Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 25 de abril de 2017

Aos dezasseis anos...




Depois de quatro quilómetros de bicicleta, cerca de trinta de autocarro e de surpreendentes notícias no rádio da velhinha 300 dos Claras, lá chegámos a Abrantes. Ao  lado esquerdo da estação de camionagem estava a sede da P.I.D.E./D.G.S. ... No Liceu a vida vibrava, espelhada no Tejo! Foi ali que vivi o dia claro, bem no polígono militar e, não só...




segunda-feira, 24 de abril de 2017

Em ondas de luz

Ruínas do Parthenon grego, antigo templo - Acrópole - Atenas (José Alves, 2016))



Ecos na distância
atroam, perturbam
a primaveril fragrância
que a brisa nos traz

Vozes que clamam
na multidão, na turba
E
Na humana condição
há um ideal que conduz
aqueles que ainda chamam
a voz interior que os perturba

Em ecos de Luz
Caminho de Paz

Ana

sábado, 22 de abril de 2017

A Forma Justa

Acrópole de Atenas, Propileu - José Alves


Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Da tranquilidade...


Doitri.com




Há, no meu jardim, um pouco dos lugares por onde andei. O Mediterrâneo veio aqui desaguar, numa branda transparência de azuis, numa onda íntima de sossego e serenidade. Há, no meu jardim, uma Humanidade que se mescla nos odores adocicados deste Abril de espanto e dor. Nele me distendo, depois de duros dias de trabalho. Refúgio onde me sento e releio Kafka. Que querias que lesse, nos dias que correm? Deixa a tua torre de marfim, sai do teu pequeno mundo, olha ao redor...Este é o momento que ele definiu tão bem: ansiedade e alienação!


Ana


segunda-feira, 20 de março de 2017

Hu.ma.ni.da.de

Itália, Veneza


Há mundos líquidos, por onde correm os sonhos dos homens. Lugares idílicos, aonde se reinventam rumores de antanho. Primaveras secretas que arfam no peito dos lunáticos e dos amantes devorados pela paixão e, esta, paradigma do destino último da humana condição - a morte.

Secretos, intranquilos, mergulhamos na atonia e no caos.

Que restará desta geração que - absorta, edonista e irascível - se afunda lentamente, pasmada no plasma e na contemplação de si mesma?

Haverá lugares obrigatórios e guerras necessárias?

Já te amei em Veneza e cruzei o Trieste quando a guerra grassava tão perto...
Só te posso afirmar aquilo que sei: o amor está em qualquer lugar e o sangue dos homens não é a nossa herança comum nem constrói o futuro - não te iludas, todavia! 
Somos a Humanidade.


Ana


Líbia, Sirte









hu·ma·ni·da·de 
(latim humanitas-atis)
substantivo feminino
1. O conjunto dos homens.
2. Natureza humana.
3. Género humano.
4. Bondade.
5. Benevolênciacompaixão.

"humanidade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/humanidade [consultado em 20-03-2017].


domingo, 19 de março de 2017

Da Guerra

O nascimento de Vénus - Botticelli


Não creias nas aparências
Frívolas consciências
Que o mais feio dos deuses
Te está fadado

Vulcano que o fogo acende
Teu marido por castigo
Que trais com Marte
Que a guerra ama

Ah a fútil a inconstante
Humana condição
Que trai em cada dia
A quieta via da evolução.

Ana




Mohammad Mohiedine Anis, senhor de 70 anos que vive em Aleppo, região de conflito na Síria (Joseph Eid/AFP)









terça-feira, 7 de março de 2017

O Excesso



Alexandre Séon, Le retour

Se chorar, dirás que sofro...
E, todavia, o céu telúrico.
E, todavia, os teus passos,
Os teus laços,
Tu...
O palpitar constante,
O ser difuso, divagante!
Não sei do espaço,
Perdi o tempo,
No momento
Em que tocaste o meu sonho!
A beleza, a nobreza...
O excesso e o reverso...
E, se te sonho e te quero,
Tu és a calma, a agitação
- o meu processo!
Se chorar dirás que sofro!
O habitual, o convencional...
Porém, há um hino divinal
E pássaros entram pelas vidraças,
Se me abraças...
E te perdes.

Ana


Nota: talvez pelo excesso de trabalho e enorme falta de tempo disponível, talvez pelo sol radiante e pelo toque primaveril que actualiza as paixões...reedito este poema. 
Bom dia, amigos.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Ferinos



                                                                           Hans Dahl, pintor norueguês





Nas asas do vento passam os dias.
Breves silêncios deslizam secretos.

