Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 16 de abril de 2013

Cântico Negro





Portalegre


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



                               José Régio




Olhando pela janela envidraçada do lugar onde como, tenho esta visão da cidade de Portalegre, mas são as palavras de Régio que me martelam na memória. Imagino-o a atravessar este mesmo jardim com um passo apressado a caminho do Liceu. A sua aula de Português esperava-o. A minha aula de Português espera-me. A rebeldia habita-nos. Trindade perfeita.

                                                           Ana



11 comentários:

Mar Arável disse...


... entretanto...

em Abril nascem flores
mais vermelhas

que os teus lábios

Isa Lisboa disse...

Excelente escolha! Adorei!
E que a trindade se mantenha!

Beijo

=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Pense fora da caixa

São disse...

Gosto muito, mesmo muito, deste poema.

Régio escreveu um outro que me agrada também a valer: "Toada de Portalegre".

Boas aulas, Aninhas

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Bonita revisitação...

Um beijinho

Jorge disse...

Boa noite Ana,
A rebeldia habita-nos e habitou outrora no altaneiro castelo de Portalegre, coabitou com José Régio neste seu contestador poema aqui tão oportunamente evocado.
Bj
J

. intemporal . disse...

.

.

. ana,,, .

.

. venho do blogue da São Banza . ainda perplexo com o Seu poema que por lá encontrei . e feliz . por o ter encontrado .

.

. os meus sinceros parabéns .

.

. um abraço .

.

. paulo .

.

.

Fa menor disse...

Perfeito!

:)

bjinhs

Anónimo disse...

Vim através da São, pois gostei do teu poema.

::))::))

LUIZ

Bípede Implume disse...

Querida Aninha
Também gosto muito da Toada de Portalegre. Aliás gosto muito de Portalegre. É lindo.
Acho que a maior parte de nós está nessa fase, sabermos que não vamos por ali.
Beijinho e um fim de semana com muito sol.
Isabel

Olinda Melo disse...


Sim, este poema de José Régio tem o condão de se incrustar no nosso pensamento, especialmente os últimos versos. Um grito de rebeldia! E digo com veemência: essa Trindade é bendita!

Bj

Olinda

Ana Tapadas disse...

Agradeço, aqui, Luiz, pois não deixaste o teu «link»...

bjs