Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 31 de janeiro de 2015

A outra face

Roma - José Alves

Caminhamos devagar, sempre a pé, pernas ligeiramente escaldadas por este calor romano - respiração cálida de outras eras. Há mais de vinte anos, por aqui caminhámos dias a fio. Agora, aqui estamos de novo. O nosso filho, já homem feito, acompanha este gosto sereno de olhar cada detalhe. Herdou essa paixão por deambular. Por dentro da sua blusa de riscas, por detrás dos seus óculos escuros escuta a História.

Roma - José Alves

É nestes lugares esconsos que a vida acontece e o tempo se instala. Alguns romanos desviam-se dos turistas, incomodados como nos tempos do império perante a turba exótica. Vamos, então, não peças um capuccino, não te entregues...essa é uma bebida matinal. Sejamos romanos.

Roma - José Alves 
Ao longe, escondem-se os monumentos que bem conhecemos, a que retornaremos, porventura. Levaremos o mapa e olharemos, deslumbrados, como todos os outros. Todavia, é aqui que a cidade pulsa, na sua ímpar identidade.

Roma - José Alves


Comamos por aqui, frugalmente, que o excesso sempre acarreta o declínio. Essa foi a lição que aqui temos plasmada em cada pedra. Talvez te conceda um limoncello, talvez ele me seduza, cítrico e doce. E, tu insistirás, como de costume, para adoçar a minha rigidez disciplinada...por isso, te quero.

Roma - José Alves



Ana

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

«Os juízos cegando e as consciências», Camões

Auschwitz



Balcãs

Destes lugares, alguém dirá:
- Nunca existiram.




domingo, 18 de janeiro de 2015

A Torga

torga (google)

Súplica

Não adiem a nova primavera.
Olhem que ramos tristes, os meus braços!
Trinta invernos a fio, e só dez anos 
De rosas de inocência e de perfume!
Lume!
Lume é que a vida quer nos ímpetos gelados!
Homens a arder de sonho e de alegria,
Em vez de candelabros de agonia,
Apagados.

(M. TORGA, Canto do Homem)



ANTT

Desespero

Homem, que perdição!
Que desgraça!
Um arco de triunfo em cada praça
A consagrar a tua perdição!

(ibidem)

PIDE  - ANTT


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Flor inaudita

Alentejo, José Alves

Caminho pela charneca. Botas grossas habituadas à distância. Assim endureço o corpo e alimento a voragem do frio Inverno. Sob os meus passos quebra-se o último gelo da madrugada. Pisar as gélidas manhãs é a arte de saber que o brilho solar aquecerá o dia. Certeza de um calor prometido aos que inspiram o limpo ar da planície. Amo esta distância entre a hipocrisia palaciana e a imensa planura deserta.

Alentejo, José Alves

 É nesse pasmo renovado que amanheço e me reinvento. Assombroso Anteu que sempre me renovas! Prece infinda à Natureza escrava. Enfrentemos cada dia olhando essa pequena flor extemporânea e inaudita! Flor espantosa, cujo fascínio, sinal da maravilha, traz a promessa de um Dia melhor.


Alentejo, José Alves


Ana

domingo, 4 de janeiro de 2015

Infâncias...


Saragoça, José Alves


Somos seres boreais e olhamos o Atlântico mergulhando as raízes no azul cristalino do Mediterrâneo, por isso amamos os vivos com o mesmo olhar fraterno e lúcido com que vemos partir na barca eterna aqueles que foram nossos. A tia M., aos 91 anos, fechou para sempre o seu olhar azul no dia 5 de Dezembro e, agora, no dia 31 o tio M., seu marido de 96 anos, partiu também. Neles andei ausente, porque neles ainda estava a minha infância...
Hoje, aqui regresso ao presente de dias claros e límpidos nos quais o Futuro amanhece.

Ana