Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 7 de outubro de 2018

No gume

Pedro Lima


É no limiar do sonho
Na pura escorrência 
Que a luz se inicia

Orvalho da ousadia
Permanência e energia

É no gume do sonho
Na emergência do dia
Que o Amor principia


Ana


sábado, 29 de setembro de 2018

«Janela do Caos»


O amor em tempos de caos Jan Toorop ( Johannes Theodorus Toorop )
 1858 - 1928 Holandês pintor indonésio simbolismo 


Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.
Fome, litoral sem coros,
Duro parto da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.


(mestre da poesia brasileira) Murilo Mendes, «Janela do Caos»



Indonésia, hoje, Estadão








domingo, 23 de setembro de 2018

Primeiro dia

Lago de Zurique, 2018 - José Alves


Trago, ainda, no olhar o reflexo benigno do Zürichsee e tombo num mundo às avessas. Incrédula, neste primeiro dia...


«Dois dias de aulas, dois esfaqueamentos em escolas. Segundo avança a TVI24, um aluno de uma escola de Ponte de Sor foi atacado por um colega, nesta terça-feira. O agressor, de 18 anos, foi detido pela GNR.
Um adolescente de 16 anos foi esfaqueado por um colega, na manhã desta terça-feira, na Escola Secundária de Ponte de Sor.» (PT, Jornal)

Meus alunos, meus alunos...no intervalo da minha aula, que semente de violência germinou?

Ana



sábado, 8 de setembro de 2018

Há Lugares

Rio Limmat, 2018 - José Alves


Há lugares onde os rios não correm para o mar.


Suíça, 2018 - José Alves


Há lugares onde os  sonhos ancoraram e a diversidade se instalou.



Zurique, 2018 - José Alves


Há lugares a que retornamos quando o Amor nos impele.


Rio Limmat, 2018 - José Alves


Há lugares de um brilho que a chuva de Agosto não pode ofuscar.


Suíça, José Alves - 2018


Há lugares de um degelo tão puro que a vida principia.


Suíça, 2018 - José Alves


Há lugares de minúcia que nos beijam e acolhem.


Lago Zurique, 2018 - José Alves



Há lugares onde o fruto do nosso Amor se instalou.



sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Rumos

José Alves, 2018


Só fui onde o coração me levou...


José Aves, 2018



...e voltei.






sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Franco, o galego

Caminha, José Alves - 2018

Caminha...assim, suspensa nos dias da nossa memória. A luz irreal de uma manhã tão quente quanto a nossa paixão. 



Foz do rio Minho, José Alves - 2018

Luminosa e atenta claridade descendo até à foz. Santa Tecla contemplando o português que se agita e curva sobre o barco frágil...


Foz do rio Minho, José Alves - 2018

Já não se houve o som dos tiros. Mostraste-me, por vezes, as paredes fronteiriças de Guarda, a galega vila defronte, com as marcas das rajadas de execução. Lembravam-se, ainda, desse grito assassino sob comando de Franco, o galego. 

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Ainda se erguem as vozes do Caudillo e, perante o seu túmulo, às crianças se ensina a tenebrosa saudação. 

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Vale dos Caídos, RTP


E ainda há quem me questione se considero relevante a obra de Saramago que, agora, lecciono ao 12.º ano - O Ano da Morte de Ricardo Reis! Esse fatídico 1936... Desculpem lá, colegas! Somos professores.  O que queremos, nós, ensinar às nossas crianças?


Ana


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Neo-Penélope

Figueira da Foz, 2018 - José Alves


Foi aqui que em 2015 - e de luto recente pelo meu pai - li a notícia da morte de Ana Hatherly. Chegara ao planeta a 8/5 e partia a 5/8...posso até imaginar algumas correspondências pitagóricas que faria a propósito destas datas. Leio um livro que comprei na feira vizinha e cujo título é, curiosamente, Grécia Mágica - o fogo secreto dos gregos - obra ligeira e especulativa, mas ainda assim, interessante e adequada à ligeireza destes dias.
Subitamente, a D. envia uma mensagem. Investiga o espólio da Autora e...lá está uma das minhas cartas. Mestra e amiga, Ana Hatherly guardou-a. Sinto uma nostalgia que o dia não dissipa. Também eu recebi cartas que guardo... Afinal, o segundo «post» deste blogue foi-lhe dedicado ( De Cuba a Bassorá). Eu conheci a professora e vislumbrei a pessoa por detrás do olhar límpido e azul. Soube, de viva voz, alguns dos seus dramas íntimos - perdas irreparáveis. Conheci-lhe aquela vaidade de quem tem consciência de estar acima do provincianismo bacoco. Soube-a resistente,multifacetada e inconformada.


