Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 31 de maio de 2020

Trovoadas

Foto: Radio Campanário - maio 2020

Na inconstância dos dias, a beleza agreste da planície desperta-nos como o murmúrio de uma nascente adormecida. Aulas a fio, feitas à distância, por processos inimagináveis e aqueles outros jovens assustados que sorriem vagamente, na lonjura de três metros. São dez de cada vez, em turnos sucessivos. O auditório imenso, o palco, a sombra e aquela voz, que é a minha, soando estranha por detrás da máscara. Onde estão os sorrisos? Quem são estes meninos que não conheço, perfilados e quietos? Que lhes reservará o Futuro? Lemos Saramago que, suspeito, eles não leram. A frieza dos rostos inexpressivos drapeados a azul clínico, neste dia de quarenta graus.
Trovoadas diárias despertam os meus medos ancestrais. Sou o felino que se esgueira no mato verde da charneca.Tenho medo e quero ver. Gosto de olhar o pavor de frente. Assim, ele se esfuma e que «Os raios não nos partam!». Quero a liberdade plana do meu chão.

Ana

13 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

(raios me partam
se o acabo de ler
não é um poema
dos que valem a pena)

chica disse...

Muito lendas tuas palavras e realmente tudo está mudado e faltam sorrisos, presenças ,abraços! Ótima semana! beijos, chica

Graça Pires disse...

Imagino como está a ser difícil este tempo sem os sorrisos e sem a cimplicidade dos abraços.
Eu tenho medo das trovoadas. Um susto que apanhei em criança ao ver cair um raio. Ainda hoje estremeço…
Gostei muito do teu texto, Ana.
Uma boa semana com muita saúde.
Um beijo.

Graça Pires disse...

Quis dizer cumplicidade e fugiu-me antes de emendar...

Maria João Brito de Sousa disse...

Não tenho por hábito subscrever as palavras dos outros, mas abro uma excepção e faço minhas, na generalidade, as do Rogério.

Abraço, Ana.

Petrus Monte Real disse...

Ana:

Uma bela crónica, que nos dá conta do dia-a-dia de quem leva muito a sério, como sempre, a sua profissão e, muito em especial, a relação com os seus alunos. Sinto que a pandemia tornou o trabalho docente mais difícil. Um enorme desafio pela frente que importa vencer, sem medo ou receio, como sempre!
Um abraço amigo!

Jaime Portela disse...

Um retrato diferente, visto de outro ângulo, o do professor.
E gostei muito deste retrato, ainda que não goste de trovoadas (mas gosto de as ver ao longe e contar os segundos até ouvir o trovão para calcular a distância a que ainda estão...).
Querida amiga Ana, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Olinda Melo disse...


Querida Ana

Falas destes dias perturbadores de forma realista, onde não falta
a tua própria humanidade e o olhar crítico à situação anómala
que estamos a viver. Situação que afectará a nossa juventude
na expressão dos sentimentos e na aprendizagem.

É sempre bom dizermos o que nos comprime a Alma. Nessa troca de
experiências encontraremos um bálsamo para as preocupações que
este estado de pandemia nos impõe.

Beijinhos

Olinda

JP disse...

E de um momento partilhado, o teu, completas com a magia das tuas palavras… num quadro digno dos melhores.

Também eu quero o regresso à normalidade, os dias correm e tentas ajustar-te a algo diferente.

Um beijinho

Manuel Veiga disse...

não há-de ser nada
basta olhar olhar o medo de frente.

beijo, amiga

Mariazita disse...

Excelente foto, Ana!
A trovoada é um fenómeno que pode ser aterrador, mas permite fotos belíssimas.

O teu texto é duma realidade acutilante.
Como avó de 9 netos muitas vezes penso quais serão os efeitos destes tempos conturbados nas suas mentes em construção...

Votos de um Domingo feliz
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

Edum@nes disse...

A pandemia é que determina que a assim seja. Esperamsos que em breve a vida volte à normalidade. Sendo isso que toda a gente deseja. Nesta altura do ano as trovoadas são normais.

Beijinhos amiga Ana.

alfacinha disse...

Uma vida normal é o desejo de milhares e milhares pessoas inquietas
beijo