Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

«Esperando os bárbaros», Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης




Grécia, José Alves






Mas que esperamos nós aqui n'Ágora reunidos?
É que os bárbaros hoje vão chegar!

Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão­de fazer os senadores?
Os bárbaros que vêm, que as façam eles.

Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador,
E se sentou na magna porta da cidade à espera,
Oficial, no trono, co'a coroa na cabeça?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
O chefe. E certamente preparou
Um pergaminho para lhe dar, onde
Inscreveu vários títulos e nomes.

Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas os deixam deslumbrados.

Porque é que os grandes oradores como é seu costume
Não vêm soltar os seus discursos, mostrar o seu verbo?

É que os bárbaros hoje vão chegar
E aborrecem arengas, belas frases.

Porque de súbito se instala tal inquietude
Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves)
E num repente se esvaziam as ruas, as praças,
E toda a gente volta a casa pensativa?

Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
E disseram que bárbaros não há.

Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução.




7 comentários:

Rogério Pereira disse...

É como Clistenes que aplaudo este poema. Esse passou a ser meu novo nome. Assumo a sua imagem. Hesitei entre ele e Solon, por este ter produzido lei que, além de perdoar dívidas e as hipotecas que pesavam sobre os pequenos agricultores, aboliu a escravatura por motivos de dívida. Optei, apesar disso, por Clistenes, a quem se deve a lei que instituiu que o poder deve pertencer a um colectivo e que quem ameaça a Democracia deve ser condenado ao ostracismo. Ele e eu, abominamos a tirania e os tiranetes...

São disse...

Excelente!

Um abraço,Ana.

Fê-blue bird disse...

A imagem é linda!
O poema Perfeito e actual !

"Agora que será de nós sem esses bárbaros?Essa gente talvez fosse uma solução."

beijinhos amiga

RosanAzul disse...

Lindo demais teu escrito! Belo tema.
Parabéns!
Um bom fim de semana!
Abraços, Rosana

Olinda Melo disse...

Intemporal, este Konstantinos Kavafis!

Talvez sejam a solução, mesmo insensíveis e desconhecedores da beleza das coisas...

Bj

Olinda

Guma Kimbanda disse...

Vêm aí?
Óptimo, porque os que cá temos são muito mais que isso.

Bom fim de semana,
beijo e kandandos.

JPD disse...

Boa noite, Ana

Eis um poema interessantíssimo e de uma actualidade indiscutível face à crise europeia.

Saíu recentemente um livro de Umberto Eco que se chama «Construir um Inimigo»

Neste poema, para justificar o estado da nação os cidadãos desesperam p+ela chegada dos bárbaros que poderão incentivar o povo e conferir-lhe um desígnio, preenchendo dessa maneira o vazio apático; conferir também um alibi para o desmazelo em que colocaram a sua vida.

Dramaticamente, é anunciada a sua não vinda.
Haverá maior atrocidade?
E agora, José?

Para exemplificar esta situação ocorre-nos de imediato o exemplo da Grécia. Claro que nos lembramos dos restantes membros dos tristemente celebrados PIIGS: a Espanha aguentar-se-á no balanço?

Como é que um povo cai na bancarrota?
Em democracia, a representatividade é regra.
Numa verdadeira democracia, os eleitores não se resignam a apenas praticar a cidadania votando. Participam activamente.
Ora, como foi possível trocar favores financeiros e um nível de vida superior às suas posses elegendo titulares políticos que aldrabavam as contas públicas.
Resposta simples: o valor de troca superava as contrapartidas.
Resta,portanto, aguardar a chegada dos bárbaros.

Bjs