Com um lápis na mão

Ontem 
Estive pensando em ti
Com um lápis na mão.

Era um desafio
Uma maneira de enfrentar uma crise
Mas era um filtro

Queria escrever-te
Escrever-te veladamente
Escondendo o meu tormento
Atrás de um tecido sedoso de palavras.

Mas não consegui.
O lápis permaneceu imóvel.
Dentro de mim
Só se ouvia uma voz que dizia:
Cala-te! Cala-te!

Ana Hatherly, in Neo-Penélope, p.18








quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A Vida...

Rafal Olbinski,
"Calendar of Yesterday's Wishes"


Frágil voa para Sul,
Inquieta e ágil...
A Vida, neblina azul.
E o Homem fremente,
Paixão e Razão...
Declina e definha 
A Vida frágil, inquieta,
Precária a Sul...

Ana





quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Fabris, 1925

Fabris, Veneza

Entramos. É a curiosidade que nos faz entrar ou a multidão que nos leva nessa onda humana? Não saberemos nunca. De tantas vezes em Itália, esta é a primeira na cidade naufragada. Há muita coisa bela por aqui e muito «cliché» vendido. O mundo ficcionou o arquipélago e, ainda mais, estas ruas estreitas e largas praças. Todos amam Veneza e não te falarei disso. O postal ilustrado foi, há muito, vendido. Afinal, esta é uma cidade de mercadores. Também te amei em Veneza ao som dos violinos do Florian. Também bebi o café da mais velha cafetaria, ou não. Entrámos e, como outros, comprámos verdades e falsificações.
Saímos e só aquela data - 1925 - se fixa na memória. Giuliana ou Giancarlo Fabris não são actores para a minha vida mental. 
A História que ressurge não tem o brilho das águas do Adriático, nem dos canais. Não desaguou aqui. Foi a 3 de Janeiro desse ano de 1925 que o Duce se revelou inteiro - o pai do povo, que regula e reprime, que liberta nesse ano os fascistas presos e trava a batalha do trigo e, e, e...
Ah, Bela, como os perigos te espreitam!

Ana

segunda-feira, 30 de julho de 2018

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN

José Alves, 2018


Fernando Pessoa

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN


Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?
1907
Poemas Ingleses . Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. 
 - 198.



José Alves, 2018




ALENTEJO VISTO DO COMBOIO

Nada com nada ao redor

E algumas árvores no meio

Nenhum dos quais muito claramente verde,

Onde nenhum rio ou flor faz uma visita.

Se houver um inferno, eu encontrei

Pois se não está aqui, onde está o diabo?



1907
Poemas Ingleses. Fernando Pessoa. (Edição bilingue, com prefácio, tradução, variação e notas de Jorge de Sena e também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.) Lisboa: Ática, 1974. - 198.





Um vento apocalíptico varre a planície, durante o fenómeno natural. As histórias da minha infância regressam e desafiam os medos ancestrais...esse respeito ínfimo de união ajusta-nos à serenidade calma de sermos alentejanos. 




