Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 9 de julho de 2013

Inclemência...

Willem Haenraets

Conheço o levante e o suão. Convivi com nortadas. Não é o clima que me conduz...caminho, sempre pelo mesmo parque, e é este o trilho que me leva do ninho ao labor. O suão afaga as minhas costas e eu sei que é ele e que rumo a nordeste. O sol incendiado declina e queima e o meu lugar é este. Nele habito os sonhos que vou tecendo e que burilo na rudeza ingrata do desfiar destes dias. No meu pátio ardem os gerânios, criaturas que, como eu, resistem de pé à inclemência dos idos. Só o suão nos abraça neste afago inclemente, no suor dos dias, no calor indolente...

O meu mundo navega sem rumo, porque a elite do lixo não conhece sequer o rumor das marés. Navega à vista e embate nas rochas. Sorri sem nexo e ensaia esgares de sobrevivência. Na praça deserta aves refugiam-se do ar pesado e morno. Todos desertam...
Onde se esconderam os homens deste lugar?

Ana


15 comentários:

Pérola disse...

Um vendaval no clima das emoções...

Beijo

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida Ana

Pobre planície dourada...tão esquecida como esquecidos estão os nossos sonhos.
Lindo sempre ler-te.


Um beijinho com carinho
Sonhadora

R. Vieira disse...

Minha nossa!
Que bem que fi em vier aqui te ler. Já estava com saudades de tuas inquietantes proposições. Amo demais Ana!

Beijos pra ti!

Andradarte disse...

...há que resistir, mesmo neste calor
inclemente...
Beijo

Bípede Implume disse...

Querida Aninha
Fizeste-me lembrar aquela canção dos Aguaviva.
"Qué cantan los poetas andaluces de ahora?

Cantan com voz de hombres.
Peró, donde los hombres?..."

Porque estes são unicamente amanuenses, mangas de alpaca, servidores de outros senhores.
Que tristeza.
Hoje, por aqui, já corre uma aragem. Menos mal.
Beijinho
Isabel

São disse...

Será que ainda há Homens, minha amiga?

Começo a duvidar, infelizmente.

Abraço fraterno

Jorge disse...

Gostei de ler esta história ficcionada e emocionada, misturada com partes de realidade.
Homens de desafios
não navegam à vista,
não encalham...
Tanto navegam no mar
como nos rios...

Um abraço, amiga Ana.

Mar Arável disse...

Alguns são expulsos

nas galerias da Assembleia da República

Bem-vinda ao meu mar

Margarida disse...

Tenha fé nos Homens querida professora... tenha fé.

Beijinhos grandes!

Fê blue bird disse...

« Onde se esconderam os homens deste lugar? »
Um pergunta pertinente minha amiga.


«...porque a elite do lixo não conhece sequer o rumor das marés»

Infelizmente nunca conhecerá.

beijinho e boa semana

Bípede Implume disse...

Querida Aninha
Beijinho e boa semana
Isabel

Fa menor disse...

Gosto de gerânios.

Apesar... dos pesares, que sempre se teçam sonhos.

Bjinhs, amiga, boa semana!

Petrus Monte Real disse...

Ana,

Tempos bárbaros,
cruéis,
desumanos...
Que carga sobre os ombros!

Valha-nos a Poesia!
O teu poema
retempera as forças
para a jornada!

Boa semana
Um abraço de amizade

Menina Marota disse...

"...
porque a elite do lixo não conhece sequer o rumor das marés. Navega à vista e embate nas rochas. Sorri sem nexo e ensaia esgares de sobrevivência.
..."

Adorei ler estas inquietações porque são minhas também!

Um grande abraço

Nilson Barcelli disse...

A primeira parte do texto é linda, ainda que tenha sido pensada com o calor à costas...
A segunda parte é ainda mais realista e retrata na perfeição a incompetência e a mediocridade políticas em curso.
Tudo junto, foste execelente com as tuas palavras.
Ana, querida amiga, tem um bom resto de semana.
Beijinhos.