Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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sábado, 9 de agosto de 2014

Andei por aí...



José Alves

Em boa companhia...




Agora voltei.

sábado, 2 de agosto de 2014

Fármacos...

Salvador Dalí

«Havia também a prática do bode expiatório, o fármacos, remédio para as grande desgraças que ferem subitamente as cidades. Era em Atenas e nos grandes portos comerciais da Jónia, nos séculos VI e V, nessa primavera da civilização que hoje nos parece tão clara, tão fértil de promessas já cumpridas. [..]Contudo, pelo sim pelo não, estas cidades tão modernas sustentavam um certo número de rebotalhos humanos, inválidos ou idiotas, ou reservavam condenados à morte, que em caso de fome ou de peste eram sacrificados aos deuses por lapidação. Ou então expulsava-se da cidade o bode expiatório, intocável a partir daí, pondo-lhe nas mãos figos secos, um pão de cevada e queijo. Ou ainda, depois de o terem fustigado sete vezes com hastes de cila selvagem nos órgãos genitais, queimavam-no e lançavam-lhe as cinzas ao mar. O uso do fármacos passou da Jónia para Marselha.» (Bonnard, pág.8)

File:The Scapegoat.jpg
William Holman Hunt.
Muitas vezes volto a este volume de André Bonnard, pois a belíssima tradução de José Saramago acrescenta beleza literária à informação original. Está envelhecido o meu volume, como estafada está a civilização grega. Porém, a antiga prática do «bode expiatório» alastrou como verdade universal, numa impressionante caracterização de algumas estruturas antropológicas do imaginário humano. As sociedades impregnaram-se dessa especular tradição. Na realidade, também os gregos a assimilaram de outras tradições. O caso aqui pouco importará, pois a actualidade está repleta de «fármacos», termo do grego antigo que designava essa prática. Hoje, poderíamos chamar-lhe outros nomes - da religião à mera propaganda ou ao injusto sacrifício dos inocentes.





domingo, 4 de maio de 2014

Contos


Hoje celebrou-se o dia da mãe e o meu filho, que bem me conhece, ofereceu-me este exemplar. Já li muitos dos contos que contém, mas o repositório de magia,  a frase curta e o humanismo que se desprendem da prosa de Gabriel Garcia  Marquez sempre me seduzirão. Gosto de contos sul-americanos. Ler será sempre uma das formas de preencher a minha angústia.
O conto que melhor se adequa ao dia de hoje, neste país de súbito Verão, quando se destemperam as quimeras e se encenam os títeres, é um escrito pelo autor em 1950 e a que deu o título de A Noite dos Alcaravões. Aqui deixo um excerto:

«- O que é que estão a fazer aqui? - perguntou.
E nós respondemos:
- Não sabemos. Os alcaravões tiraram-nos os olhos.
A voz disse que tinha ouvido falar disso. Que os jornais tinham dito que os três homens estavam a beber cerveja num pátio onde havia cinco ou seis alcaravões. Sete alcaravões. Um dos homens pôs-se a cantar como um dos alcaravões, imitando-os. [...] 
Disse que era o que os jornais tinham dito, mas que ninguém tinha acreditado.» (pág.437)

Alcaravão




quinta-feira, 17 de abril de 2014

Calou-se o Criador...


IN MEMORIAM

(Edito um «post» do Verão de 2012)

Saramago com García Marquez

A minha vida é uma história feita de livros. Meio-dia quente de assar pássaros que ousem esvoaçar com bater de asas ruidoso. Sala de móveis altos e escuros, cheios de gavetões com memória e de roupas de linho aromatizadas. Chão de frias tijoleiras vagamente marcadas pelo caminhar de antepassados. Ninguém baterá a mão fechada de ferro enegrecido, pois todos dormem, ou melhor, descansam - como gostam de designar a sesta. Nunca fui de sestas. Abro livros e livros, leio com teimosia autores e autores. Faço-o ainda agora, noutra casa, porque todos se foram para algum lugar e o vulto negro da avó também partiu há muito.
Gosto de autores sul americanos e de poetas clássicos. Mistura das minhas muitas bastardias. 
Foi com uma amargura fina que ouvi o anúncio de que Miguel García Marquez está a ser atingido pela demência e não escreverá, por certo, a segunda parte da sua obra anunciada. Não é o meu autor predilecto. Prefiro Cortazar ou J. L. Borges, porque um certo tom libidinoso e um retrato de mulher pouco considerada se colou a García Marquez. Porém, mais uma voz se cala e o mundo a que pertenço ameaça ruir. 
Em tempos quando o autor adoeceu, fizeram correr em seu nome a poesia que vos deixo hoje - é bela. Quem a escreveu conhecia o Autor, mas esqueceu-se que Deus não estava nos seus planos e que O trocaria, facilmente, por um trecho musical de Serrat.
 

