Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A 7 de Outubro começava a Escola oficial

Paula Rego, O passado e o presente


Há 5 77o anos, seria sete de Outubro se já seguíssemos o calendário de hoje.
No muito católico país «abria a escola». Corríamos com o cheiro novo dos livros, as batas brancas oficiais - que se tornariam pretas no Liceu - e um mundo de sonhos por plantar.Tudo pareciam certezas.
Estranha contradição.No muito católico país escolhera-se o primeiro dia da Era Judaica (3 761 A.C.)para iniciar as aulas.
Recordei-me disto, porque um dos meus alunos chamou, baixinho, «judeu» ao seu colega...e pedi, então, a uma das alunas que lesse alto este poema do nosso querido Jorge de Sena:


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando
lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer uma delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu
semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anónimamente quanto haviam vivido,
ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos,
apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum juízo final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

JORGE DE SENA,«Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya»

Os olhos azuis do meu aluno ficaram avermelhados ... e sorrimos.

5 comentários:

Vieira Calado disse...

Olá, amiga!

Já aprendi, hoje, mais alguma coisa.

E o brigado também
pelo poema.

Beijnho

EternaApaixonada disse...

Além de belo, respiro aqui cultura... Sempre!
Um lindo fim de semana, amiga!
Beijos

Karin disse...

Pode um ser humano ser feliz se outro ser humano rasteja?

A intolerância é abominável.

Um abç, Ana!

Bipede Implume disse...

Querida Aninha
Não me canso de ler esta Carta de Jorge de Sena.
Sublime.
Bom fim de semana,amiga. Espero bem que descanses.
Beijinhos.
Isabel

alex campos disse...

Um texto magistralmente lido pelo inesquecível Mário Viegas.

Um beijo