terça-feira, 24 de julho de 2018

Helénicos



Folha, Uol





Ira de Aquiles, filho de Peleu,
deusa, concede que eu celebre em canto,
ira fatal que aos acaios impôs
uma miríade de sofrimentos;
muitas almas de força e valentia
fez descender para a casa de Hades;
almas de heróis cujos corpos sem vida
relegou como espólio para os cães
e de banquete às aves de rapina.
Assim cumpria-se o plano de Zeus
desde o primeiro momento em que os dois
por força da discórdia se apartaram,
o Atrida, soberano de varões,
e o filho de Peleu, divino Aquiles.
Quem dentre os deuses incitou os dois,
por meio da discórdia, a contenderem?
Foi o nascido de Leto e de Zeus,
que, movido por raiva contra o rei,
fez com que sobre o exército avançasse
terrível peste – o povo perecia –
por motivo de o sacerdote Crises
ter sido desonrado pelo Atrida.
Isso ocorreu no dia em que ele fora
até as rápidas naves aqueias
a fim de libertar a sua filha,
carregando um resgate imensurável
e tendo em suas mãos sinais divinos,
lauréis de Apolo, flecheiro infalível,
entrelaçados em seu cetro de ouro.
Pedia para todos os aqueus,
mas sobretudo para os dois Atridas,
comandantes de povos e varões:
“Filhos de Atreu e vós outros aquivos,
guerreiros de cnêmides bem-feitas,
que para vós concedam os divinos,
possuidores de olímpicas moradas,
saquear a priâmea cidadela
e ter um bom retorno para casa.
Mas libertai minha filha querida,
aceitando os resgates que vos trago.
Sede tementes ao filho de Zeus,
o arqueiro de infalível mira, Apolo.”
Nisso, os outros acaios aclamaram
com jubilosos gritos o discurso:
que o sacerdote fosse respeitado
e que se recebessem os resgates.
Somente ao filho de Atreu, Agamêmnon,
isso não alegrava o coração.
Terrivelmente rechaça o ancião
e o manda embora com grave discurso:
“Que eu não te encontre novamente, velho,
junto das côncavas naves aqueias,
nem agora tardando em retirar-te
nem mais tarde voltando para cá.
De nada poderão te auxiliar
esse teu cetro e as insígnias do deus,
pois eu não a libertarei jamais
antes de lhe sobrevir a velhice
dentro do meu palácio, lá em Argos,
muito longe da terra de seu pai,
frequentando o tear a cada dia
e me encontrando ao leito a cada noite.
Agora parte! Não me encolerizes,
que assim talvez tu salves tua vida.”
Assim falou. O velho, amedrontado,
obedeceu às ordens recebidas.
Partiu calado, caminhando só
junto das dunas do mar murmurante.
Depois que se afastou do acampamento,
o velho então rezou com grande empenho:
“Apolo, meu senhor, tu que nasceste
de Leto, de belíssimas madeixas,
escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Esminteão, se alguma vez outrora
ergui um belo templo para ti,
ou se acaso eu alguma vez outrora
queimei ossadas de coxas com banha,
ossos de coxas de touro ou de bode,
concede para mim o que desejo:
faz com que os dânaos me paguem todas
as minhas lágrimas com tuas flechas!”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Ele baixa dos píncaros do Olimpo,
enraivecido desde o coração,
trazendo junto aos ombros o seu arco
e a aljava de feitura primorosa.
Junto às espáduas do deus furioso,
retiniam agudos os projéteis
à medida que se movimentava
avançando semelho à própria noite.
Logo senta distante dos navios
e então dispara a primeira das flechas.
Um terrível clangor ressoa ao longe
espraiando-se do arco prateado.
Acometeu primeiro contra os mulos
e logo após contra os fúlgidos cães.
Na sequência, contudo, pondo a mira
de seu dardo aguçado contra os homens,
ele atirou. Sem pausa, dia e noite,
as piras de cadáveres queimavam.
                         Homero, in ILÍADA (Tradução de Leonardo Antunes)






segunda-feira, 23 de julho de 2018

O Sorriso Perdido

R

NoA

EFÉNS DO BOKO HARAMtíci LIBERTADOS NA NIGÉRIA: "AINDA DÓ






"O que se percebe imediatamente é que as crianças aqui quase não riem", conta um funcionário do acampamento de Malkohi, na periferia da cidade nigeriana de Yola. Cerca de metade das perto de 300 pessoas que eram mantidas em cativeiro pelo Boko Haram tem menos de 18 anos. Um terço das crianças no acampamento sofre de desnutrição.”



Adrian Kriesch, António Cascais





      Notícias da Nigéria em dias de Julho.





quinta-feira, 12 de julho de 2018

Ainda amo...

Cá de casa.






É um tempo que se escoa. Foge nos dias longos e quentes. Corro porque me esperam. Trabalho. Trabalho. Trabalho ainda. São dias vivos, preenchidos por olhares iluminados.




Cá de casa.

Ainda amo... o olhar doce e inquieto dos adolescentes.





Cá de casa.



Ainda amo...os meus alunos.





Cá de casa.


Faz frio. Há nevoeiro. Tanto vento! Esticaram e aqueceram os dias... e corro, corro ainda. Ah, o trabalho! Há o trabalho. Sempre novo, instável, fluído na burocracia intensa. Exaustos os dias.




Cá de casa.

Fora da realidade virtual. Imersa no labor dos dias que voam.
Colhamos, hoje, os frutos! Colhamos, hoje, os frutos na fragrância dos dias! Livres voarão, fortes correrão...e, eu concluo, humildemente: ainda amo as flores! 



Ana



quarta-feira, 13 de junho de 2018

« A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses.» (A. Bessa Luís)


in, Chão da Areia



«Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico - o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estivesse dividido, a luz cindia (dividida), o bem e o mal compartimentados; e, ainda, uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.»