La Marioneta de Trapos

Se por um instante Deus se esquecesse
de que sou uma marioneta de trapo,
e me presenteasse um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso,
mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem,
senão pelo que significam.
Dormiria pouco e sonharia mais,
entendo que por cada minuto que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm,
despertaria quando os demais dormem,
escutaria enquanto os demais falam, e como
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida,
me vestiria com simplicidade,
me atiraria de bruços ao sol,
deixando descoberto, não somente meu corpo,
mas também minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração....
Escreveria meu ódio sobre o gelo,
e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com un sonho de Van Gogh
sobre as estrelas um poema de Benedetti,

que ofereceria à lua.
Regaria con minhas lágrimas as rosas,
para sentir a dor de seus espinhos,
e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida...
Não deixaria passar um só dia
sem dizer à gente que quero, que a quero.
Convenceria a cada mulher e homem
de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar
que deixam de enamorar-se quando envelhecem,
sem saber que envelhecem
quando deixam de se enamorar.
A uma criança daria asas, mas deixaria
que ela aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte
não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens....
Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade está
na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido
aperta com seu pequeno polegar pela primeira
vez o dedo de seu pai,
o tem amarrado para sempre.

Aprendido que um homem unicamente tem direito de olhar
outro homem de cima para baixo,
quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês,
mas finalmente de muito não haverão de servir
porque quando me guardem dentro desta maleta,
infelizmente estaria morrendo....

De autor anónimo - Atribuído a García Marquez

Fonte: http://www.elsonfroes.com.br/neumanne.htm (8/07/12)

quarta-feira, 27 de março de 2013

A heresia



«Aos cátaros da Ocitânia - perfeitos e famílias crentes - que sofreram física e mentalmente os horrores da cruzada, primeiro, e da Inquisição, depois.»


Dias de chuva e muita leitura, sempre será assim. Recordo-me menina à espera da carrinha da Gulbenkian e de esgotar tanto os limites de requisição que precisava do cartão de amigos. Era um momento mágico. O Largo das Amoreiras, as casas brancas, as viagens precoces por essa reserva maravilhosa que a humanidade guarda na herança escrita. Dela fiz a minha profissão, que amo profundamente.
Hoje chove e inicio mais uma leitura. Agora, tenho a vantagem de conhecer os lugares, de ter caminhado por montes e vales, descido montanhas, sorvido o perfume dos ares. A minha memória faz-se de aromas e de rostos humanos.
A dedicatória já me conquistou.

«A Igreja cátara, herdeira dos saberes mais profundos da espiritualidade de Zaratustra, na longínqua Pérsia, soube aninhar no coração do Ocidente (Languedoc) uma cultura sociocultural  diferente da que preconizava a Igreja oficial, apesar de ser também cristã. Os seus ministros - Perfeitos - durante mais de dois séculos, partilharam os seus ensinamentos, baseados na liberdade da pessoa, no respeito pela mulher, na tolerância intercultural, na protecção da natureza e no sentido do trabalho, como premissas para a vida humana.», pág. 11

Sei a continuação da história, mas que importa? Nunca é demais relembrar o peso dos tiranos.
Esta é uma boa altura para recordar os resultados do concílio de Niceia... ou não recordas, também, as quatro controvérsias da Páscoa aí discutidas?

Ana 


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Maria Teresa Horta

Google

A minha homenagem à mulher que soube dizer «não» e mantém um olhar límpido!


A escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, disse esta terça-feira à Lusa que não o aceita receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto.
A entrega do Prémio D. Dinis esteve agendada para dia 28, sexta-feira da próxima semana, numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.


“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, explicou Maria Teresa Horta à Lusa.



“Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência”, salientou a escritora que acrescentou: “Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores”.



Para Maria Teresa Horta, “o primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural”.



A autora afirmou que “o país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto”.



“Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro”, deixou claro Maria Teresa Horta.



A escritora disse que já informou a Fundação Casa de Mateus da sua decisão, assim como a sua editora e falou com cada um dos membros do júri.



A premiada salientou ainda a “satisfação” que lhe deu ter sido distinguida “por um júri que representa três gerações de poetas: o Vasco Graça Moura que é da minha [geração], o Nuno Júdice, que é da seguinte, e o Fernando Pinto do Amaral, que é a mais nova”.



No sítio da Fundação Casa de Mateus, na Internet, é afirmado que “a sessão solene de entrega do Prémio será agendada brevemente”.



O Prémio Literário D. Dinis, instituído pela Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído por unanimidade à escritora, pela obra “As luzes de Leonor. A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, editado pelas Publicações D. Quixote.



Instituído em 1980 pela Fundação Casa de Mateus, em Vila Real, o galardão é atribuído a uma obra literária - de poesia, ensaio ou ficção - publicada no ano anterior ao da atribuição do prémio.



“As Luzes de Leonor”, obra editada em 2011, é um romance sobre a vida da marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), neta dos marqueses de Távora, uma mulher que se destacou na história literária e política de Portugal num período denominado como “o século das luzes”.



D.ª Leonor de Lorena e Lencastre é avó em quinto grau de Maria Teresa Horta, nascida em 1937, em Lisboa.



Maria Teresa Horta estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, foi jornalista e activista do Movimento Feminista de Portugal, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, com quem escreveu o livro “Novas Cartas Portuguesas”.



“Amor Habitado” (1963), “Ana” (1974) e “O Destino” (1997) contam-se entre mais de duas dezenas de obras publicadas da escritora.»


Jornal, «Público»





quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Notas de Leitura 2



Dias longos de Verão começam a declinar. Declínio parece ser um estado geral. Tudo definha na ressequida natureza até que tombem as primeiras chuvas outonais, doces, cheirando a palha molhada e terra sequiosa.
Até lá vou lendo, lendo como sempre e compulsivamente. Por causa de desígnios profissionais [quase nem valeria a abnegação neste duro tempo] leio agora uma obra extraordinária, aqui fica uma nota:

Para qué llamar caminos
a los surcos del azar? ...
Todo el que camina anda,
como Jesús, sobre el mar.

(Antonio MACHADO)

o.c., pág. 15



Ana

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Lupis...




«Em A Montanha da Água Lilás, fábula para todas as idades, o escritor angolano Pepetela conta a estória de uns seres cor de laranja, os Lupis, que pensavam, falavam e trabalhavam como os homens. Mas «não são homens, porque se chamam Lupis». Certo dia, os Lupis descobrem uma fonte de onde jorra um misterioso líquido, cujo perfume é inebriante - a água lilás. E deixaram de viver em perfeita harmonia ... Este livro, não é apenas uma fábula para todas as idades, tal como o subtítulo parece indicar, é um retrato intemporal da sociedade humana e da crescente desigualdade social».

Poderia ter começado assim uma das minhas aulas e, muito provavelmente, comecei. Poderia vir aqui sugerir a leitura desta maravilhosa obra intemporal de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, esse estudante da Casa Do Império, que depois se tornou conhecido como Pepetela - pestana, na sua língua umbundo. Nem mesmo de Angola vos venho falar.
O calor, a timidez de um Verão em crise, a monótona modorra destes lugares e as férias que chegaram, finalmente, levam-nos a curtas fugas por cidades vizinhas - Lisboa, Badojoz, Évora ou Cáceres...um pequeno mundo que nos fica próximo. Hoje foi um desses dias.
José, menino homem, sempre em ternuras delicadas, tenta presentear-me. Resisto. Abomino o consumismo e o excesso. Trinta anos de caminho conjunto já o ensinaram que só não saberei como negar-me a um perfume. Sempre fui de odores, não por algum resquício de vaidade, mas pelo poder evocatório que detêm. Eles são a água lilás da minha memória, têm nomes banais, mas escrevem a minha história: Bien Être, sobre as rendas brancas de menina; Lavanda Inglesa, sobre o meu duche de atleta juvenil; Nau, de adolescente inquiridora; Anaïs do tempo de trabalho e Éden, quando o sol assoma diariamente e o calor aperta, levando-me a outras paragens. Assim será.

