Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
PATXI ANDION." El Maestro". Aos professores republicanos, fuzilados
Um professor tem o dever ético de lutar por um mundo melhor!
ADEUS, PATXI ANDION!
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
O PERFIL DOS DIAS
"HUMANO, DEMASIADO HUMANO..."
Não colhe o poeta palavras gastas
Na gramática dos dias
Nem da altiva rosa,
Desatadas pétalas…
Nem da rubra flor, colhe o poeta
De empréstimo,
Seu perfume…
Nem invoca os deuses
Em contra-mão
Dos seus desígnios…
E, no entanto, a palavra líquida
E o desatino de seus passos…
……………………………………
“Humano, demasiado humano…”
Manuel Veiga
É desígnio deste blogue servir a fraternidade e orgulhar-se dos amigos.
Hoje, entre relatórios, grelhas e aquela muita burocracia que vai atormentando a vida ocidental de um professor, a minha rendida homenagem centra-se em Manuel Veiga. A tensão dos dias não nos pode tolher a natureza.
A poesia, agora reconhecida, admiro-a de há muito. Dela emerge algo de primitivo e de nu, teoricamente falando. A sua poética emerge de um lugar distante, de lá onde o Homem juntou os primeiros símbolos para deles fazer a escrita...antiquíssima Babilónia, Pérsia ancestral, Grécia antiga. Há uma regra elementar que rege os vocábulos escolhidos e, então, no ritmo adulto dos versos, eles transportam uma tangibilidade ajustada à sabedoria Clássica. Os deuses encontraram, nos poemas de Manuel Veiga, uma trégua para renascerem e explicarem o Homem no Mundo.
Ricardo Reis ouve-se em surdina, nalguns dos seus poemas. Porém, Veiga sabe que até as rosas perderão as pétalas, por isso considero que a linguística do símbolo, no nosso Poeta, é mais abrangente e ampla, assumindo conceitos vindos da Filosofia ou das Ciências Humanas para a Poética. Nele existe uma ambiguidade pura, na qual se plasma a solidão da escrita.
Sabe, o Poeta, que a esperança excede a sapiência e, também, a brevidade da vida. Sabe, o Poeta, que cada emoção não passa de um momento com a mortalidade sempre à vista, daí a necessidade de uma demiurgia interna - este é o PERFIL DOS DIAS.
Ana
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Sam Seaborn
Vladimir Kush, «Ocean Breeze» |
O Sam Seaborn é uma personagem de ficção, como é do conhecimento daqueles que apreciam séries. Porém, o meu amigo Sam Seaborn é um narrador, por vezes próximo do autor e, noutras, também a personagem que nos conta a história. As suas narrativas são-nos contadas num registo de língua fluentemente urdido. A tecitura do texto cativa-nos e encanta-nos. O «récit», na sua universalidade, transporta o eterno debate entre o idealismo e o materialismo; entre a transcendência e a imanência. Não poderemos lê-lo à superfície, ficarmos instalados na gramática estrutural do texto, porque é do subtexto que emerge a mensagem.
Quando lemos uma história de Sam as personagens sugerem, pelos diálogos, que se deslocam num universo citadino, num quotidiano de encontros fugazes. Não se expõem ao desenfreado exterior e os traços de que se compõem assemelham-se a pinceladas impressionistas que se deslocam de um passado intenso para um presente narrativo, no qual o principal sema é o temporal e os objectos do quotidiano que isolam a persona.
Os retratos irrealizam-se segundo o cânone literário: corpo - rosto - olhar. Assim, a percepção obedece à regra: o que dá prazer nunca lá está, por prazer. Essa é a máxima que constrói o verdadeiro erotismo que, no caso de Sam, é sempre construtivo de um mundo melhor que se perdeu, ou que se ambiciona. Estes são os códigos de sentido que vislumbramos por detrás do (des)encontro do «ele»/«ela» - que estão, por norma, do lado do ser. Todos os artifícios são regulados como elementos que compõem um cenário, não estão do lado do ter. Daí o carácter profundo das narrativas, aparentemente, simples histórias de amor ou de desencontro amoroso.
