terça-feira, 10 de Novembro de 2009

As viagens são um regresso...


fotografia aqui

Publico, hoje, para os meus amigos, um «post» de Fernando Campanella. Aqui vos deixo a prova viva de que a lusofonia traz num fio da memória a Língua que somos e nos dá um rosto trazido de algures...lá onde nasceram os mitos. Bacia serena de algum mar interno, por onde andámos, velhos persas sem rumo, gregos por ruas de Alexandria quando a cidade vivia um apogeu antigo e rumávamos a Rodes, sabendo que Ítaca estava distante.
Que rumor é este que trazemos na nossa Língua?


http://dawg.nanologica.net/wp-content/uploads/2006/06/alentejo.jpg

nanologica.net
Alentejo



Eu, que não vivi o Alentejo,
que não voei com as cegonhas
sobre suas albufeiras ao entardecer
( nem em suas quintas pernoitei)

e que não cantei odes
à glória de um D.Manuel e suas esquadras
( nem o Tejo naveguei)

que às suas capelas
não me desfiz dos ossos,
não me embriaguei do néctar de seus deuses
nem de sua flor mais bela
em Évora me enamorei,

eu, disso tudo,
por descompasso dos astros,
me privei.

Mas, oh, fado lusitano,
oh, alma dolente e migrante,
tua nostalgia,teu estar nunca estando,
esta sede por outros mundos
eu herdei

Fernando Campanella



http://1.bp.blogspot.com/_U5HBV416zFg/SC46VrJqtYI/AAAAAAAABEs/cvYsEwOOrAg/s400/Blog_Itaca.jpg

MARES NUNCA D' OUTREM NAVEGADOS

Escrever sobre o Alentejo sem nunca ter estado em Portugal? Seria como falar do outono de New England sem ter visto in loco as tonalidades de suas folhas nessa específica estação do ano. Ou como falar dos ursos que em nosso inverno jamais vieram hibernar.

E no entanto falamos. E como poetas, cantamos, em nosso ritmo próprio, tanto as paisagens que nos são peculiares, tão nossas, como as que são de outros. Cantamos nossas montanhas, se as temos, nossas planícies, se as desbravamos, nossa gente com quem convivemos. Mas também descrevemos longos desertos que nunca percorremos, divagamos sobre galáxias que jamais viremos a conhecer: os tais 'mares' nunca d'antes, nunca d'outrem navegados.

"Para conhecer o mundo/ Não é necessário viajar pelo mundo..."*, dizia Lao Tsé. Com esses versos, o velho, lendário, mestre nos leva a refletir sobre o verdadeiro conhecimento, tão difícil como necessário, do eu mais profundo, com seus mitos.

Especialmente quando escrevemos sobre o nosso e os outros mundos, é o espaço mítico que adentramos, a nossa realidade interna, apossando-nos da geografia própria, ou alheia, apenas para transformá-la em símbolos, em matéria de sonho.


Konstantinos Kaváfis em seu poema 'Ítaca' empreende uma viagem a essa ilha grega, porém é um périplo interior, um retorno ao alumbramento dos sonhos que lhe povoam a alma. Não é a Ítaca física, de sua época, com suas vinhas, seu turismo pouco desenvolvido, a que visita, mas a terra de Odisseu, o território mítico:

“...Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
Bem compreenderás o sentido das Ítacas.”

(Ítaca, Konstantinos Kaváfis, trad. de Haroldo de Campos)

Escrevo sobre o Alentejo, pois, sem nunca ter estado em Portugal. Pelo converso, um alentejano poderia escrever sobre Minas sem minha região ter visitado. Eu o entenderia: o imaginário não se limita ao tempo-espaço, tem a sua característica dinâmica por onde tramita todo o universo.

A Pasárgada do Bandeira, a Bizâncio de Yeats... O mito é recorrente, eterno, ultrapassa o humano. Caminha com as próprias, teimosas, pernas, é de todos, e ainda não se fixa, não é prerrogativa de Ítaca, do Alentejo, de Minas, em particular, de ninguém.

Fernando Campanella

Obrigada, Fernando!


quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Σοφία


Castelo do Alandroal (Wikimedia)

Endovélico,
velho deus,
de meus ritos
de menina...
Lusitânia antiga
em ti me abriga.
Maat, minha mãe,
com justiça,
com equilíbrio,
abriga-me
também.

Ana




fonte: Wikimedia

http://repositorio.up.pt/aberto/bitstream/10216/9379/3/jacdiasvol02completo000065991.pdf
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v6n2/folder/415.pdf

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Em Novembro

Kazimir Malevich, O amola-tesouras



Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira


tudoben.com

Ficou cinzento este dia três de Novembro. Nuvens pesadas de tensão e de turbulência caem sobre os professores. Foi o mundo que mudou: instalou-se, para fracassar numa espantosa implosão, a experiência não experimentada.
Que me importa isso? Nada.
Lá atrás, na minha infância, em dias assim ...chegava o amola-tesouras e as mulheres vinham em nuvem dirigida por Abel, o alfaiate, para aprimorarem as tesouras que lhes iriam recortar os dias.
Hoje, há nuvens de chumbo que pesam sobre mim e o amola-tesouras assobia com estridências antigas, pelas ruas da minha terra.
Chove.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Beira


Perdemo-nos pela Beira.
Paisagem fantasmagórica com escuros vales. Braços de árvores erguidos, velhos troncos de incêndios antigos. Memórias de Verão sem sossego.
Grifos erguem-se do passado e a memória de mitos esotéricos sobressalta - me...
A Beira inquieta-me
.




A voz do querido Professor Lindley Cintra ecoa, de longe, e traz-me a lenda do Rei Wamba, último dos visigodos que aqui reinou, no século talvez sétimo.
Godos, velhos habitantes peninsulares que nos transmitiram este catolicismo que se entranha, aqui, em cada pedra.
E, bruxas que não vemos, vagueiam pelos socalcos pedregosos caminhando para Espanha.



Até o Tejo se estreita o quanto pode, quase com Ródão a fechar-lhe as portas.
Os homens têm ares de velhos Viriatos - peito forte, cabelo farto, ar de guerreiros capazes de enfrentarem a última legião romana.
E, lá pelos lados da Serra da Gardunha, naves extraterrestres rasgam as noites mais escuras, sem que os homens se maravilhem.




As nuvens caem baixas, como farófias gigantescas, e acontecerá decerto algum milagre.
A minha Fé, que já existiu e me perturba agora cada dia, como se fora caminho para o Inferno, aflora nestas rochas superficiais. Se me distrair...

Ao longe, gigantes eólicos quixotescos, rodam braços energéticos e apontam um futuro que não sabemos se seremos capazes de habitar.





Perdemo-nos pela Beira.


http://www.energiasrenovaveis.com/images/upload/per0067_1.jpg

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Fascínio

Amadeu de Souza-Cardoso

Quero amar o silêncio
E conceber nele a ideia mais pura,
Porque desse sonho imenso
Há-de brotar a frescura!

Perfume e encanto,
Fascínio e dor...
Rosário de pranto,
Sacrifício de Amor.

Quero sofrer esse Tudo
E entregar nele um gesto mudo,
Porque dessa dádiva total
Há-de renascer o Ideal!

Criança e mar...
Desejo e lamento,
Abismo de dar...
Cruz sem sofrimento!

Ana

Todo o existente nasce sem razão


foto: Karim Kadim, 25/09

«Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por encontro imprevisto.»

Jean Paul Sartre

sábado, 24 de Outubro de 2009

Cavalgada


José Alves - 10/09

Esporeio a minha montada,
Sigo a trote pela pradaria
.




José Alves - 10/09


Faço outra cavalgada
Ao país da Fantasia.



José Alves - 10/09


Cavalgo na estrada da vida!
Atravesso o rio do Sonho!




José Alves - 10/09


Agora vou numa descida,
Ontem pulei um penedo medonho.


José Alves - 10/09


Estava triste ...
Cavalgava na margem do pranto



José Alves - 10/09


Que, agora, não existe!



José Alves - 10/09


Hoje, cavalgo na pradaria,



José Alves - 10/09


Pois encontrei, com espanto...




José Alves - 10/09


O Jardim da Alegria!



Ana



É tão suave o Outono boreal, na minha terra, que já se adivinha o Verão de São Martinho. Tontos de luz por esta falsa Primavera, os campos dourados cobrem-se de verde pálido - «l'été indien», da velhinha canção, trina dentro de nós...
Quero ser o sol e o sul suave destes sítios.