A meu lado, uma avó paga o seu perfume. São 145 €, diz-lhe a lojista. 
- Passe-me tax free, se faz favor.
A menina pergunta - lhe:
- Para que país?
A resposta surge, pronta:
- Moçambique.

 A Montanha Da Água Lilás acaba de se ilustrar na minha presença.


                                                                                               Ana


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Notas de Leitura 1

Museu Nacional - Bagdade

« Em 12 de Abril de 2003 chegou ao conhecimento do mundo a notícia do saque do Museu Arqueológico de Bagadade. Desapareceram trinta e oito objectos de grande valor, mais de catorze mil peças menores foram roubadas, e as salas, destruídas. A 14 de Abril queimou-se um milhão de livros da Biblioteca Nacional, com mais de dez mil registos do período republicano e otomano, e em dias sucessivos esta situação repetiu-se com as bibliotecas da Universidade de Bagadade, a Biblioteca de Awqaf e dezenas de bibliotecas universitárias de todo o país.» 

Fernando Báez, História Universal da Destruição dos Livros, p.p. 8-9



Biblioteca Nacional de Bagdade

terça-feira, 22 de maio de 2012

Obrigada, Xavier Narval! Obrigada, Ximena Luna!



Alfredo Rodriguez, pintor mexicano 


Os meus amigos são jovens, ainda deambulam na imortalidade da segunda década de vida, têm um ar doce e feliz. Habitam um país distante, imenso, quente e vivem numa megapolis. Os meus amigos têm um sorriso de quem sonha e é generoso. Hoje, fizeram-me chegar um espantoso livro que me traz ecos de arte, História e escrita da sua terra.




Parte de um projecto muito maior, que começou com os doze capítulos da série de televisão do mesmo nome, este livro reproduz nas suas páginas os textos originais, utilizados como roteiros para a série, realçados com imagens e fotografias que ilustram cada um dos capítulos. Reconta a história do país na época pré-hispânica, do México durante o período colonial até ao México contemporâneosob a pena de especialistas. Com uma fantástica abertura escrita pelo recém desaparecido escritor Carlos Fuentes, adentro-me e perco-me na leitura e no deleite das belíssimas ilustrações. Carlos Fuentes, também ele, alma democrática do México e lição de Humanidade que nos vai faltando... 

Por momentos saí do meu país cinzento e dos meus dias de exaustão pelo trabalho.

Obrigada pela viagem!

Ana



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Silêncio Triangular


«Pararam no ponto mais alto da cidade, esfalfados de sorrisos, a admirar o pôr-do-sol.
Os três. Em fila. Calados,como manda o rito dos contempladores de poentes. Por sinal, o dessa tarde cheio de negridão inquieta.
Mas nenhum dos três, depois aquela correria íngreme, se atrevia a denunciar a frustração do espectáculo. Nem Elsa que aproveitava o resfolgo do cansaço para manter a comédia da exaltação emudecida. Muito menos os outros dois, Raul e Eva, dominados como de costume pelas pequeninas paixões da amiga - só efémeras por serem profundas.» (pág.91)

Pego no livro e folheio ao acaso. O meu poente, alentejano e belo, também se encheu de alguma frustração. O livro deveria estar, a estas horas, nas mãos de uma querida amiga e eu deveria ter ido ao seu encontro, mas dias esfalfados são os meus nesta abertura de ano lectivo.
A minha amiga telefonou pela manhã e a voz dela embargou-me a minha, tal a emoção.  Regressara há dias dessa Escandinávia de que fala José Gomes Ferreira. Também ela uma grande escritora. Também ela sábia a denunciar poentes com nuvens...
Aqui  lhe presto uma singela homenagem:

Janaína Amado


Até breve!


