Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 27 de março de 2013

A heresia



«Aos cátaros da Ocitânia - perfeitos e famílias crentes - que sofreram física e mentalmente os horrores da cruzada, primeiro, e da Inquisição, depois.»


Dias de chuva e muita leitura, sempre será assim. Recordo-me menina à espera da carrinha da Gulbenkian e de esgotar tanto os limites de requisição que precisava do cartão de amigos. Era um momento mágico. O Largo das Amoreiras, as casas brancas, as viagens precoces por essa reserva maravilhosa que a humanidade guarda na herança escrita. Dela fiz a minha profissão, que amo profundamente.
Hoje chove e inicio mais uma leitura. Agora, tenho a vantagem de conhecer os lugares, de ter caminhado por montes e vales, descido montanhas, sorvido o perfume dos ares. A minha memória faz-se de aromas e de rostos humanos.
A dedicatória já me conquistou.

«A Igreja cátara, herdeira dos saberes mais profundos da espiritualidade de Zaratustra, na longínqua Pérsia, soube aninhar no coração do Ocidente (Languedoc) uma cultura sociocultural  diferente da que preconizava a Igreja oficial, apesar de ser também cristã. Os seus ministros - Perfeitos - durante mais de dois séculos, partilharam os seus ensinamentos, baseados na liberdade da pessoa, no respeito pela mulher, na tolerância intercultural, na protecção da natureza e no sentido do trabalho, como premissas para a vida humana.», pág. 11

Sei a continuação da história, mas que importa? Nunca é demais relembrar o peso dos tiranos.
Esta é uma boa altura para recordar os resultados do concílio de Niceia... ou não recordas, também, as quatro controvérsias da Páscoa aí discutidas?

Ana 


7 comentários:

Bípede Implume disse...

Querida Aninha
Submeto-me ao teu saber tão sábio.
Que sei eu?
Só sei que nada sei. Só sei que estamos a ser vilmente tratados.
E aqui,encontro sempre uma luz.
Abençoada sejas por isso.
Beijinho
Isabel

São disse...

Amiga, excelente autor escolheste para te dar a mão nessa caminhada pelos caminhos da liberdade no Languedoque de há muitos séculos atrás.

Nunca é demais lembrar e denunciar a perversidade dos tiranos, mais hipócrita e repugnante ainda quando exercida contra iguais e em nome de uma causa ou religião de si justas.

Um fraterno abraço,Aninhas

Platero disse...

Olá Ana

Obrigado pela tua visita! É interessante ver algumas memórias que tens e que são semelhantes às da minha infância e adolescência. Uma prende-se com a Biblioteca da Gulbenkian, enquanto esperavas pela chagada da carrinha, eu pelo contrário fui um guardião da chave da biblioteca da paróquia (pequena mas com grandes obras). E isso fez-me ler alguns bons livros nessa altura de adolescente.

Ah, e houve um Campo das Amoreiras na minha infância, perto da escola onde estudei.

Sejamos sempre livres

Um abraço
Francisco

Nilson Barcelli disse...

Também desenvolvi o gosto pela leitura com a carrinha da Gulbenkian. Acho que li praticamente tudo o que havia para ler...
Ana, minha queridíssima amiga, tem uma Páscoa Feliz.
Beijo.

Mar Arável disse...

Tantos são os Cristos

no chão que pisam

Boa memória
delicioso texto

Fê Blue bird disse...

Uma infância que apesar de não termos acesso aos livros como hoje, não impediu o gosto e o saber.
E é esse saber que eu encontro sempre aqui minha amiga.

Páscoa Feliz!

beijinho

Olinda Melo disse...


Ah, a carrinha da GulbenKian... um mundo!

Os Cátaros: A diferença, num mundo que se regia por princípios teocráticos completamente dissociados da realidade e concebidos por homens com sede de poder.

Bj

Olinda