A maior marca de utopia não se afasta do quotidiano, como é sabido. É aí que instalamos a procura incessante de harmonia.
Esse é o nosso amigo Sam Seaborn, que podem visitar aqui:
domingo, 24 de novembro de 2019
Sul Sereno
1. Porque é que criou um blogue e, quando o criou, tinha expectativas de que fosse popular?
Criei este blogue por um motivo muito prosaico: trabalho. Dito assim até aborrece, mas foi a verdade.
Em 2007 criei um blogue experimental intitulado Sul Sereno e de tudo só gostava do título. Nesse tempo eram os alvores do Plano Nacional de Leitura e eu tive necessidade de divulgar em blogue o PNL da minha Escola. Assim, arranjei um blogue - experiência. Eliminei o Sul Sereno quando senti que dominava razoavelmente as funcionalidades do Blogger. Mas tinham nascido alguns amigos e para mim a AMIZADE é o mais importante dos afectos humanos. Acabei por abrir o blogue, como não pude recuperar o título ...nasceu RARA AVIS.
Nunca quis ser popular. Sou uma criatura felina e recatada. Há quem me diga que sou viciada em trabalho e que sou um pouco autoritária. Estereótipos...
Preciso, até, de algum isolamento para me centrar e organizar. Mais de duas cores juntas ferem-me o olhar. Palavras a mais são verborreia. Há demasiado ruído e pouca acção.
Escrevo, mas não sou escritora - menos, ainda, poetisa. Precisei chegar a meio século de vida para ter coragem de expor algum pensamento intimista.
O meu tempo é tão escasso que com grande dificuldade visito e comento os amigos.
Penso por palavras, gosto de palavras. Com elas construímos laços.
O bom dos blogues é que nem sequer precisamos dos rostos para conhecermos o Outro.
Em 2007 criei um blogue experimental intitulado Sul Sereno e de tudo só gostava do título. Nesse tempo eram os alvores do Plano Nacional de Leitura e eu tive necessidade de divulgar em blogue o PNL da minha Escola. Assim, arranjei um blogue - experiência. Eliminei o Sul Sereno quando senti que dominava razoavelmente as funcionalidades do Blogger. Mas tinham nascido alguns amigos e para mim a AMIZADE é o mais importante dos afectos humanos. Acabei por abrir o blogue, como não pude recuperar o título ...nasceu RARA AVIS.
Nunca quis ser popular. Sou uma criatura felina e recatada. Há quem me diga que sou viciada em trabalho e que sou um pouco autoritária. Estereótipos...
Preciso, até, de algum isolamento para me centrar e organizar. Mais de duas cores juntas ferem-me o olhar. Palavras a mais são verborreia. Há demasiado ruído e pouca acção.
Escrevo, mas não sou escritora - menos, ainda, poetisa. Precisei chegar a meio século de vida para ter coragem de expor algum pensamento intimista.
O meu tempo é tão escasso que com grande dificuldade visito e comento os amigos.
Penso por palavras, gosto de palavras. Com elas construímos laços.
O bom dos blogues é que nem sequer precisamos dos rostos para conhecermos o Outro.
Agora, tenho tido um aborrecimento interior, ao verificar que esse domínio se tornou malicioso na sua «cache» e que «Rara Avis» se banalizou numa cadeia de vestuário de noivados...isso mesmo! Já para não falar noutras acepções.
Assim, resta-me o compromisso de alterar o título do blogue sem modificar o domínio digital.
Aos meus @migos as minhas desculpas.
Então...«Sul Sereno» seja!
Bem Hajam!
Bem Hajam!
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
«Mão aberta e o dedo indicador a tocar o polegar»
Caça F-35 da Força Aérea de Israel, 2019 |
Quando presenciamos situações extremas e no nosso íntimo as guardamos, uma perspicácia qualquer, apurada e constante, aguça-nos o olhar. Temos que experimentar...estar lá, sentir. Quem pode ser indiferente ao caça F-35 (dizem-me) que sobrevoa este lugar?
