Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Numerários e Supranumerários

Catacumbas de S. Calixto - Roma




Fui uma adolescente inquieta, dessas que pensava mudar o mundo e restituí-lo a uma pureza paradisíaca. Leitora compulsiva de tudo, aos catorze anos poderia ler fotonovelas ou O Banquete de Kiekeggard - alegoria e ironia uniram-se para construir o meu mundo. Não excluo contrários, pois eles são dicotomia necessária.
Dito está.
Acredito que as sociedades só mudam se o Homem mudar e for humano, fraterno e justo  - medida ainda de todas as coisas, sem sofismas de extremos.
Assim, na velha estante de um padrinho padre encontrei, muito cedo, um livro que, a esse tempo, me encantou. Parecia responder a cada uma das minhas exigências íntimas. O sugestivo título, Caminho, apontava uma direcção regrada que organizava o pensamento e actuação de uma jovem. Com reservas, o livro me tinha sido emprestado. Fui lendo, um a um, os escritos de J. E. de Balaguer. Orgulho-me de o ter feito, pois quando falo da Obra, sei do que falo. Falo de gente miúdinha com estreiteza de espírito e ambições perturbadoras. Falo de um universo regulado e regular. Soube, assim, dizer "Não!". A fraternidade e a Justiça não moram na Opus Dei. Ali, a construção é de ego.
«Quem nada conhece nada ama», poetou Paracelso, mas só conhecendo os fundamentos podemos recusar.
A distorção informativa a que somos submetidos em Portugal, diariamente, é perigosa e exige que denunciemos, hoje, o armadilhado caminho da ignorância.
Não regressemos à Coimbra de 1946...

Escrivá de Balaguer
Ana


13 comentários:

Fê-blue bird disse...

Minha amiga:
«Quem nada conhece nada ama», poetou Paracelso, mas só conhecendo os fundamentos podemos recusar.»

Convém haver ignorância, só assim se manipula e se verga o povo.
Não acredito na mudança na humanidade, já é tarde para isso.

beijinhos minha amiga

CR disse...

Como me revejo neste texto, Ana. Também me recordo desse "Caminho" que devo ter algures esquecido no meio de outros livros. Fizeste-me ter vontade de o procurar para reler.
Obrigado pela tua visita ao MFC e convido-te a passar pelo Recantos - a menina dos meus olhos.
Bjo.

Jorge disse...

Essa gente de ambições perturbadores têm regras próprias para eles e distintas para os outros. Por vezes têm um poder ridículo que não presta para nada que usam para humilhar o próximo, projectando nele as suas frustações.
A distorção informativa torna-se, por vezes, uma arma poderosa e é, como diz necessário desmontá-la e denunciá-la...
Bj

Rogério Pereira disse...

"Soube, assim, dizer "Não!"

Os Nãos são mais enérgicos e determinados, quando se conhece bem a realidade que se nega. Por isso nos afastam tanto da realidade que vivemos...

São disse...

Balaguer foi um nazi e a Opus DEi colaborou com Franco na sua ditadura cruel sobre Espanha...e tudo fica dito!

Um abraço grande, Ana

vieira calado disse...

De pequenino

é que se começa a aprender.

Infelizmente não é para todos.

Como vemos por cá...

Beijocas.

João da Nova disse...

Gosto da delicadeza da tua poesia, e gosto na mesma medida, da sobriedade dos teus pensamentos… A ignorância é inimiga da liberdade de se dizer “sim” ou “não” e se saber porquê. Grande beijinho

helia disse...

Recordo-me bem do Caminho , que já li há muito tempo !

mixtu disse...

que nunca voltemos à ignorância...
nunca...

excelente artigo...

abrazo serrano

Nilson Barcelli disse...

Adorei ler este teu texto.
Porque, assim, te vou perceber ainda melhor, e porque concordo contigo, nomeadamente quando dizes "A distorção informativa a que somos submetidos em Portugal, diariamente, é perigosa..."
Muito do que somos hoje, deve-se a essa "técnica", que deforma a sociedade e até condiciona governos.
Beijo, querida amiga.

Bipede Implume disse...

Querida Aninha
Nunca estive tão de acordo contigo.
Como sempre os teus textos iluminam.
Outra coisa com a qual muito concordo são as entradas do Fialho. Entradas e tudo. Valham-nos estas coisas terrenas.
Beijinhos e um fim de semana que seja em paz.
Isabel

Ana Lucia Franco disse...

Oi Ana,

Mais do que ideais, acredito que sentimentos são capazes de transformar o mundo. Por isso, desejo-te muitas felicidades e alegrias, sempre possíveis de serem cultivadas.

E que reflexão maravilhosa, ratifico-a plenamente!

bjs.

Olinda Melo disse...

Olá, Ana

O seu texto indica-nos um caminho: o de dizer 'não' à manipulação e de que através do conhecimento ascenderemos à Luz.
Não conhecia o livro que menciona, 'Caminho', e fiquei interessada.

Se puder, apareça, amanhã, no Xaile de Seda.Há lá encontro marcado!

Beijo

Olinda