Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O DISCRETO


Peeter Neeffs I - 1578-1660

Que passei anos a estudar o Barroco já não é por aqui novidade. Que levei horas a fio a ler processos inquisitoriais, menor novidade é ainda...foi tempo perdido? Não. Orgulho-me disso? Não, e o motivo é simples: a minha ideia de Deus escapou-se-me das catedrais para  universo. Eu decidi fazê-lo por me sentir inquieta com tudo o que se oculta sob a camada superficial dos seres e das épocas. Sobre o referido período as camadas de ocultação tombaram em abundância. A fragilidade da sociedade portuguesa da época, que se deslumbrava com os modelos dos dominadores e expulsava os seus melhores filhos, tornou-se um paradigma daquilo que somos hoje - dependentes, pretendentes e obscuros.
Desses tempos guardo muitos pintores e autores a que retorno amiúde. Por estes dias, de muito trabalho e provações diversas em terrenos de armadilha e poeira, vou relendo Baltasar Gracián y Morales que sendo jesuíta - com tudo o que isso significou então - teve a lucidez necessária para perspectivar o seu tempo.  A obra tem o sugestivo título: O Discreto. Num momento em que se fecham por aí governantes e pretendentes e na catedral se aplaudem políticos com estridentes palmas, enquanto seguranças de serviço vigiam as ruas, aqui vos deixo - com o sabor de antanho -  um excerto daquilo que leio:

«Daqui nasce que esses tais, mui pagos de sua paradoxia, solicitam a ocasião e andam à caça de empenhos; vão à conversação como a contenda, levantam porfias, e, feitos harpias insofríveis do bom gosto, a tudo arranham com suas acções e a tudo dessazonam com suas palavras. [...] Se passam logo de bacharéis de presunção a licenciados de malícia monstros da impertinência.»(pág. 87).





Ana

8 comentários:

Rogério Pereira disse...

O paradigma de hoje!

Fernando Santos (Chana) disse...

Excelente post....
Cumprimentos

São disse...

Eis um jesuíta lúcido num tempo escuro e que, infelizmente, se repete hoje.

Aninhas, tens um desafio lá em casa e acho que nem te é complicado, rrss

Beijinhos, minha linda

Andradarte disse...

Crónicas profundas....
Muito bonito o cabeçalho...

O palhaço do meu post....é a Amália..
Beijo

R. Vieira disse...

Olá Ana! Obrigada pela visita ao meu blogue. bom demais te ver por lá!

Gostei do post. Sempre bom aprender um pouco mais!

Mil beijos pra ti!

Bípede Implume disse...

Querida Aninha
O que é triste verificar é que afinal não se aprendeu nada.
Mas o texto é muito oportuno.
De férias não é assim? Que bom!
Aproveita bem.
A Sandra está quase a chegar, também
Beijinhos
Isabel

Petrus Monte Real disse...

Ana,

Em poucas palavras
uma excelente análise
da sociedade actual:
jugos, vícios e defeitos
que se contagiam ao longo de séculos!
Fantástica leitura,
cuja divulgação muito lhe agradeço.
Bom Domingo
Grande abraço

Pérola disse...

O saber nunca ocupa lugar.

Beijo