -  Padre, Cónego há cinquenta anos. Haverá festa, jubileu a sério. Quarenta padres num altar, o seu sermão, amigo, padrinho cónego. Onde estou? Sempre procurei. Deus existe, Arquitecto etéreo, que se perde pelos rituais.
O Zé no limiar e eu olhando-me lá atrás, num tempo antigo, fervorosa, quando o ritual, por algum tempo acomodava os meus dias.
Só uma grande Amizade me faria estar aqui e regressar nas palavras:


Cónego Lúcio Alves Nunes




Meu Deus

Este silêncio é Teu...
Nele enche-se de canções
A trémula luz que sou eu.
Eu, breviário de de tímidas orações!
Que exaltação humilhada
Quando leio em Teu nome
E a minha alma apaixonada
Treme de Amor e de Fome!

Ana (1978)





VÁRZEA DOS CAVALEIROS/Agosto de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DIAS DEPOIS...

Infojardim.com

Hoje caminharemos a pé. O Verão declina. Os corpos amolecem. Pátios maravilhosos nos esperam.


Infojardim.com

Amo gerânios,  que me falam de territórios familiares. Cheiro intenso, feito de um sol a pique. Fortes, quando tantos desistem - gerânios de cor e coragem.

Infojardim.com

Reconheço cores e formas e pasmo de tanta memória, nesta beleza antiga e agreste.

Infojardim.com

 Pouco mais há dizer, não me peças poemas. Surgirão, esses, um dia, feitos de lembrança e tecidos de rotina.

Infojardim.com
Agora, deixa-me apenas fruir e incorporar-me nesta tarde morna, rendilhada de gerânios e de memórias.




Quero deixar assim este Al - Andalus que me devolveu um pouco da identidade que perderei, contidamente,  nos dias mais cinzentos.

Ana


«Te quiero Andalúcia !»


domingo, 5 de setembro de 2010

SETE


سبعة
 
Sete é um número belo como os mitos antigos. Escolherei esse número para afastar a nuvem negra que nos chega de Sul, arenosa e quente.
Sete é um número árabe, como são árabes os números que usamos. Pois, sei bem...dirás que são indo - arábicos, mas que importa? São números.
Sete!
Não o enchas de virtudes e de pecados. Desenha-o belo, floreado, dourado...se souberes.
A nuvem não é nossa, há-de regressar às origens mais remotas..
Sete soltas notas musicais suavizarão estes ares.
A nuvem pingou, passou e África já não espreita.
Sete Reis mouros partiram, rumaram de Alexandria a Creta e assombram, por ora, os mares.
Esplendor e ruína, assim segue sendo.
Ana

Creta - José Alves/08

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

DIA SEIS - gastronomias

Beringelas - Wikimédia
Assim saberemos que estamos em casa. 
Tudo me fala de um hábito antigo, conhecido na mesa da avó Ana: beringelas fritas com ovo; lentilhas; estas sardinhas abertas e panadas; o divinal gaspacho ...
Avó Ana, foste sempre o meu prumo!
Caminhamos a pé até ao monte. O teu vulto negro de viúva. O meu vulto branco de menina.
A três quilómetros, no calor, o monte é uma miragem. A paisagem plana ilude-nos.
Em noventa anos de vida, nunca tiraste as meias, apesar da inclemência do sol. Morena, de olhos negros, as tuas pernas  eram branquinhas.
- Vamos, vó, as suas beringelas, ali no jardim, têm um cheirinho tão bom!
O avô era loiro, de olhos azuis, alto...muito alto. Quando me erguia nos ombros, o mundo alargava. O avô morreu e eu fiz-te companhia. Era a única neta, nessa época, a neta mais velha...todavia, todos os primos eram mais velhos que eu. Contraditória a vida.
Hoje comerei beringelas.

Comer é [há-de ser sempre] divino, como nos ensinou Confúcio.

Ana