Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Perco-me por Atenas...

José Alves, Atenas
Garrafa de água em punho, perco-me por Atenas. Imensa e caótica, respira o ar de abandono de um cenário por onde invasores e lutas se cruzaram. 

Atenas, José Alves
Gente solitária parece caminhar arrastando os seus temores...

Atenas, José Alves
Muitos atenienses partiram, num abandono escravo...que Atenas nunca será Esparta!

Atenas, José Alves
Rostos sírios, orientais, búlgaros, romenos...unidos pela pobreza evidente. Rostos em fuga, rostos sem censo. Quantos milhões aqui habitam? Ninguém sabe ao certo. Um aroma intenso de «souk». Sorrio. Também eu não pertenço à polis.
Atenas, José Alves



sábado, 20 de agosto de 2016

No coração de Atenas


Ágora Antiga, José Alves

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
                                              Constantino Kaváfis 

Parthenon, José Alves


José Alves

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Um dos cem mais belos poemas...


Atenas, http://static.ci.com.br



À espera dos bárbaros


O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
                                              Constantino Kaváfis 
(Tradução de José Paulo Paes)

sábado, 16 de julho de 2016

Fraternité

expedia.com

O lugar é muito belo. Ali, o Mediterrâneo beija suavemente uma orla de areia grossa e acordámos de espanto na nossa primeira grande viagem, aturdidos pela beleza e pelo encantamento permanente dos iniciados. Tão jovens, mal tínhamos passado os vinte anos e o peito mal continha a avassaladora paixão que, assim, uniu o meu Sul e o teu Norte. Havia gente, serenamente, nas ruas, mas nós pulámos para a praia, para o duche e para o encanto da longa marginal - «Promenade des anglais».
Estivemos, ali, mais duas vezes com o nosso filho. O encanto já não tinha a novidade, mas perdurava ainda. A luz clara, o azul tão puro, o Amor!
Agora, letras de sangue orlam este mar e desaguam naquela rua feita de verão e dos sonhos viajantes.
A barbárie e a loucura espreita em cada esquina o homem comum que ainda acredita na Humanidade...

Ana

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Estradas

CM Etremoz

Sentámo-nos numa esplanada da praça. Dezasseis horas. Trinta e seis graus, sol a pique e uma brisa doce. Estamos tão bem aqui. Comemos um «rainha santa»...e a praça em frente, empedrada com cores claras e traçada de quadrículas pretas, gera uma geometria de exactidões. Ao longe, um monumento bélico recorda a I.ª Guerra e uma frase aí inscrita martela-me intimamente: «Só aos fracos a morte intimida...». É o berço exigente da minha terra. Estive ali inúmeras vezes e dali partiu a minha amiga, no fulgor dos seus vinte e tantos anos, para trabalhar comigo. Não chegou. Nunca mais chegou. As estradas enganosas da minha planície a levaram. 
Estremoz é um lugar assim. Notas soltas na nostalgia doce de uma tarde calma, quente respirar fremente da vida ainda por viver.
- Vamos, traz-me uma água fresca, por favor.
Bênção serena da vida.

Ana