Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 11 de agosto de 2013

Biblioclastas

Figueira da Foz, 2013 - José Alves
Vivemos num claro país rente ao mar. Detenho-me a pensar num livro a que retorno, pois acredito que neste tempo de convenientes, resilientes e resistentes tudo se apouca ao sabor de uma geração facciosa e clubística. Despreza-se o intelecto, morada impertinente, e banaliza-se no «politicamente correcto» um atraso civilizacional assustador. Esta é, por certo, a mais subtil forma de ignorância e o sinal óbvio do fim de uma civilização.
Existem formas ignóbeis de desprezo, a pior de todas é a da intolerância para com o saber daqueles que não são duplos de nós próprios. Isso aconteceu na História da Humanidade e repete-se. Fernando Báez explica-o bem na obra a que retorno.


Ocorre-me esta reflexão, perante a forma volúvel como foram noticiadas a morte e as exéquias de Urbano Tavares Rodrigues. A sua arte literária, a sua carreira universitária e a sua índole não se reduzem a uma «militância», mas assim perpassou na comunicação social que tudo aligeira sem massa crítica nem conhecimento. Habitando o sistema educativo entendo esta falta de profundidade, este verniz de pudor cretino, este clamor de aparências e cores de papagaios tropicais que povoam o nosso Verão boreal. Tantos egos e tantos vazios...tanta ruína, e a pior de todas é a humana!

Vivemos um ocaso «à beira-mar plantado».

Figueira da Foz, 2013 - José Alves

No dia 9 de Agosto de 2013
houve uma vaga de calor. De certo modo
ele morreu dentro de um seu romance-
Não foi notícia de abertura. Os telejornais
mostraram mulheres gordas em Carcavelos
e um sujeito pequenino (parece que ministro)
a falar de “cultura política nova.”
Mais tarde este dia será lembrado
como a data em que morreu
Urbano Tavares Rodrigues.

Manuel Alegre
Lisboa, 9/8/2013


Este o romance que inspirou Manuel  Alegre

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Horas de vidro

Instituto Camões


Conheci o professor no fim dos anos setenta na Faculdade de Letras de Lisboa. Nunca foi meu mestre, mas a presença firme e o sorriso suave conduziram-me à descoberta da sua obra. Tornei a estar perto dele no final dos anos noventa...O meu mundo ficou mais pobre. O meu país vai tombando em ruínas...
Adeus professor!




Destino

I


Trago na fonte
e estrela do fogo
da minha revolta
Nunca aceitaria qualquer tirania
nem a do dinheiro
nem a do mais justo ditador
nem a própria vida eu aceito...
tal como ela é
com todas as promessas
do amor e da juventude
e a parda doença
de envelhecer
a morte em cada dia
antecipada


II


Na mais labrega alforja
ou na cama de folhas macias
da floresta
onde a chuva te adormeceu
há sempre um diamante de sol
cujos raios te penetram de
ventura
ao sonhares a palavra
liberdade


III


Quando a terra poluída
tiver sorvido
toda a água dos lagos e das
fontes
hei-de levar o meu fantasma
até ao porto sonoro
onde a esperança cai a pique
sobre o mar dos desejos sem limite



                           Urbano Tavares RodriguesHoras de Vidro




sábado, 3 de agosto de 2013

Rumo à Claridade!

Vladimir Kush



Partiremos no vento
Rumo à Claridade
Voltaremos náufragos
Sôfregos de Verdade

Ficará o poema
A voz que não trema
Aquele que não tema
Novos arquipélagos 

Partiremos no vento
Rumo à Claridade

Ana

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Muitos optaram pelo silêncio...




Mario Vargas Llosa, o escritor peruano nascido em 1936 e prémio Nobel da Literatura em 2010, nem sempre foi um dos meus autores de eleição. Hoje, no entanto, aproveito os longos dias de calor para retornar aos livros - o computador é, ele mesmo, mais uma labareda... Llosa não tem a escrita burilada que me cativa, mas nele existe uma lucidez que me encanta. Jamais é fútil ou ligeiro, mesmo quando escreve obras infantis. 
A obra que leio é uma fina análise na qual o ensaísta, o escritor e o jornalista fazem uma admirável síntese dos nossos tempos. A obra começa por chamar T.S. Eliot, George Steiner, Guy Debord, Gilles Lipovet­sky, Jean Ser­roy e Frédéric Mar­tel, para aju­darem a car­ac­teri­zar a “meta­mor­fose” da cul­tura con­tem­porânea, e ter­mina con­vo­cando Nicholas Carr, autor de Os super­fi­ci­ais, para falar sobre “o que a Inter­net está a fazer aos nos­sos cére­bros”.
Aqui vos deixo uma visão geral:

Sinopse
A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afecta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, actua como mecanismo de distracção e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio. Uma duríssima radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, pelo olhar inconformista de Mario Vargas Llosa.(Wook)
Mario Vargas Llosa

Claro que o título me fez lembrar uma outra obra que até por aí circula na rede, mas com uma perspectiva bem diversa, esta: