Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eco I

Rafal Olbinski
Andei pelo Voz das Palavras. Por aqui deixo o ECO I:



Caminho no silêncio luminoso e frio deste dia. A vereda de terra batida esgueira-se veloz à minha frente e afunila na distância. Conto os passos. Serão dez mil, feitos de sonhos de mil e um dias já vividos. Em tempos fui atleta, hoje serei, talvez, asceta. Convém sê-lo nestes dias cinzentos sobre os quais jorram gotas de desencanto. Não me asfaltem as ideias! Quero a areia que desliza, suave, na resiliência dos sonhos. 
Ao longe, no dealbar, suspenderam-se  os castelos. Resta-nos um caminho, quem sabe se de regresso?
Caminho sem motivos para um poema que escavo num recanto longínquo. Poetas persas, do século X, habitam-me a memória. Tombaram, em ruína, tantos impérios! Mas Rudaki ainda me inspira a melodia dos passos sem rumo: «Talvez o tempo te ponha na sua escola pois não terás melhor professor que ele».  
Na juventude, li furiosamente os poetas persas pré-islâmicos. Com eles aprendi a caminhar, deslizando sobre areias movediças de tempos inglórios. Talvez ainda seja o tempo sem rupturas, talvez possamos cativar sem grilhões...
Caminho e penso palavras alheias que por aqui espalho, humildemente:

 ***
Alegra-te do que tens conseguido
e não recordes o passado.
Para mim aquele encaracolado e perfumado cabelo,
para mim aquela cara de lua que é de raça de anjos.
Afortunado é o que utiliza e obsequeia,
desafortunado o que não utiliza e nem oferenda.
Este mundo de anseio é como o vento e a nuvem,
acerca o vinho, passe o que passe!


(Rudaki)

Ana

8 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Fui lá, Ana. E ainda deixei uma gracinha sobre vc passeando pela blogosfera.

Sonhadora disse...

Minha querida

Um texto lindo muito profundo, adorei.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Vieira Calado disse...

Não sei de que época é este Rudaki.

Mas conheço algo da poesia egípcia de há 4 mi anos.

D. Dinis é considerado um dos grandes da Idade Média portuguesa.

Comparado com esses egípcios

é

Zero!

Saudações poéticas

LUNA disse...

Vi un ave cerca de la ciudad de Sarakhs
Se había planteado su canto a las nubes
Vi un colorido chador en él
Así muchos colores en su chador

Por muchos años que viviera, no podría leer todo lo que él escribió.
Precioso, querida amiga.

Leovi disse...

I like your blog is very attractive

Bipede Implume disse...

Querida Aninha
Também fui lá. Lindo.
E assim prosando e poetizando espalharás por toda a parte o teu engenho e arte.
Bom fim de semana, com muita paz.
beiinhos
Isabel.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

"Ao longe, no dealbar, suspenderam-se os castelos" veros concretos me alegraram alma

Fernando Campanella disse...

"Este mundo de anseio é como o vento e a nuvem,
acerca o vinho, passe o que passe!"

Adorei o poema, sabedoria milenar, que ainda tem seus ecos em nós. Belo teu texto também, com buscas de um coração repleto, inquieto. Grande abraço, Ana.