Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

«Traduzir-se», Ferreira Gullar

Alentejo, Google




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Porta

 Através das portas do Propileus,  Acrópole de Atenas,  Grécia - 14/11/2016 (Alkis Konstantinidis/Reuters)





Por esse pórtico, amor, subimos um dia,
Quietos, serenos, ébrios de sonho.
Buscámos a paz íntima, a energia
Que apagasse o íngreme e o medonho
Peso de um quotidiano sem alegria...
Para nós, Péricles desenhou esta porta
E não para os vindouros do Peloponeso.
O eco  dos deuses ainda nos exorta
E o prumo continua recto e ileso!

Ana

sábado, 12 de novembro de 2016

PARA O MEU VELHO LAYTON




Casa onde viveu L. Cohen (Martha Gonzalez)




Ele oculta a sua dor sem dono
em frases de amor
da mesma maneira que um gato esconde as fezes
debaixo das pedras e aparece durante o dia,
arrogante, limpo, rápido, disposto
a caçar ou dormir ou a perecer de fome.

A cidade recebe-o com lixo
que ele interpreta como um elogio
da sua musculatura. Cascas de laranja,
latas, tripas chovendo como papel de telétipo.
Durante algum tempo ele destruiu as suas noites
com a sua sombra reflectida na janela da lua cheia
enquanto espiava a paz da gente vulgar.

Uma vez invejou-os. Agora com um feliz
uivo saltava de monumento em monumento,
penetrava nos seus lugares mais sagrados, ébrio
de saber quão perto vivia dos mortos
debaixo da terra, ébrio de sentir o muito que queria
aos seus irmãos que ressonavam, os velhos e as crianças da cidade.

Até que por fim, cansado como Tímon
do odor humano, ressentindo-se mesmo das suas próprias
pegadas no deserto, dedicou-se a caçar animais, e adornou-se
com braceletes de serpentes vivas e cizânias.
Enquanto a maré descia como uma manta,
ele dormia em cavidades das rochas um sono pesado
sem sonhos, a aragem brilhante do sol
como se fosse um laboratório automático
formando cristais no seu cabelo.

Leonard Cohen



Hydra, Grécia (Ilha onde viveu uma parte da vida), Martha Gonzalez

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Políticos: a dimensão social e ética

πολιτικός
POLÍTICO (dos cidadãos ou do estado).

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Cinza

Juarez Machado



Sobre a cinza dos dias...é o tempo que voa, em ruínas.