Ana





quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Memoricídios


Texto Editora


« "A nossa memória já não existe. O berço da civilização, da escrita e das leis foi queimado. Só restam cinzas." Ouvi este comentário em Bagdade a um professor de História Medieval, a quem detiveram,  poucos dias depois, por pertencer ao Partido Baas. Quando disse isto,  abandonava a moderna estrutura da universidade, de onde tinham saqueado, sem excepção, os livros da biblioteca e destruído aulas e laboratórios. Eu estava sozinho junto à entrada», coberto por uma sombra sem pausas, e apenas pensava, quiçá em voz alta, ou não pensava, que a sua voz fazia parte desse vasto, interminável e contínuo rumor que caracteriza, por vezes o Médio Oriente. Chorava enquanto me olhava. Creio que estava à espera de alguém, mas quem quer que fosse nunca chegou, e poucos minutos depois viu-o afastar-se, sem rumo, bordejando uma cratera enorme aberta por um míssil junto do edifício». (pág. 7)


Assim começa o livro que fala da destruição dos livros ao longo da História. Nele me embrenho...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Carlos Ribeiro - já leu?

Em videoconferência com o escritor, a partir do Brasil.

Mergulhada em trabalho...com muito gosto, mas sem tempo. Voltarei devagar...

videoconferência





RIBEIRO, Carlos, «A cidade Revisitada», Contos de sexta-feira e duas ou três crónicas, Bahia, selo Primeira Edição, 2010

            Observamos o livro que atravessou o Atlântico e pensamos em antigos baús incógnitos que, nos idos, terão feito o percurso inverso carregando velhas edições que escaparam à apertada malha inquisitória. Mergulhamos na leitura e deixamo-nos cativar pela Língua. A matéria linguística transmuda-se num discurso eivado de simbologias que a frase curta, ritmada e poética faz emergir de um tempo futuro, «naquela manhã ensolarada de Agosto do ano de 2018»[1], que regride a um passado/presente o qual possibilita retornos, ainda mais remotos, a uma memória umbrosa e original.
            A personagem central, «O homem de óculos e roupas surradas»[2], persona que regressa, ocultando o seu olhar transformante, ao jeito aristotélico, mas deambulando com uma construção de nouveau roman, tal como Alain Robbe-Grillet no-la propôs, reforça-nos a maturidade literária do texto. Viajamos, num táxi rotineiro, acompanhando o olhar oculto do homem. Não saberemos o nome da personagem, mas ela nos guiará pela orografia e toponímia de Salvador e a cidade – agora perfeita, ideal e luminosa – oscila numa vertigem temporal entre a realidade e o imaginário. Uma tecitura complexa de recriação de um espaço – tempo que se instaura no universo do mito. «O homem de óculos» percorre o lugar de uma ausência. O seu mundo, moldado por parcos advérbios que abrem a clivagem subjectiva do sujeito («Sorri timidamente»[3], «surpreendentemente boas»[4]), é percorrido pelo olhar num jogo especular surpreendente. Ocorre-nos uma frase de John Berger – A vista chega antes das palavras [5]. A vista, afirma o mesmo autor e já o sabemos, «estabelece o nosso lugar no mundo que nos rodeia»[6]. A narrativa de Carlos Ribeiro testemunha-o bem.  
A personagem sabe que num presente anterior ao tempo da história o caos e a descaracterização urbanística foram uma «tragédia absurda»[7]. A recordação de uma paisagem impoluta e natural feita de areias, coqueiros e mar – qual éden inicial – sacraliza o espaço. A ele se regressa num tempo de imagens diurnas, por «um túnel de bambus»[8], numa passagem ritual magnífica. A seguir, com uma recorrência ab initio, numa ironia subtil eivada de hipérbole e de pormenores que o olhar capta, enquanto deambula com sentimento de pertença e maravilha, leva-nos ao intertexto in memoriam de Vasconcelos Maia. E, a cidade brilha, cristalizada, instala-se na ficção – lugar ideal em sobreposição temporal e textual. O outro habita a linguagem, numa duplicidade que exige medo e contenção. Salvador recobrou a sua autenticidade toponímica, pois nomear é sacralizar. Como em M. Duras, as personagens desencontram-se na linguagem, estranham-se e repelem-se, «Ele não responde. O motorista liga o rádio»[9]. O homem que regressa é escritor e conhece o frágil equilíbrio dos lugares belos, «Lugares escolhidos para ali se viver, residências invisíveis que construímos para nós à margem do tempo»[10] e o vértice desses lugares culmina no farol, onde o ritual de observação do pôr-do-sol, às sextas-feiras, era momento redentor. O largo da prefeitura metamorfoseou-se, através de um processo de idealização diurna e recuo autístico, num espaço ajardinado. Incrédulo, o homem percebe que a vida regressou ao centro da cidade antiga, «ambas convivendo em perfeita harmonia, no espaço ideal da memória e da afectividade»[11].
A cidade ideal, sonhada pelos construtores fraternos e pacíficos, renasceu e recobrou a magia, numa cosmogonia que, sabemo-lo, não é do domínio da ciência, mas etérea e poética, como a escrita de Carlos Ribeiro.
Foi uma leitura de um fôlego, pura fruição do texto, foi a atracção magnética de uma prosa que nos deu uma visão da Salvador idealizada, mas mais do que isso, o Autor transferiu-nos para uma generosa expressão do homem no mundo. Concluímos, com o receio do narrador «de que tudo aquilo não passe de um sonho»[12]. Logo, o acto de ler/escrever continua a ser o pharmacon[13] para a interpretação do real aparente.


