Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11 de Novembro

Helena de Tróia, por Evelyn De Morgan


Helena não era de Tróia. Era, no entanto, uma jovem mulher bela. O seu dinamismo exuberante fazia dela uma chefe. Helena era uma chefe. Os jovens adoravam-na e eu sabia que, actividade que planeasse, por mais ambiciosa que fosse, se haveria de realizar. Nisso nos igualávamos e ríamos juntas sempre que os nossos planos desafiavam as possibilidades. Lena era minha amiga. 
Caminhávamos sessenta quilómetros, pelo Carnaval, no Campo Militar de Santa Margarida e, noite alta, em torno da fogueira ríamos ainda até de madrugada, apesar de ela ter sempre bolhas de cansaço. Virávamos as meias do avesso para as costuras não magoarem, mas a Lena não resistia. Como os nossos maridos se lamuriavam do cansaço - meninos grandes, o Jaime e o Torres!
Caminhávamos por montes e vales montadas em sonhos: Alentejo de exuberâncias e de extremos, trilhos a afugentar o horizonte; Castro Laboreiro, Entre-Ambos - Os Rios, saltitando sob a chuva miudinha; imensidades de Espanha  com Igrejas ao fundo, Burgos que já reconhecíamos tão bem; aldeias Bascas alcantiladas em deleites de «quero ficar aqui»; Pirinéus; França gentil e nobre, Provença de encantadas lendas e heresias - «Façamos chichi neste campo de lavanda tão azul» - e eu sempre incomodada, moldada por uma educação tão rígida! Santander e a praia privativa donde os miúdos foram deserdados... Itália e Áustria no Tirol. A Suíça, quase um mês, viajada palmo a palmo num encanto demorado. Montanhismo, escalada, caminhada, café aguado bebido em abrigos da floresta alpina...sentada num tronco, rabisco poemas. Glaciares e calores de Agosto. 
Caminhávamos, já passados os quarenta anos. Mochilas nas costas. Botas bem grossas. Quem diria? Subíamos e descíamos montanhas e desfiladeiros. Escorregávamos na erva, ríamos desenfreadas. 
Castanhadas, tantas! A Senhora dos Prazeres, branca ermida com adro, onde dormíamos a seguir ao som de violas dedilhadas noite dentro. Vigiávamos o sono dos garotos, amedrontados das nossas histórias no escuro. 
Helena telefonou-me num dia de fim do meu Agosto algarvio e disse-me que estava hospitalizada, sentada na cama a ler. Surpresa a minha, pois a deixara há uns dias, sequer uma semana. Estava constipada e tossia ligeiramente.
Estávamos em 2005. A 11 de Novembro desse ano a Lena partiu numa viagem sem regresso. Helena, corpo robusto, nunca fumara e respirou comigo o ar puro da vida sã. Helena morreu, o seu pulmão a levou. 

Helena não era de Tróia. Helena era minha amiga. Por ela não se fez nenhuma guerra, mas conduziu gerações de escuteiros e eu, sua amiga descrente e desalinhada, acompanhava-a para conduzir os seus «escutas» que eram também os meus alunos. Laços bem fortes uniram gerações, muralhas de uma ilha íntima bem mais bela que a velha Tróia.
Helena, minha amiga.

Ana


12 comentários:

Rogério Pereira disse...

Helena, sua amiga...

Caminhando com Lena
por campos de Santa Margarida

(a memória é própria de quem tem afectos...)

Bipede Implume disse...

Querida Aninha
Ficou a recordação de um ser que fez parte da tua vida e a enriqueceu. E que ficámos a conhecer através do teu comovente testemunho.
Beijinhos e um bom fim de semana.
Isabel

Vieira Calado disse...

Olá, como está?

...e não esquecer que hoje

é dia de S. Martinho!

Vai um copo?

rs rs rs


Bjs

Irene Alves disse...

Linda homenagem a uma amiga.
Fiquei muito comovida eu que fui
tão traída pela amizade(?).
Mas continuo muito crente no
valor da amizade.Beijinho.Bom
fim de semana.Irene

Andradarte disse...

Foi com uma certa emoção, que cheguei ao fim do seu texto....
Mas fiquei mais calmo com a leitura.
Adorei
Bejo

Olinda Melo disse...

Olá, Ana

Li com emoção este seu texto, retirado das suas recordações, de uma Helena que, não sendo de Tróia, era também uma mulher guerreira, jovem e bela.

Ela será imortal,viverá para sempre no seu coração e no das pessoas que a amavam.

Beijo

Olinda

Braulio Pereira disse...

emotiva homenagem..

comoveu-me

nâo somos nada

um beijo!!

Δημητρης Μπαρσακης disse...

Lembrei-me de um verso de George Seferis:
"Para um Helena, para um chemise vazio ..."
?
beijo

RosanAzul disse...

Olá Ana!
COmo vai?
Gostei muito do teu escrito, parabéns! Rica recordação...
Meu carinho, abraços, Rosana

Sonhadora disse...

Minha querida

Uma bela e emocionante homenagem a uma amiga que estava dentro do teu coração e de certeza ficou no coração de muitos dos que ela acompanhou.


Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Fê-blue bird disse...

Amiga Ana:
Emocionei-me ao ler este teu texto dedicado a uma amiga que partiu num dia que ficará para sempre guardado na tua memória.
Quando perdemos alguém que gosta de nós, acho que morremos um bocadinho também.

beijinhos

São disse...

Há momentos em que a emoção me tira as palavras: este é um deles.

Só te posso abraçar em silêncio, solidária com a tua saudade.