Israel, 2019 |
Quem pode ser indiferente aos jovens, quase imberbes, do outro lado da estreita rua e comer tranquilamente, oferendo as costas indefesas a esta invenção de Uziel Gal? Parece leve a Uzi...
Sou alentejana, sabe-lo bem, o meu pacifismo íntimo há muito que sabe exactamente como se usa uma arma. A imensidão da minha planura educa-nos para a defesa, ou se preferires, para a coragem.
Israel, 2019 |
Sim, estavam nos lugares sacros e rezavam no Muro. Celebrava-se um ritual muito específico e no dia seguinte houve dois mortos a escassos metros... Tishá BeAv nunca trouxe boas memórias...
Knesset, Israel, 2019 |
Do outro lado, a Universidade, a Biblioteca Nacional e o fabuloso museu que aqui me trouxe...deste lado, em plena campanha eleitoral, o edifício do parlamento onde o conservadorismo se instalou. Eu, já te disse várias vezes, corro atrás da História.
Torres de vigia, Knesset, 2019 |
Sabes bem que não poderei aproximar-me e muito menos fotografar tudo! Por isso, será no meu íntimo que continuarei a guardar as memórias destes lugares.
Quantos museus tenho em redor? Muitos, muitos! Andei vinte e seis quilómetros nesse dia. Que importa? Sou alentejana, recordas? Que me importa a distância?
Mas nada ali me atemoriza! Fui e voltei e hei-de regressar!
Aquilo que me preocupa está aqui tão perto! Há um rumor que vem de longe, há uma indiferença ao rumo, um caminho para uma ignorância galopando sobre os gestos, sobre os indícios...aqui, em Portugal!
«Mão aberta e o dedo indicador a tocar o polegar» numa concentração de «forças da Ordem»?!
terça-feira, 19 de novembro de 2019
Não adormeças...por favor!
«Guernica», Pablo Picasso |
Eu Vim de Longe
José Mário Branco
Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou
Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão
Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou
Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou
E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser
Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar
Para ouvir a canção preferida, basta «clicar» no link.
quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Experiência Inefável
Negueve, Agosto de 2019 |
É no caminho do deserto, Agosto pleno, que a terra respira a sua antiguidade e sageza. A voz emudece. Todos os desertos são diferentes e gosto de os atravessar como quem cai no colo quente e ancestral da mãe. Deserto e origem, vertigem e vórtice! Aqui, o silêncio deixa escutar a Alma imensa do Universo...emudece e comove, na solitária rota de uma origem.
Negueve, Agosto de 2019 |
Nenhum lirismo me extasia - defeito de uma profissão que me vai preenchendo a vida e roubando o tempo. Porém, nesta terra disputada encontro uma essência que a Logos não explica. Nem sei em que país estou - aqui é difícil dizê-lo, mas eu não estou em romagem religiosa nem em missão política. Sinto uma pátria íntima.
Viver uma experiência extrema, sempre nos há-de fortalecer!
Não tenho a certeza que o oásis me conforte. Jamais o procurei. Aborrece-me o hedonismo, a superficialidade, o tom pastel de tantas vidas. Gosto das tâmaras.Só.
Ein Gedi, Agosto, 2019 |
E regresso ao deserto, ele é do puro domínio da abstracção, abre-se à transcendência ascética e reduz-nos ao essencial.
Há lugares que nos mudam para sempre, pois falam-nos da responsabilidade que temos por sermos humanos, livres, justos e racionais.
