Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Eco IV - Na Biblioteca de Nínive





Nínive, Hans Vredeman de Vries



Passeio, sereno,  pelas ruas de Nínive.
A cidade ofusca pela beleza - ou não fora esse mesmo o significado da palavra com que escrevemos o seu nome: Nínive, ou seja, «A Bela». O Tigre desliza como um pedaço de luz, e sei que o lado por onde caminho se situa a ocidente. Sábios que frequentam o zigurate há muito mo confirmaram.
«Quando cheguei à escola, de manhã, recitei a minha tábua, almocei, preparei a minha nova tábua, escrevi-a, terminei-a e depois marcaram-me o meu trabalho oral...quando a aula terminou, regressei a casa, entrei e encontrei o meu pai sentado. Falei-lhe do meu trabalho escrito, recitei-lhe a minha a minha tábua e ele ficou encantado...» (tábua suméria, há 4 000 anos). É assim o meu dia-a-dia. Sei que, em território distante, os homens não sabem ler nem conhecem a escrita, por isso este lugar irradia conhecimento como um sol.
Perco-me na Biblioteca que Assurbanipal II mandou reunir. A colecção é fabulosa, escrita em sumério e acádico. As placas de argila, traçadas a cuneiforme, fazem o meu deleite. A minha curta vida não me permitirá lê-las todas, mas esse é o meu sonho oculto. Os meus temas predilectos são: o mundo natural, geografia, matemática, astrologia e medicina; manuais de exorcismo e de augúrios; códigos de leis; relatos de aventuras e textos religiosos...






escrita cuneiforme






A Literatura da sageza enche inúmeras placas. Enquanto por aqui vagueio, absorto e fascinado, recordo o Tigre que corre sereno, incauto às invasões. Os rios são o tempo e a memória, indiferentes à ignorância dos humanos. 
Nínive, esplendorosa como uma bela mulher, brilha ao luar. Regresso. De memória, como num eco, recito baixinho o escrito da tábua de argila que mais me impressionou:
« A mulher desassossegada em casa acrescenta dor ao sofrimento.
Estamos condenados a morrer: gastemos.
Teremos longa vida: poupemos.
Aquele que possui muita prata pode ser feliz.
Aquele que possui muita cevada pode ser feliz.
Mas o que nada possui pode dormir.
Pode-se ter um senhor, pode-se ter um rei, mas o homem a temer é o cobrador de impostos».(tábua suméria).


Como poderei ler todas as tábuas da Biblioteca de Nínive se lá fora, num lugar longínquo, homens forjam ainda os seus artefactos de bronze?


Ana






11 comentários:

Rogério Pereira disse...

"Mas o que nada possui pode dormir."

Não fala a tábua suméria dos pesadelos dos deserdados...

Continuação de boas férias.

helia disse...

Excelente texto!

Andradarte disse...

...homens forjam ainda os seus artefactos de bronze?.................
....................
É o mal da Humanidade,que nunca
acabará....
Beijo

Sonhadora disse...

Minha querida Ana

Um belo texto como sempre.
Deixo um beijinho com carinho e desejo-te bom fim de semana.

Rosa

São disse...

Poderá dormir quem nada possui? Tenho dúvidas!

Um bom domingo desejo

Olinda Melo disse...

Magnífico tema, Ana!
Depois da descoberta e a interpretação destas tabuínhas o conhecimento humano não foi mais o mesmo.
Mas, tem razão, como concentrarmo-nos nestas preciosidades escritas há milhares de anos se o ser humano não se eleva, se cada dia, como agora, ele consegue ser tão cruel para com os da sua espécie?

Bjo

Olinda

P.S.Fui ver os outros 'Ecos'.Voltarei para os ler com vagar.
:)

N. Barcelli disse...

Não poder ler tudo, tal como não poder saber tudo, torna-se, por vezes, numa angústia para muitas pessoas. Mas não há volta a dar...
Excelente post. Parabéns, querida amiga Ana.
Beijos.

Evanir disse...

Um texto lindo amiga!!
Desejo uma linda tarde beijos no coração,Evanir.

Luma Rosa disse...

A consciência de que tudo não é o bastante e que sempre nos faltará algo. O vazio que nos leva a procurar o conhecimento, não deixará que este o preencha, porque tudo se dilui nessa alma composta de éter. Boa semana! Beijus,

Mel de Carvalho disse...

Ana, li e reli, este texto, onde o narrador me leva aos caminhos da minha própria ignorância.
De um beleza ímpar, Ana. Gratidão na partilha.

Beijo
Mel

Vieira Calado disse...

Agora estamos a assistir à destruição de livros que as editoras não conseguem vender.

Pudera!

O preço que pedem por certos livros...

saudações poéticas!