São pontos ferinos na réstia de luz!

Quietos os beijos que pedias...
Leves desejos de quem seduz.


Ana

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sugestão de leitura






Espera-se que fale do livro, do outro...livro. Só posso recomendar este. O resto é mesmo isso - o resto. Daí a verborreia com o seu carácter prolixo.







segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sem receio

Luis Dourdil



Andamos sobre a fímbria dos dias e, na distância, procuramos vultos insanos  que nos fazem temer um devir sem esperança. 
Compete-nos não desistir. Compete-nos resistir. 
Que importa se os pés vão nus e o caminho é longínquo?
Caminhamos, ainda, na direcção do ideal. Ao longe, outro mais frágil nos espera. No peito fechámos o alento. No braço empunhamos a serenidade.
Não me digas que, do outro lado, existem muros e que a Humanidade definha rumo a um ocaso qualquer...
Ao longe, ainda arde Alexandria.


Ana



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Empobrecendo...






O filósofo, linguista e crítico literário búlgaro, com quem muito aprendi...



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Apagaram-se os holofotes







Somos uma sociedade espectáculo, mas a minha natureza é comedida, quieta, e julgo que é muito importante vigiarmos as palavras que deitamos sobre o mundo - difícil será sabermos quais são «as palavras necessárias», expressão tão batida e tão inexacta. Quais são essas palavras? Qual é essa palavra?
Vivemos tempos de profunda inquietação. 

Há palavras necessárias!

Agora, que se apagaram os holofotes, ponderei deixar aqui um testemunho. Nele não há poesia, nem paixões de momento. Vivi estes factos na primeira pessoa, uma criatura anónima e sem emblemas na lapela.

Decorria o ano de 1976 e eu acabara de realizar um exame, a nível distrital, de acesso ao Ensino Superior nas disciplinas de Português e de Francês. A sociedade provinciana alentejana vivia tempos de grande perturbação social, nos quais se misturavam amores e ódios de vária ordem. Mudavam-se paradigmas e escolhiam-se caminhos. O sistema educativo ressentia-se das mudanças e apuravam-se caminhos. Aos dezassete anos, o Verão não cabia nos meus sonhos. Crescida entre montados e searas de trigo, dos meus avós, por motivos que se adivinham e que a História conta, era urgente que tomasse a vida nas minhas mãos. Assim, apesar dos dezanove valores (já tenho idade para falar nisto sem pudor exibicionista), decidi procurar trabalho. O interesse local reparou que aquela aluna da Faculdade de Letras, quando completou dezoito anos, era também professora...e tentaram conhecer-me e recrutar-me (assim eram os tempos). Vida cívica activa, mas apartidária...um alvo a atrair.
Tempos de grande esforço físico e intelectual, que o vigor dos verdes anos sabe sempre acalentar. Lisboa era distante, o trabalho intenso e para ser escrutinado (tão jovem e sem o curso completo)...e tudo aquilo que se adivinha.

Um belo dia, recebi um grosso envelope do gabinete do Primeiro Ministro com os impressos para uma bolsa de estudo da Fundação C. Gulbenkian, devidamente preenchidos e prontos a serem entregues. Uma carta explicava-me o porquê e incentivava-me a dedicar-me apenas ao estudo. Assinada: Mário Soares. O meu caminho estava escolhido e a minha resposta foi negativa, acompanhada de uma breve explicação pessoal. Nesse dia, ganhei o apreço de um homem que soube ouvir um não.  Assim o respeitarei. 

Ser livre é essencial, muito especialmente nos tempos em que vivemos.

Ana





terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Algures

dez anos...



Voltei nessa brisa que tão fria passa,
Prenúncio de primaveras distantes.
E os sonhos dançam sob ameaça
De quentes Verões dilacerantes...
Todavia o oráculo, tão dúbio,
Trará de antanho a imagem baça
Deste zurzir, desde  o Danúbio,
Na longa linha que na Europa traça!
E, erguer-se-ão os gritos humanos
Nesse suão por que firmes ansiamos.


Ana



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Regressos

Rob Gonsalves, Sweet city


Na procura de conhecimentos, o primeiro passo é o silêncio, o segundo ouvir, o terceiro relembrar, o quarto praticar e o quinto ensinar aos outros.
Textos Judaicos