Fronteira: Jordânia, Cisjordânia e Israel. |
Ana
domingo, 6 de outubro de 2019
Sempre a Língua, veículo de cultura e de memória histórica
Castelo de Vide |
Em compromissos velados, algumas
casas mantiveram as práticas (e as sinagogas escondidas) que o judaísmo lhes
instruíra. Os criptojudeus, forçados à
conversão por um baptismo na fonte central da vila, continuaram a dizer 'dessa
água não beberei', no que ao catolicismo dizia respeito, tudo isto
consagrado em rituais secretos e à sombra do medo. "As minhas vizinhas,
nas sextas-feiras à tarde, faziam umas cerimónias que eu nunca compreendi, e
uma delas colocava aqui uma vela [retira a tampa de um jarro de argila]. Ela
cortava em pedaços o rebordo do recipiente para lá dentro poder alojar a
candeia. Dizia que a luz não podia ser vista da rua. Faziam isto sem saber
explicar muito bem porquê".
(Carolino Tapadejo, em entrevista à
TSF.)
Fonte de Castelo de Vide |
Para quem se interessa por estes temas, aqui deixo uma ligação à excelente entrevista da TSF:
https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/para-os-judeus-sefarditas-a-terra-prometida-nunca-foi-israel-e-portugal-e-espanha-11120912.html
sábado, 28 de setembro de 2019
Ladino...a Língua da memória histórica
"Estive a dar uma palestra numa universidade a norte de Telavive. Quando já estava a sair do palco, uma das senhoras, já idosa e muito doente, disse-me, num ladino muito alterado: 'Eu sou de Castelo de Vide, mas eu nunca lá fui.' Eu disse-lhe que não tinha compreendido, e ela respondeu-me: 'A minha família fugiu de Castelo de Vide, na primeira metade do século XVI, para o Império Otomano; Constantinopla, depois Istambul, mas sempre me disseram que a minha terra era Castelo de Vide. Eu vi que vinha cá um homem da minha terra-mãe, e quis vir ouvi-lo.'" A castelo-vidense, deslocada em geografia mas nunca em identidade, percorreu mais de 170 quilómetros, porque não tinha descendentes, estava com cancro e só queria voltar a casa.» M.R. à TSF
És antissemita? Então lê:
«Sefarditas
Quem são
Designam-se de judeus sefarditas,
os judeus descendentes das antigas e tradicionais comunidades judaicas da
Península Ibérica.
A presença dessas comunidades na
Península Ibérica é muito antiga, sendo mesmo anterior à formação dos reinos
ibéricos cristãos, como sucedeu com Portugal a partir do século XII.
A expulsão
Tendo essas comunidades judaicas,
a partir de finais do século XV e após o Édito de Alhambra de 1492, sido objeto
de perseguição por parte da Inquisição espanhola, muitos dos seus membros refugiaram-se então em Portugal.
Porém, o rei D. Manuel, que
inicialmente havia promulgado uma lei que lhes garantia proteção, determinou, a
partir de 1496, a expulsão de todos os judeus sefarditas (também conhecidos por
marranos) que não se sujeitassem ao batismo católico. Assim, numerosos judeus
sefarditas foram expulsos de Portugal nos finais do século XV e inícios do
século XVI.
A diáspora
De modo geral, estes judeus
sefarditas estabeleceram-se, entre outros, em países como a Holanda, o Reino
Unido e a Turquia, bem como em regiões do Norte de África e, mais tarde, em
territórios americanos, nomeadamente no Brasil, Argentina, México e Estados
Unidos da América (EUA).
Apesar das perseguições e do
afastamento do seu território ancestral, muitos judeus sefarditas de origem
portuguesa e seus descendentes mantiveram não só a língua portuguesa, mas
também os ritos tradicionais do antigo culto judaico em Portugal, conservando,
ao longo de gerações, os seus apelidos de família, objetos e documentos
comprovativos da sua origem portuguesa, a par de uma forte relação memorial que
os leva a denominarem-se a si mesmos como «judeus portugueses» ou «judeus da
Nação portuguesa».
Com a «conversão em pé»,
denominação pela qual ficou conhecida a conversão forçada dos judeus, decretada
por D. Manuel, deixaram, então, de existir oficialmente judeus em Portugal, e
apenas cristãos-velhos e cristãos-novos, sendo que esta nova denominação de
cristãos-novos escondia a origem judaica.
