Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sexta-feira, 29 de maio de 2020

As Não-Notícias...

Gonçalo Ribeiro Telles não morreu

Ao contrário do que foi escrito pelo Observador, Gonçalo Ribeiro Telles não morreu. O equívoco surgiu de um contacto com um amigo próximo do arquitecto. As nossas desculpas ao próprio e à família.(Observador).


Encontrado corpo de jovem 
que morreu
 afogado a tentar homem no Alvor
(Jornal i)


Os concelhos mais afetados encontram-se nos subúrbios da cidade de Lisboa. Há um conjunto de focos dispersos pela a região que fazem subir o número global de contágios. (Observador)



Médio Oriente - José Alves - 2019


O meu tempo foge, como alguns @migos sabem de há muito. Quando O Sul Sereno se cala o meu quotidiano agita-se, num movimento pendular e sem pausas, entre o trabalho e a família - especialmente a sénior.
Dias que de súbito se esgotam.
Resta-me um evasivo minuto para me surpreender com as não-notícias e a total destruição do jornalismo.

Bom fim-de-semana, meus amigos.


domingo, 3 de maio de 2020

O meu lugar

Senhora dos Prazeres, foto da Câmara Municipal de Ponte de Sor


Lugar de alguns sonhos corridos por esses caminhos. Lugar de noites feitas de fiapos de relento e de astros familiares identificados no breu. Lugar de bateria recarregada, porque a alma ancestral ali se lava do quotidiano. O romance, as pedaladas vigorosas na familiar bicicleta. A corrida dos velhos tempos de atleta. A caminhada longa. A chegada motorizada.
Ancestral «Senhora dos Prazeres» que tanto te amamos. Tu, a velha fenícia da inscrição que ainda guardas. Tu, a romana convertida aos prazeres sórdidos do caminhante em velha estalagem que aliviava a estrada até Mérida. Tu, a templária de secretos segredos que ainda hoje guardas nos teus cultos primaveris. Velha sefardita, aliada a Castelo de Vide, dos imensos piqueniques campestres. És nossa em Maio e dos de Castelo de Vide em Setembro. «Senhora dos Prazeres», com esse topónimo, alguma vez foste católica?
Madrinha de meninas que nasceram como eu, filhas de um tempo antigo. Padrinhos? Dois. Madrinha? Tu! Hoje, anos levados, ainda te amo na tua singela complexidade, na ausência de tantos a quem quisemos juntas.
Vejo-te como o Açor que sobrevoa a nossa terra e lhe roubou o nome. A criança que me habita, corre pelos caminhos desarvorada, feita trigo do Futuro.

Ana


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Tinham o Sol

Ana 

Eles tinham o Sol

e o brilho da tarde que findava

Eles eram o arrebol
de Verões enfurecidos
quentes e amanhecidos
quando a madrugada os pintava

Eles sabiam do salmo
conheciam o hino
deste futuro tão calmo
refém estático do Destino

Eles conheciam a paixão
o calor tórrido do Verão
o pó quente dos caminhos

Eles não estavam sozinhos


Ana




domingo, 12 de abril de 2020

Querida Sefarad


Ascent of The Spirit, Vladimir Kush


A terra da minha infância leva-me a essa pura ascensão do espírito. Estes caminhos da memória são feitos de muitos passos e de alguma fuga ao pensamento estabelecido. Trazem-me o som rangente da bicicleta sobre a areia solta.


Falcão, 2020


Este é o cheiro das estevas quentes pelos primeiros raios do sol primaveril. Viagem de retorno eterno. Vida a desabrochar, mesmo se daqui quase todos partiram. Esta é a passagem.


Aldraba, 2020


A mão, a vida física, a protecção da velha casa da avó. Mas, esta,  era só uma casa de passagem. Logo à entrada, num recanto, estava a verdadeira chave da casa que não abria esta porta. 



Crescente ou fermento, 2020, cá de casa


Façamos só mais alguns pães. Contigo, avó, aprendo o fermento. É um exercício de espera e de paciência. Com a mãe o continuo. Hoje, estou sozinha a alimentá-lo. Este cheiro genuíno, este travo ácido...vem de um lugar remoto na minha infância.



Pão alentejano, 2020, cá de casa

Duvidas, ainda? A cultura materna não se escreve nos livros. Ela é a vida, este valor intransmissível que respeitamos em cada tonalidade e que aprendemos vivendo. Não a aprendi em nenhuma das universidades por onde andei.


Bolo de bacia tradicional, 2020, cá de casa

O cheiro quente da canela e da erva-doce há-de renovar cada sentido, como um hino ou como um salmo. A tradição não significa conservar, mimetizar, teatralizar...a renovação é o significado íntimo de cada gesto. Quantas vezes te falei da sobrevivência?


Pão sem fermento, 2020, cá de casa

Hoje deitamos fora a massa velha e renovamos o antigo ritual. No nosso querido Alentejo, o cabrito há-de estar sobre a mesa e, humanos seremos...comendo!


Cabrito de leite,2020, cá de casa

Não me peças, hoje, Poesia!
Ao longe, no mais rico dos países, a desumanidade grassa e o pavor instala-se. Nós conhecemos a perseguição, o caminho da sombra, mas somos humanos e sofremos. A nossa rota invisível, como o inimigo que nos persegue, não logrará vencer a nossa Humanidade!


Nova Iorque, valas comuns, 2020
Ana


Nota: itens alimentares cá de casa!


terça-feira, 7 de abril de 2020

A Estranha Ordem das Coisas

Atrás das barras_P & Ink, Vladimir Kush

Com os meus alunos do outro lado de um ecrã, alojados numa turma virtual e entregues a uma aula digital, escondidos de um inimigo invisível, procuro a expressão mais exacta de cada momento. Não é uma tarefa fácil, nem para mim que vivo do uso desta nossa Língua comum.
A primeira semana foi a de uma ausência. Onde está o parque que atravessaria a cada manhã, enchendo o peito dos primeiros raios de luz para levar até vós? Onde, aquele frenesim de vida a desabrochar em cada olhar fugidio ou acolhedor como o futuro que prepararíamos juntos? Onde, o meu chegar silencioso e súbito que te surpreenderia num susto pueril? Onde a empatia e o sorriso, ou o ar severo que para ti ensaio?
E o tempo vai criando a rotina de uma (novi)profissão que preencheu os dias inteiros numa distopia, verdadeira antiutopia de tudo o que fui. 
E, neste negativo da velha fotografia daquilo que fomos, restou-me escolher mais um livro para ler. Aqui partilho convosco A Estranha Ordem das Coisas, de António Damásio

A Estranha Ordem das Coisas - Livro - WOOK


«Os seres humanos acabam sempre por depender da maquinaria dos afectos e das suas ligações com a razão. Não há maneira de fugir a tal condição.» pág. 305, 1.ª edição, 2017 


Saúde, meus amigos!