Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 8 de outubro de 2011

A Feira


 06 de outubro - quinta-feira. Celebração de Mokosh,


Ao longe o ruído da turba. Sol de fim de Verão, quente, choco. Ardem, em turbilhão, pensamentos dispersos, diversos. Um cheiro absurdo regressa dos idos medievos. Sujidade e fritos. Farturas de vida e de sonhos que partem neste suave suão. Sopro perturbador para mulheres inquietas. A feira.
Vinham em Outubros de primeiras chuvas, dos arredores onde habitavam aldeias brancas de casas térreas feitas de argila em paredes grossas. As mulheres caiavam, de pé, o branco brilhante e repetiam em tecituras contínuas esse gesto milenar de que o mediterrâneo as fez herdeiras. Caiavam em Outubro para apagar o Verão. A feira.
Garotos experimentavam botas duras de couro que o sebo haveria de amansar quando o gesto se repetisse vezes sem conta aos soalheiros de  Domingo. Impermeáveis, as botas haveriam de enfrentar os rigores chuvosos de vários Invernos e as solas seriam trocadas, cardadas, vezes sem conta. A feira.
Começava a escola rigorosa, ritual, passaporte para uma vida melhor - a escola sempre a sete de Outubro. Os pais levavam árvores novas que haveriam de adocicar os dias de Verão. Erguer-se-iam floridas, seriam fonte de alimento para novas vidas que mulheres trigueiras e magras carregavam nos ventres do Inverno de noites longas e leitos quentes.
A Feira de Outubro dominava a vila, a vida. A Feira de Outubro iniciava o ciclo. 
Hoje, a feira é um caos na desordem dos dias.

Ana




9 comentários:

São disse...

Sempre apreciei feiras, mas as genuínas...não estas de agora. E ainda me agrada muito entrar em mercados , ouvir as conversas cruzadas, sentir os aromas e encher os olhos com todo aquele vibrante colorido.

A ilustração é linda.

Obrigada por me dar a conhecer o Nobel da Literatura deste ano.


Um bom fim de semana.

Andradarte disse...

A Feira transformou-se....em 'feira'....
Já nada é como era...nem amanhã será o
que é hoje...Incognita de Futuro...
Beijo

Fê-blue bird disse...

Um retrato perfeito de um passado já tão distante.
Nasci na cidade, mas lembro-me das feiras na aldeia da minha avó.
Ainda guardo os cheiros, os sabores as sensações de algo genuíno e puro.
A ilustração é linda, o texto como sempre repleto de emoções.

beijinhos minha amiga

Nilson Barcelli disse...

Sabes pintar com as palavras, acordando memórias de tempos que já não voltam... mas com a crise, não sei se não regressaremos às "botas duras de couro que o sebo haveria de amansar quando o gesto se repetisse vezes sem conta aos soalheiros de Domingo"...
Excelente, como sempre.
Querida amiga Ana, tem um bom fim de semana.
Beijos.

Dédalus disse...

Besos, Ana.
Gracias por estar siempre cerca de mi alféizar.

Sonhadora disse...

Minha querida

Fizeste-me voltar no tempo e lembrei de quando era menina, que quando chegava a feira eu me abastecia de panelinhas e alguidares e fogareiros e umas quantas bonecas, que em menos de nada estavam estragadas, porque as panelas eram de barro e as bonecas de papelão...saudades de mim.


Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Olinda Melo disse...

Tempos recordados numa toada poética e verdadeira.Tempos que não voltam mais? Talvez não...mas poderemos agora revê-los com outras cores, outros actores.E nem o tempo ajuda, com este outono ensolarado.

A imagem, lindíssima!

Bj Olinda

Bipede Implume disse...

Querida Aninha
Concordo com um comentário à tua prosa. Parece um quadro. E imaginamos cheiros também.
Que saudades dessas feiras. Eu gostava dos pífaros de barro pintados de branco, com listas vermelhas e azuis que se pegavam aos lábios.
Beijinhos
Isabel

JPD disse...

Boa noite, Ana

É aceitável dar a esta narrativa um extraordinário Tale sobre o Alentejo?

Durante a minha infância vivi no Alentejo.
(A família fez um percurso engraçado: Faro-Alentejo-Faro-Lisboa.)
Conheço bem o peso das feiras no Alentejo, a excitação que desencadeavam.
Lembro-me com enorme clareza das botas de cano alto que nos torturavam os calcanhares até estarem moldadas e afeiçoadas aos nossos pés e ao nosso andar.
(Maior tortura só a das japonesas com os pés apertados)
Não falaste das botas cardadas (Apenas um detalhe)
Coisa curiosa que nunca vi bem esclarecida: no Alentejo quem caia as casas são as mulheres. Porquê? É apenas porque os homens andam longe, nas herdades?

Excelente narrativa.

Beijinho