Durante o período da Inquisição
muitos desses cristãos-novos e judeus portugueses conseguiram escapar e sair do
Reino, estabelecendo-se em algumas regiões do Mediterrâneo (Gibraltar,
Marrocos, Sul de França, Itália, Croácia, Grécia, Turquia, Síria, Líbano,
Israel, Jordânia, Egito, Líbia, Tunísia e Argélia), norte da Europa (Londres,
Nantes, Paris, Antuérpia, Bruxelas, Roterdão e Amesterdão), Brasil, Antilhas e
EUA, entre outras, aí criando comunidades de grande renome e fundado sinagogas
notáveis, tais como a Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, a Sinagoga Shearith
Israel de Nova York, a Sinagoga Bevis Marks de Londres, a Sinagoga de Touro em
Newport (Rhode Island — EUA), a Sinagoga Portuguesa de Montreal e a Sinagoga
Tzur Israel em Recife.
No início do século XIX
regressaram a Portugal alguns descendentes de judeus sefarditas que se tinham
refugiado em Marrocos e Gibraltar, tendo, em 1801, sido criado o primeiro
cemitério judeu moderno, junto ao cemitério inglês em Lisboa, e, em 1868, por
alvará de D. Luís, sido concedido aos «judeus de Lisboa a permissão de instalar
um cemitério para a inumação dos seus correligionários», o atual cemitério da
Rua D. Afonso III, em Lisboa.
Ainda hoje, em muitos dos
apelidos de famílias judaicas sefarditas, conserva-se a matriz portuguesa,
embora, nalguns casos, esteja misturada com a castelhana.
Na diáspora da Holanda e Reino
Unido subsistem, entre outros, apelidos de família como: Abrantes, Aguilar,
Andrade, Brandão, Brito, Bueno, Cardoso, Carvalho, Castro, Costa, Coutinho,
Dourado, Fonseca, Furtado, Gomes, Gouveia, Granjo, Henriques, Lara, Marques,
Melo e Prado, Mesquita, Mendes, Neto, Nunes, Pereira, Pinheiro, Rodrigues,
Rosa, Sarmento, Silva, Soares, Teixeira e Teles.
Já na diáspora da América Latina
mantêm-se, por exemplo, também entre outros, os apelidos: Almeida, Avelar,
Bravo, Carvajal, Crespo, Duarte, Ferreira, Franco, Gato, Gonçalves, Guerreiro,
Leão, Lopes, Leiria, Lobo, Lousada, Machorro, Martins, Montesino, Moreno, Mota,
Macias, Miranda, Oliveira, Osório, Pardo, Pina, Pinto, Pimentel, Pizarro,
Querido, Rei, Ribeiro, Salvador, Torres e Viana.
Para além disso, noutras regiões
do Mundo, existem igualmente descendentes de judeus sefarditas de origem
portuguesa que conservam, para além dos acima indicados, entre outros, os
seguintes apelidos: Amorim, Azevedo, Álvares, Barros, Basto, Belmonte, Cáceres,
Caetano, Campos, Carneiro, Cruz, Dias, Duarte, Elias, Estrela, Gaiola, Josué,
Lemos, Lombroso, Lopes, Machado, Mascarenhas, Mattos, Meira, Mello e Canto,
Mendes da Costa, Miranda, Morão, Morões, Mota, Moucada, Negro, Oliveira, Osório
(ou Ozório), Paiva, Pilão, Pinto, Pessoa, Preto, Souza, Vaz e Vargas.
Para além dos apelidos familiares
e do uso da língua portuguesa, designadamente nos ritos, há descendentes de
judeus sefarditas portugueses que, ainda hoje, falam entre si o ladino, língua
usada pelos sefarditas expulsos de Espanha e de Portugal no século XV, derivada
do castelhano e do português e atualmente falada por cerca de 150 000 pessoas
em comunidades existentes em Israel, Turquia, antiga Jugoslávia, Grécia,
Marrocos e nas Américas, entre muitos outros locais.»
