Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Temos o dever

Revista, Exame


Esta não é uma marcha triunfal. 
Não vivemos num tempo em que possa perdoar o hedonismo. A ilusão do mundo virtual não pode distrair a triste realidade de afloramentos perigosos. A decadência narcisista tomou conta dos valores humanos, especialmente no, dito, Ocidente...
Entre o Modernismo e uma Idade por vir, atolamos a Humanidade numa Idade do Meio, uma Idade Média em que tudo se desconstrói.
Temos o dever de desconstruir a superficialidade reinante.
Assim, e para que nunca possas dizer que não te falei das flores, recordemos o duro silêncio de todas as religiões e a mudez de todas as almas que se dizem boas...
Não me peças um poema doce, pois este é um caminho a perigosos regressos e já outros, antes de mim, ergueram as suas vozes. 





Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou não Nas escolas nas ruas, campos, construções Caminhando e cantando e seguindo a canção Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer Pelos campos há fome em grandes plantações Pelas ruas marchando indecisos cordões Ainda fazem da flor seu mais forte refrão E acreditam nas flores vencendo o canhão Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Há soldados armados, amados ou não Quase todos perdidos de armas na mão Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição De morrer pela pátria e viver sem razão Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Nas escolas, nas ruas, campos, construções Somos todos soldados, armados ou não Caminhando e cantando e seguindo a canção Somos todos iguais braços dados ou não Os amores na mente, as flores no chão A certeza na frente, a história na mão Caminhando e cantando e seguindo a canção Aprendendo e ensinando uma nova lição Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

domingo, 4 de novembro de 2018

Ao Deus de Espinoza...





"Orfeu Encantando os Animais", por Aelbert Cuyp, 1640



Baruch Espinoza nasceu em 1632 em Amesterdão, descendendo de judeus portugueses, e morreu em Haia em 1677. Foi um dos grandes racionalistas do século XVII, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.   
Em certos dias, apetece-me orar ao Deus de Espinoza... 




      
DEUS SEGUNDO ESPINOZA

"Pára de ficar rezando e batendo no peito!

O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e usufruas da tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que fiz para ti. 

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e

frios que tu mesmo construíste e que acreditas serem a minha casa.

A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas

praias.

Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti. 

Pára de me culpar da tua vida miserável:

Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, 

ou que tua sexualidade fosse algo condenável.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar 

o teu amor, o teu êxtase, a tua alegria.

Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer. 

Pára de ler supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.

Se não podes ler - Me num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus

amigos, nos olhos de teu filhinho...

não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais - me dizer como fazer o meu

trabalho? 

Pára de ter tanto medo de mim. 
Eu não te julgo, nem te
critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.

Eu sou Puro Amor.    Pára de me pedir perdão. 

Não há nada a perdoar.

Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres,

de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.

Como posso culpar-te se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso castigar-te por seres como és, se Eu sou quem te fez?

Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos

que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?

Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de

mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te

manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.

A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que

teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho,

nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.

Esta vida é a única que há aqui e agora, e a única de que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prémios nem castigos.

Não há pecados nem virtudes.

 Ninguém leva uma placa.
 Ninguém leva um registo.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso dar-te um conselho:

Vive como se não o houvesse.

Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.

Assim, se não há nada, terás aproveitado a oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não te vou perguntar se foste bem

comportado ou não.

Eu vou perguntar-te se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais

gostaste? O que aprendeste? 

Pára de crer em mim - crer é supor,
adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas

tua filhinha, quando acaricias o teu cachorro, quando tomas banho no
mar. 

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra acreditas, tu, que Eu seja?

Aborrece - me que me louvem. Cansa-me que agradeçam.

Tu sentes-te grato?
Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tuas relações, do mundo.

Sentes-te olhado, surpreendido?
 Expressa a tua alegria!
 Esse é o modo de me louvar.   
Pára de complicar as coisas e de repetir como

papagaio o que te ensinaram sobre mim.

A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este

mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisas de mais milagres?

Para quê tantas explicações?

Não me procures fora! Não me acharás.
Procura-me dentro de ti,
aí é que estou."



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Einstein, quando interrogado se acreditava em Deus, respondeu:

"Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo e na

harmonia de tudo o que existe.

domingo, 28 de outubro de 2018

Cega e Paralisa


Portinari, Guerra e Paz, ONU



No ano de 1940, um grande poeta brasileiro, escrevia um poema intemporal a que deu o sábio título de «Congresso Internacional do Medo». Imperioso lê-lo, hoje, quando o mundo se agita em desequilíbrios de toda a ordem e no momento em que muitas sombras espreitam. 
O Medo cega e paralisa a consciência humana.



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


                                                        Carlos Drummond de Andrade


Portinari FB Mão - Estudo Guerra e Paz
Cândido Portinari, A Construção de uma Mão



“Não, essa ameaça da barbárie fascista não desapareceu totalmente. Por isso, apelamos sempre para uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massas, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos. A todos aqueles e aquelas que construirão o século XXI, dizemos com carinho: criar é resistir. Resistir é criar”.


Stéphane HESSEL, Indignai-vos!, 2010

domingo, 7 de outubro de 2018

No gume

Pedro Lima


É no limiar do sonho
Na pura escorrência 
Que a luz se inicia

Orvalho da ousadia
Permanência e energia

É no gume do sonho
Na emergência do dia
Que o Amor principia


Ana


sábado, 29 de setembro de 2018

«Janela do Caos»


O amor em tempos de caos Jan Toorop ( Johannes Theodorus Toorop )
 1858 - 1928 Holandês pintor indonésio simbolismo 


Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.
Fome, litoral sem coros,
Duro parto da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.


(mestre da poesia brasileira) Murilo Mendes, «Janela do Caos»



Indonésia, hoje, Estadão