                                                                                                Eugénio de Andrade





As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

                   Eugénio de Andrade

Jornal do Fundão



Mais um ano lectivo chega ao seu final. Turbulento. O meu labor é o da palavra. Como Eugénio, acredito nessa pureza inicial da Língua. Mesmo quando, em anos passados, o meu trabalho aconteceu em gabinete - coisa que abomino, mas a que não pude fugir algumas vezes - o poema acima servia de base, na secretária, ao meu trabalho diário. Era um lema, pautava cada dia. É o meu poema. Aliás, Eugénio é a minha alma. Mansa e apaixonada. Calema, diria a minha amiga Isabel. E...tantos são os Poetas que cruzam o meu caminho, a minha vida! A todos amo, mas este é singular pela emoção estética que me desencadeia. A sua fímbria de uma simplicidade sem par, a sua musicalidade única...apaixona-me. 
Sei bem que o dia é rico em efemérides, (até nasceu F. Pessoa), mas recordo bem o dia em que me senti tão triste, pois o vate não iria escrever outro poema. Quando entrei na aula de Literatura Portuguesa, os meus alunos disseram em coro: «Professora, morreu o seu Eugénio». E, eu, sempre contida, sorri mas quase chorei.

Ana








domingo, 10 de junho de 2018

Dançante

 Rafal Olbinski, DISAPPEARANCE OF THE WELL INTENTIONED MOTIVE


Sussura sibilante
Uma brisa fria...
Ignora, porventura,
Ciciando o secreto
Segredo ondulante,
A recta via da lonjura.



Ana




10 de Junho



Portuguese American Journal



As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.      
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
    
                   Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra



terça-feira, 29 de maio de 2018

Cruzo a planura

Alto Alentejo, 2018




Cruzo  a planura. Dispersas, as vidas, alcantilam-se nos ermos. Ondulam, rubras as frágeis papoilas. O tempo, que me foge, corre e encurta o que resta do caminho. Parece-me que estamos de regresso...como nas antigas casas dispersas, deste meu mundo, só a telefonia - sim, chamemos-lhe assim - me traz os ecos de um mundo que fervilha. Sei que, não longe, se atropelam nas ruas ignotos seres que se ignoram uns aos outros. Aqui, vou saudando os desconhecidos que cruzo na distância e a resposta é efusiva. É bom estar aqui, mesmo quando a consciência do mundo nos atropela.

(Trabalho excessivamente...já se sabe.)





Ana

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Lugar da Memória



Júlio Pomar

        Olhar e sentir
por dentro do corpo a massa de que é feito o avesso dele.
Ossos músculos nervos veias
tudo o que está no corpo e mundo é
a pintura contém e depõe na tela e
se acaso aí o pintor deixou reservas
nesse sem nada o avesso do mundo se
recolhe e mostra a face.

Júlio POMAR, TRATAdoDITOeFEITO









Se Penso, Existo

Se penso, existo; se falo, existo para os outros, com os outros. 

A necessidade é o lugar do encontro. Procuro os outros para me lembrar que existo. E existo, porque os outros me reconhecem como seu igual. Por isso, a minha vida é parte de outras vidas, como um sorriso é parte de uma alegria breve. 

Breve é a vida e o seu rasto. A posteridade é apenas a memória acesa de uma vela efémera. Para que a memória não se apague, temos que nos dar uns aos outros, como elos de uma corrente ou pedras de uma catedral. 

A necessidade de sobrevivência é o pão da fraternidade. 
O futuro é uma construção colectiva. 

António ARNAUT, in As Noites Afluentes



domingo, 20 de maio de 2018

Reflexão do dia

José Alves -  Avis, 2018

Ao longe, o Sul assiste pasmado aos sucessos (acontecimentos) destes dias. 


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Nos arredores

José Alves, Suíça, 2018


Serenas sossegam
quietas as águas
Carregam inquietas
antigas as mágoas

E o sonho do Homem
germina e acalenta
Arredores se percorrem
na névoa que enfrenta

Ao ritmo dos dias
o degelo alimenta
o flagelo distante
que a aragem lamenta


Ana


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Visto de fora.

25 de Abril

Golpe e Revolução


                Eu não posso senão ser
               desta terra em que nasci.
               Embora ao mundo pertença
               e sempre a verdade vença,
               qual será ser livre aqui,
               não hei-de morrer sem saber.

               Trocaram tudo em maldade,
               é quase um crime viver.
               Mas, embora escondam tudo
               e me queiram cego e mudo,
               não hei-de morrer sem saber
               qual a cor da liberdade.

                                                                       Jorge de Sena 





25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen