Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Das 7 às 23 horas...



Cruzeiro Seixas



 O funcionário cansado
  
   A noite trocou-me os sonhos e as mãos
   dispersou-me os amigos
   tenho o coração confundido e a rua é estreita
   estreita em cada passo
   e as casas engolem-nos
   sumimo-nos
   estou num quarto só num quarto só
   com os sonhos trocados
   com toda a vida às avessas a arder num quarto só
  
   Sou um funcionário apagado
   um funcionário triste
   a minha alma não acompanha a minha mão
   Débito e Crédito Débito e Crédito
   a minha alma não dança com os números
   tento escondê-la envergonhado
   o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
   e debitou-me na minha conta de empregado
   Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
   Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
   Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?
    
   Soletro velhas palavras generosas
   Flor rapariga amigo menino
   irmão beijo namorada
   mãe estrela música
   São as palavras cruzadas do meu sonho
   palavras soterradas na prisão da minha vida
   isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
   num quarto só
     
António Ramos Rosa, 1960


 Andam assim os meus dias de trabalho...



8 comentários:

Jorge disse...

Bonito poema que serve de consolação única para um funcionário suportar o trabalho.
Abr
J

AFRICA EM POESIA disse...

Ana
Adorei este funcionário...CANSADO...


Beijos

Bipede Implume disse...

Querida Aninha
Não podia ser melhor a escolha deste poema embora nela esteja esse infinito cansaço que se apodera de todos nós.
E o olhar do "chefe" não é nada, mesmo nada lírico.
Se possível um fim de semna descansado,amiga.
Beijinhos
Isabel

mixtu disse...

num quarto só...
perdido num cansaço...
na prisão de todas as vidas

um caminhar ...

poesia

abrazo serranocom aliança :)

São disse...

Que tristeza , Ana!

Graças a DEus, profissionalmente correu-me tudo bem e aposentei-me na hora certa.

Tenho pena que a classe docente seja tão pouco respeitada !

Rosa não é dos meus poetas preferidos, mas gostei deste poema.

Um grande abraço solidário, linda.

Olinda Melo disse...

Querida Ana

Um poema com um conteúdo elucidativo e actual.

Gosto de Ramos Rosa.

Bom fim de semana.

Bj
Olinda

Braulio Pereira disse...

olá Ana

obrigado por post.

um cansaço que nos mata..

cuida-te. nâo te canses


beijinhos!!

Margarida disse...

Há pouco tempo li uma entrevista deste senhor Cruzeiro Seixas. Descobri um mestre surrealista, eterno apaixonado de Cesariny, velho e ignorado. Diz que não possui nenhuma das suas obras apesar de serem frequentes em leilões, e vive num lar sufocado por memórias antigas. É controverso e triste este homem...