* Fonte: Preâmbulo do Decreto-Lei
30-A/2015, de 27/2.
(lamento o acordo dito ortográfico).
E, sabes por que dizemos, no Alto Alentejo,
«Desta água não beberei»?
Aqui deixo um dicionário de Ladino : https://pt.glosbe.com
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Disrupturas
Foz do Minho - José Aves, 2019 |
Contemplamos, quase sempre, a outra margem...
Foz do Minho - José Alves, 2019 |
Nesta, ancoramos os nossos barcos.
Caminha - José Alves, 2019 |
Quem te enganou e te disse que as águas são azuis?
Tel Aviv, 2019 |
Quem te ensinou e te disse que os contrários se atraem e conciliam?
sábado, 17 de agosto de 2019
Síndroma
Jerusalém, Monte Sião - José Alves, 2019 |
Septuaginta - Salmos -
Salmo 137
Para David, um salmo de Jeremias.
1 Junto aos rios da Babilónia, ali nos assentámos, e
chorámos quando nos lembrámos de Sião.
2 Pendurámos as nossas harpas nos salgueiros das suas
margens,
3 Pois ali aqueles que nos tinham tomado cativos pediam-nos
as palavras de uma canção; os que nos tinham levado para longe pediam-nos um
hino, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.
4 Como iríamos entoar o canto do Senhor em terra estranha?
5 Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão
direita se esqueça da sua habilidade!
6 Que a minha língua se apegue à minha garganta, se eu não
me lembrar de ti, se eu não eleger Jerusalém como a maior das minhas alegrias.
7 Lembra-te, ó Senhor, dos filhos de Edom no dia de
Jerusalém, quando disseram: Arrasai-a, arrasai-a até os seus fundamentos!
8 Miserável filha da Babilónia! Bendito aquele que te
recompensar da maneira como nos tens feito;
9 Bendito aquele que apanhar e esmagar os teus pequeninos
contra a rocha!
Monte Sião, escavações que comprovam a destruição da cidade (José Alves - 2019) |
Cá nesta Babilónia
Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;
Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;
Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;
Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;
Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Israel - José Alves, 2019 |
Tenta compreender um povo a que a História persegue há trinta e cinco séculos. Aqui nada é a preto e branco. Não te apresses a julgar.
A Paz é um caminho necessário e difícil.
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Memórias 2
José Alves, 2019 |
O acaso de uma marcação prévia trouxe-nos aqui. É necessário guardar num parque pago o carro de matrícula IL. Neste lugar nenhum seguro nos garante. Passamos a andar a pé à média de 12 km por dia, ou de táxi. Sabemos onde estamos. Uma placa traça-nos um breve historial da casa e todos os funcionários são homens. Visto-me de forma discreta, mas sinto algum desconforto íntimo. Ao fundo da Nablus Road, fazendo esquina, fica o American Colony. Duplo incómodo. Nem sei o que mais me perturba.
Precisava de alguma inocência livresca para me sentir segura. Aqui, tudo se desfaz e se põe em perspectiva. Os sorrisos são raros.
José Alves, 2019 |
O gosto árabe do século XIX renova memórias inoportunas. Alguma decadência mina esta atmosfera. Somos resilientes e isso ajuda-nos. Sabemos bem que já foi cenário de horrores e até clínica.
José Alves, 2019 |
Ao segundo dia, o funcionário sorriu. Não somos ingleses, nem franceses, nem americanos e o nosso passaporte português abre-nos muitos caminhos nesta terra de tantos separatismos, disputas, vencidos e vencedores.
Dormi agitada, a Festa do Sacrifício (muçulmana) e a Tisha b'Av (judía) aproximam-se e os «raids» nocturnos acordam-me com rajadas de metralhadora, num bairro abaixo.
Lembras-te dos Filisteus?
Não me peças que decida. O que vejo é hediondo, mas não é a preto e branco. Setenta anos de guerra são capítulos no tempo. E...eu estou aqui a tentar compreender. Jamais serei a mesma.
Ana
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