Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quinta-feira, 11 de abril de 2013

S.O.S.! S.O.S!

Medea, de Evelyn De Morgan, 1889


S.O.S! S.O.S!

Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!


Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...


E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, fartos
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!

Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!


José Gomes Ferreira



domingo, 7 de abril de 2013

Sem submissão...

FLOWN WITH THE WIND
Vladimir Kush

Ninguém nos poderá delapidar esta tarde rósea em que somos a brisa morna da planície. Fremente, a floração aguarda só mais um dia de sol. É essa liberdade de águias que nos crava no peito a esperança, mesmo quando todos imploram e sibilam a pobreza futura. É o velho orgulho da mestiçagem destes sangues, tão mesclados, que nos adoçou a voz e a tolerância sem submissão. Percorro contigo a vastidão destes lugares, sentindo a energia renovar o meu ser de criatura do Sul e, subitamente, um poema de Nemésio ajusta-se ao momento. Em surdina, habita-me o instante:

*****
Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.
Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo, Grego, Grego!
Homem, seja onde for.
Romano na ambição,
Oriental no ardil
Latino na paixão,
Europeu por subtil:
Homem sou, homem só
(Pascal: "nem anjo nem bruto"):
Cristãmente, do pó
Me levante impoluto.

Vitorino Nemésio


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Justitia Mater

Tuscany Village
BOB PEJMAN
Associar uma pintura da Toscana a Antero de Quental pode ser alguma coisa de estranho, para quem me ler. As estruturas antropológicas do imaginário têm destas coisas. Todavia, estive ali por duas vezes (1982 e 2009), sempre com o meu subsídio de férias, abdicando de luxos e de coisas materiais que não valorizo tanto como esse partir à descoberta da cultura do Mediterrâneo. Trabalho há trinta e seis anos, desde os dezoito, e continuarei a fazê-lo, se cá estiver, num tempo a perder de vista. 
A Literatura é a minha paixão e profissão. Hoje, só Antero poderá ser a minha voz.

*****
Nas florestas solenes há o culto 
Da eterna, íntima força primitiva: 
Na serra, o grito audaz da alma cativa, 
Do coração, em seu combate inulto: 

No espaço constelado passa o vulto 
Do inominado Alguém, que os sóis aviva: 
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva 
D'um deus que luta, poderoso e inculto. 

Mas nas negras cidades, onde solta 
Se ergue, de sangue medida, a revolta, 
Como incêndio que um vento bravo atiça, 

Há mais alta missão, mais alta glória: 
O combater, à grande luz da história, 
Os combates eternos da Justiça! 

                                           Antero de Quental,
Sonetos
http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/20130187.html

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Da Mudança...

Vladimir Kush


«Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo.», Heráclito



Vladimir Kush



segunda-feira, 1 de abril de 2013

José

Edward Robert Hughes, Heart of Snow


Nota prévia: dizem-me, por vezes, que expresso pouco lirismo. É verdade, sou contida. Euforia e disforia estão fora do meu vocabulário. Prefiro o sorriso à gargalhada e o silêncio ao grito. Tudo isto aprendi com a vida...porém o lirismo perdura, só não o publico. Hoje, abro uma excepção e quebro o «gelo».



Desenham-se aromas celestes
E os teus braços estendem-se,
Agarram a minha vida toda
E cercam o envolvente Amor
Que perfumas...
Sol, azul, calor intenso!
Os teus braços...
Incenso tão meu perfumando
O Amor tão nosso, tão nosso!
E as palavras entram nas palavras
E as palavras colam-se às palavras.
Silenciosa, no ímpeto da vida,
A tua boca...
Unindo, vivificando, enlouquecendo!
Digo-te:
Não há poesia, não há rima, não há regra
Que cante, que defina, que enobreça...
Tua mão segura a minha vida
Perto do orvalho onde a manhã começa,
Perto do tudo onde o uno se alimenta!
Jorra exaltada a Palavra
E entra em nós...
Como fogo, como raio,
Como água pura sussurrando:
Amo-te.


Ana