Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Dependências

«Últimos momentos de Camões». Pintura de Columbano Bordalo Pinheiro.



Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.
 






«Camões e a tença», Sophia de Mello Breyner Andresen








Hoje, fechada na sala de coadjuvantes de exame, li vezes sem conta este poema da minha poetisa de eleição. Às onze horas e com um calor abrasador, sob um céu de chumbo, tentei seguir os caminhantes no parque, mas o olhar insistente fixava o poema e descobria-lhe sentidos. A intemporalidade de Sophia não seria decerto para a urgência daqueles alunos. Portugueses adultos deveriam ser os receptores desta mensagem profunda e clara.
Olhando a finda - Este país te mata lentamente. - veio-me uma súbita vontade de fuga ... que em breve me levará, para ter vontade de retornar.



Ana

11 comentários:

AFRICA EM POESIA disse...

Ana
com um beijinho

Dia das avós é dia de Amor...

e foi mesmo,Ontem, Hoje e será também Amanhã...




Hoje é dias dos avós.
Mas... amanhã...
Depois de amanhã...
E sempre...
É dia dos avós...
... Do mimo...
... Da ternura...
... Do carinho...
... Do estar...
... E de poder transmitir...
... A força...
... E a confiança...

Eu sou avó...
Todos os dias...
E é tão bom...
Poder sentir...
Essa confiança!...

LILI LARANJO

Andradarte disse...

É só vontade....?? Então há muito
gente a querer o mesmo....
Beijo

Rogério Pereira disse...

Sophia
a certeira
companheira
a da palavra
certa
e adequada

Fuga? Sabe qual o destino das borboletas?...

Juℓi Ribeiro disse...

Ana:

Sua visita sempre me deixa muito feliz.
Tenho passado por muitos problemas de saúde mas tenho sido vitoriosa.
Me perdoe por não retribuir sempre sua imensa delicadeza e gentileza.
Mas acredite que mesmo sem te conhecer pessoalmente tenho um enorme respeito e carinho por você.

Os últimos momentos de Camões foram muito tristes mas ele
deixou sua sensibilidade
e talento imortalizados nos
seus textos e poemas maravilhosos.
A beleza de sua poesia
é atemporal.

Nos dias de hoje diante de tantas injustiças sociais e tantos políticos corruptos também
podemos dizer:
"Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente"

Um abraço fraterno e feliz.

Sonhadora disse...

Minha querida
Lindo este poema e actual neste momento...paciência é o que nos pedem, mas por vezes esgota-se porque quem paga sempre é o mesmo.

Deixo um beijinho com carinho
Rosa

Luma Rosa disse...

Não sei se é a intemporalidade do poema ou é o desejo de mudança que acompanha o povo há muito tempo. Mas acredito que os poetas são seres iluminados, para não dizer que talvez sejam "seres intermediários", mas não direi de coisas que não entendo! (rs*) Beijus,

mel de carvalho disse...

Sophia é, como refere, intemporal, e também das minhas poetas de eleição.

Diz a Ana "mas o olhar insistente fixava o poema e descobria-lhe sentidos. A intemporalidade de Sophia não seria decerto para a urgência daqueles alunos." e eu concordo, amiga - essa é a questão. Vivemos em voracidade e sequer nos damos conta do quão nos tornamos dependentes por não ousarmos "ser mais que a outra gente."

Beijo e o meu carinho. Boa viagem Ana. Boas Férias.

Mel

Cátia disse...

realmente é um poema bastante bonito :) pena nos estar a dar tantas dores de cabeça. beijinho professora *

Fernando Campanella disse...

Maravilha, Aninha, lindo poema e o teu pensamento que comenta e o completa. Bjos, minha querida amiga.

Olinda Melo disse...

Belas e profundas palavras, Ana, a enquadrar o poema de Sophia.

Temos aqui uma grande poetisa diria, contemporânea, e o outro, o grande Camões cujo legado extravasa o próprio tempo.Ambos orgulhos e esteios nossos, que nos iluminam o caminho na fuga e retorno ou mesmo...permanecendo.

Obrigada por estes lindos momentos.

Beijos.

Olinda

JPD disse...

Para quem desejar pensar e apoiar-se neste eloquente poema, jamais deixará de poder esquecer esta fantástica edição.

Há um problema grande em Portugal: pensar e fazê-lo não no que desejamos pessoalmente, nem na substância das agremiações que nos são próximas ou onde militamos... Apenas pensar.
Nada mais do que isso.

Encurralados na assinatura do memorando da Troika, é evidente que as dificuldades são prementes e a capacidade de imaginar saídas airosas aumenta à medida qu passa o tempo e afinal, que adiantou viajar em classe económica ou reduzir aparelhos de ar-condicionado?

Bjs