Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 22 de abril de 2017

A Forma Justa

Acrópole de Atenas, Propileu - José Alves


Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Da tranquilidade...


Doitri.com




Há, no meu jardim, um pouco dos lugares por onde andei. O Mediterrâneo veio aqui desaguar, numa branda transparência de azuis, numa onda íntima de sossego e serenidade. Há, no meu jardim, uma Humanidade que se mescla nos odores adocicados deste Abril de espanto e dor. Nele me distendo, depois de duros dias de trabalho. Refúgio onde me sento e releio Kafka. Que querias que lesse, nos dias que correm? Deixa a tua torre de marfim, sai do teu pequeno mundo, olha ao redor...Este é o momento que ele definiu tão bem: ansiedade e alienação!


Ana


segunda-feira, 20 de março de 2017

Hu.ma.ni.da.de

Itália, Veneza


Há mundos líquidos, por onde correm os sonhos dos homens. Lugares idílicos, aonde se reinventam rumores de antanho. Primaveras secretas que arfam no peito dos lunáticos e dos amantes devorados pela paixão e, esta, paradigma do destino último da humana condição - a morte.

Secretos, intranquilos, mergulhamos na atonia e no caos.

Que restará desta geração que - absorta, edonista e irascível - se afunda lentamente, pasmada no plasma e na contemplação de si mesma?

Haverá lugares obrigatórios e guerras necessárias?

Já te amei em Veneza e cruzei o Trieste quando a guerra grassava tão perto...
Só te posso afirmar aquilo que sei: o amor está em qualquer lugar e o sangue dos homens não é a nossa herança comum nem constrói o futuro - não te iludas, todavia! 
Somos a Humanidade.


Ana


Líbia, Sirte









hu·ma·ni·da·de 
(latim humanitas-atis)
substantivo feminino
1. O conjunto dos homens.
2. Natureza humana.
3. Género humano.
4. Bondade.
5. Benevolênciacompaixão.

"humanidade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/humanidade [consultado em 20-03-2017].


domingo, 19 de março de 2017

Da Guerra

O nascimento de Vénus - Botticelli


Não creias nas aparências
Frívolas consciências
Que o mais feio dos deuses
Te está fadado

Vulcano que o fogo acende
Teu marido por castigo
Que trais com Marte
Que a guerra ama

Ah a fútil a inconstante
Humana condição
Que trai em cada dia
A quieta via da evolução.

Ana




Mohammad Mohiedine Anis, senhor de 70 anos que vive em Aleppo, região de conflito na Síria (Joseph Eid/AFP)









terça-feira, 7 de março de 2017

O Excesso



Alexandre Séon, Le retour

Se chorar, dirás que sofro...
E, todavia, o céu telúrico.
E, todavia, os teus passos,
Os teus laços,
Tu...
O palpitar constante,
O ser difuso, divagante!
Não sei do espaço,
Perdi o tempo,
No momento
Em que tocaste o meu sonho!
A beleza, a nobreza...
O excesso e o reverso...
E, se te sonho e te quero,
Tu és a calma, a agitação
- o meu processo!
Se chorar dirás que sofro!
O habitual, o convencional...
Porém, há um hino divinal
E pássaros entram pelas vidraças,
Se me abraças...
E te perdes.

Ana


Nota: talvez pelo excesso de trabalho e enorme falta de tempo disponível, talvez pelo sol radiante e pelo toque primaveril que actualiza as paixões...reedito este poema. 
Bom dia, amigos.