![]() |
| Rembrandt, A Tempestade no mar da Galileia, 1633 |
É longa e devastadora a tempestade...só a grandiosidade de Herculano, para a descrever. Ela, também é íntima e furiosa.
(Parte VI)
Sibila o vento: os torreões de nuvens
Pesam nos densos ares:
Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A imensa vaga ao longe vem correndo
Em seu terror envolta;
E, dentre as sombras, rápidas centelhas
A tempestade solta.
Do sol no ocaso um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa à nuvem, que, apressada e espessa,
Para apagá-lo corre.
Tal nos afaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciência
Dizer que ela mentia!
As ondas negro-azuis se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quais outras serras, que se arqueiam,
Bater, partir-se vão.
Ó tempestade! Eu te saúdo, ó nume
Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhais, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
E assolação derramas,
Quem porfiar contigo, então, ousara
De glória e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castelos,
E ver dos ferros meus, enfim, quebrados
Os rebatidos elos.
Eu rodeara, então o globo inteiro;
Eu sublevara as águas;
Eu dos vulcões com raios acendera
Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areais da Líbia
Converteria em montes;
Pelo fulgor da Lua, lá do norte
No pólo me assentara,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoara.
Ali, eu solitário, eu rei da morte,
Erguera meu clamor,
E dissera: «Sou livre, e tenho império;
Aqui, sou eu senhor!»
Quem se pudera erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
Nos líquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
Rápido, em baixo dá.
Ó morte, amiga morte! é sobre as vagas,
Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ela possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludíbrio,
Solta, sem rumo vague!
Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
O sono do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
Nas trevas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração opresso,
Que ao ligeiro prazer, à dor cansada
Negas no seio acesso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorido leito!
Tu, que ao mísero ris com rir tão meigo,
Caluniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asilo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas às portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delírios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que velo na vida, e já não sonho
Nem glória nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até às fezes,
O cálix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto há vil no mundo,
Santas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
Fragor da tempestade,
Salmo de mortos, que retumba ao longe,
Grito da eternidade!...
Pensamento infernal! Fugir covarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldições celestes,
No abismo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-se aqui para apurar-me
Nas lágrimas da terra;
Guardarei minha estância atribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu prémio,
O seu repouso, enfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bênção de pai querido.
Será o despertar, ver meu cadáver,
Ver o grilhão partido.
Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trevas da existência,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulcro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba à pátria do repouso,
Onde não há morrer.

16 comentários:
Profundo y bello poema. Te mando un beso.
Bonito!
Isabel Sá
Brilhos da Moda
Ainda bem que há tempestades
Caso não
Não haveria tão belo poema
Beijo amigo
Uma pérola romântica da Harpa do Crente...
Parece ter sido escrita junto do mar... teria sido nos Açores?
Entretanto já andamos desaustinados com tanta tempestade, mas gostei muito de recordar o poema.
Beijinho
~~~
Olá, amiga Ana, uma partilha da melhor qualidade do grande Alexandre Herculano,
que li desde o tempo dos bancos escolares, e que ainda leio.
Votos de uma ótima semana, com muita paz.
Abraços fraternos.
Beautiful blog
Please read my post
Tenho te visto por aí, mas no blog, nem sempre esbarramos um no outro, não é mesmo?
A passar por cá para desejar bom fim de semana!
Isabel Sá
Brilhos da Moda
Boa noite minha querida amiga Ana. O sumiço desse quadro de Rembrandt é um grande mistério. Confesso que nunca li nada, sobre esse autor. Obrigado pela dica e espero que esteja tudo bem com você e seus familiares. Acompanho, com atenção as chuvas em Portugal e na Espanha. Espero que esteja tudo bem com você e todos os seus familiares. O Instituto Inhotim é maravilhoso. Grande abraço do seu amigo brasileiro.
De momento, estamos bem Graças a Deus. Muito obrigada pelo cuidado, meu querido amigo. Um beijinho
Alexandre , o Grande , tanto como historiador como escritor como pessoa.
Pena ter-se partido o molde.
Minha amiga, que o domingo acabe em alegria e alívio.
Que belissimo poema de Alexandre Herculano.
Gostei muito de ler.
Bom domingo, e que a semana seja mais leve, porque tem sido dias muito violentos.
Um beijo.
:)
Alexandre Herculano anda quase esquecido. Por isso, ainda bem que aqui o trouxeste para nos relembrar que foi um grande escritor. Obrigado pela partilha deste magnífico poema.
Boa semana minha querida amiga Ana.
Um beijo.
Há quanto tempo não lei Alexandre Herculano. Que bom encontrá-lo aqui.
Uma boa semana.
Um beijo.
Poderoso!
Como poderosa a tempestade que nos assolou.
Grata pela bela poesia, que põe o coração aos sobressaltos.
O pior já passou.
Beijinhos e tudo de bom por aí!
Enviar um comentário