Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 7 de abril de 2013

Sem submissão...

FLOWN WITH THE WIND
Vladimir Kush

Ninguém nos poderá delapidar esta tarde rósea em que somos a brisa morna da planície. Fremente, a floração aguarda só mais um dia de sol. É essa liberdade de águias que nos crava no peito a esperança, mesmo quando todos imploram e sibilam a pobreza futura. É o velho orgulho da mestiçagem destes sangues, tão mesclados, que nos adoçou a voz e a tolerância sem submissão. Percorro contigo a vastidão destes lugares, sentindo a energia renovar o meu ser de criatura do Sul e, subitamente, um poema de Nemésio ajusta-se ao momento. Em surdina, habita-me o instante:

*****
Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.
Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo, Grego, Grego!
Homem, seja onde for.
Romano na ambição,
Oriental no ardil
Latino na paixão,
Europeu por subtil:
Homem sou, homem só
(Pascal: "nem anjo nem bruto"):
Cristãmente, do pó
Me levante impoluto.

Vitorino Nemésio


12 comentários:

Olinda Melo disse...


Boa noite, Ana

Uma viagem ao nosso íntimo feito de História e histórias várias, mestiçagem do corpo, mestiçagem do espírito, mestiçagem cultural. Seres que habitam o instante de todos os tempos.

Bjs
Olinda

Rogério Pereira disse...

Todos ficaram sensibilizados e calados
minha alma lusa
meu coração celta
meu sangue mouro

Amanhã não será assim,
"o velho orgulho da mestiçagem"
torna a reacção insondável

São disse...

Um dos poemas de que mais gosto de Nemésio e que enquadra na perfeição no nosso Alentejo.

Senti-me ao ler-te na vastidão da planície...e te agradeço muito.

Abraço fraterno, Aninhas.

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Gostei deste enrolar de horas onde outras dimensoes se atravessam..

beijinho amigo

Mar Arável disse...

Quem somos nós

para domar o vento?

Bjs

Bípede Implume disse...

Querida Aninha
Como sempre sou levada mais além pelas tuas palavras. Principalmente estas: "tolerância sem submissão".
É um insulto deturparem a nossa tolerância.
Imagens lindas.
Beijinho e boa semana.
Isabel
PS Gosto muito desse poema do Vitorino Nemésio.

Fê Blue bird disse...

Que esta mistura de sangue e raça, nos traga a força da não submissão.

Sempre oportunas e perfeitas as tuas escolhas minha amiga.

beijinho

Andradarte disse...

Profundo o Nemésio...mas sublimes as suas palavras..
Beijo

heretico disse...

vozes ao sul - lânguidas...

belíssimo texto

beijo

Evanir disse...


Benditas são as pessoas que ao nosso lado ofertam um sorriso,
apontam, mesmo sem saber, um pedacinho do paraíso.
Com muito carinho desejo
uma linda noite.
E dizer que seu blog esta em destaque
com outras amigas,beijos no coração.
Evanir..

Maria Luisa Adães disse...

Ana

Saudades de ti eu tenho muitas...muitas que não posso tolerar, pois não me deixam respirar.

Escreve-me só uma Palavras nos "7degraus" Ana, por exemplo...

Nemésio e me lembro de não entender nada daquela pronuncia que ele tinha.

Gostei de te encontrar Vitorino!
Afinal, não morreste, estás aqui presente, como a criatura viva que sempre foste!

Que bom eu sentir e ser assim...tão fora do comum...Foi-te dada a Eternidade, Vitorino, descansa e conversa por lá
"Do assento etério onde subiste"

Com saudade, Maria Luísa Adães

Fa menor disse...

Gosto do sopro de brisas assim :)

Beijinhos