Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Apagaram-se os holofotes







Somos uma sociedade espectáculo, mas a minha natureza é comedida, quieta, e julgo que é muito importante vigiarmos as palavras que deitamos sobre o mundo - difícil será sabermos quais são «as palavras necessárias», expressão tão batida e tão inexacta. Quais são essas palavras? Qual é essa palavra?
Vivemos tempos de profunda inquietação. 

Há palavras necessárias!

Agora, que se apagaram os holofotes, ponderei deixar aqui um testemunho. Nele não há poesia, nem paixões de momento. Vivi estes factos na primeira pessoa, uma criatura anónima e sem emblemas na lapela.

Decorria o ano de 1976 e eu acabara de realizar um exame, a nível distrital, de acesso ao Ensino Superior nas disciplinas de Português e de Francês. A sociedade provinciana alentejana vivia tempos de grande perturbação social, nos quais se misturavam amores e ódios de vária ordem. Mudavam-se paradigmas e escolhiam-se caminhos. O sistema educativo ressentia-se das mudanças e apuravam-se caminhos. Aos dezassete anos, o Verão não cabia nos meus sonhos. Crescida entre montados e searas de trigo, dos meus avós, por motivos que se adivinham e que a História conta, era urgente que tomasse a vida nas minhas mãos. Assim, apesar dos dezanove valores (já tenho idade para falar nisto sem pudor exibicionista), decidi procurar trabalho. O interesse local reparou que aquela aluna da Faculdade de Letras, quando completou dezoito anos, era também professora...e tentaram conhecer-me e recrutar-me (assim eram os tempos). Vida cívica activa, mas apartidária...um alvo a atrair.
Tempos de grande esforço físico e intelectual, que o vigor dos verdes anos sabe sempre acalentar. Lisboa era distante, o trabalho intenso e para ser escrutinado (tão jovem e sem o curso completo)...e tudo aquilo que se adivinha.

Um belo dia, recebi um grosso envelope do gabinete do Primeiro Ministro com os impressos para uma bolsa de estudo da Fundação C. Gulbenkian, devidamente preenchidos e prontos a serem entregues. Uma carta explicava-me o porquê e incentivava-me a dedicar-me apenas ao estudo. Assinada: Mário Soares. O meu caminho estava escolhido e a minha resposta foi negativa, acompanhada de uma breve explicação pessoal. Nesse dia, ganhei o apreço de um homem que soube ouvir um não.  Assim o respeitarei. 

Ser livre é essencial, muito especialmente nos tempos em que vivemos.

Ana





9 comentários:

ginginha disse...

Rara Avis, é, Ana e a liberdade é essencial, muito especialmente, nos tempos que atravessamos! Deixo-lhe um abraço. Posso?

Rogerio G. V. Pereira disse...

Existem "nãos" que devem sempre ser respeitados,
independentemente do "não" em questão
e de quem o soube respeitar...

Graça Pires disse...

Um testemunho de uma Mulher que conhece o seu lugar no Mundo...
Quanto a Mário Soares, sempre me pareceu ser um homem que respeitava a escolha de cada um.
Obrigada, Ana por este teu texto que gostei imenso de ler.
Uma boa semana.
Um beijo.

Mar Arável disse...

Sempre me pareceu que dizer não
nunca foi fácil
mas no meu caso o caminho certo
porque quase tudo na vida se conquista

Bjs

Majo Dutra disse...

Mário Soares, admirava e respeitava
os bons adversários...
Foram tempos muito especiais
em que as paixões andavam ao rubro...
Beijinhos, estimada Ana.
~~~~~~~~~~~~~

Ana Tapadas disse...

Eu nunca fui uma adversária de Mário Soares...bem ao contrário!
Bj

Majo Dutra disse...

Lamento o lapso e mal-entendido,
estimada amiga.
Foi uma boa lição!
Não mais vou comentar o que não entendo
perfeitamente.
Beijinho.
~~~

Ana Tapadas disse...

Um beijinho Majo! Eu não fui muito clara no apreço...

Odete Ferreira disse...

Apreciei este grande testemunho.
(Do Alentejo tenho a memória dos romances que li, do dito neo-realismo. E sinto-o como uma região irmã do meu Trás-os-Montes)
Achei curioso: também sou de Português/Francês.
Tudo e bom :)