Ana Tapadas e 12.º ano D
ESPS – Junho/2011



[1] RIBEIRO, Carlos, «A cidade Revisitada», Contos de Sexta-feira e duas ou três crónicas, pág.37
[2] O.c., pág. 37
[3] Idem, ibidem
[4] Idem, ibidem
[5] BERGER, John, Modos de Ver, Edições 70, Lisboa, 1972, pág. 11
[6] Idem, ibidem
[7] RIBEIRO, Carlos, o.c., pág. 37
[8] Idem, ibidem
[9] RIBEIRO, Carlos, o.c., pág. 41
[10] YOURCENAR, Marguerite, Memórias de Adriano, Editora Ulisseia , Lisboa, s.d., pág. 269
[11] RIBEIRO, Carlos, o.c., pág. 42
[12] Idem, ibidem
[13] RICOEUR, 1976


terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval, as máscaras...

eu...sem máscaras
Lá fora chove. 
Percorremos quilómetros cinzentos, neste dia de Inverno tardio. Sem máscaras, nem riscos, nem sombras...Faz frio. Deslizámos na chuva. 
Hispano-árabes, eu sei. 
Não me peças  artificialismos, cores, extravagâncias pardas...
A obscura origem deste dia não me comove. Preferia-o límpido e jovem a alvorecer, mas correm trabalhosos os tempos e as civilizações rebelam-se. São os idos da rebelião, porque o tempo correu e oprimiu como qualquer algoz.
Carnaval na incerta origem...

 Ana


http://3.bp.blogspot.com/_6goIAB1He6g/S_2kW-9sdfI/AAAAAAAAKkc/DRkIOJ8ujDs/s320/netuno.jpg
Cronos/Saturno


« QUAL É A ORIGEM DO CARNAVAL?
O Carnaval é uma herança de várias comemorações realizadas na Antiguidade por povos como os egípcios, hebreus, gregos e romanos. Estes festejos pagãos serviam para celebrar grandes colheitas e principalmente louvar divindades. É provável que as mais importantes festas ancestrais do Carnaval tenham sido as “saturninas”, realizadas na Roma antiga em exaltação a Saturno, Deus da agricultura. 
 Na Idade Média, essas velhas festividades pagãs foram incorporadas pela Igreja Católica, passando a marcar os últimos dias de “liberdade” antes das restrições impostas pela Quaresma. Nesse período de penitência para os crentes católicos (durante os 40 dias antes da Páscoa), o consumo de carne era proibido.  A comemoração do Carnaval adquiriu diferentes formas nos países católicos que mantiveram a celebração.» in TáFixe.com, com adaptações



Que caiam as máscaras!
Por mim vou ler a minha última aquisição:


A Esfera dos Livros lançou Jesus, o Judeu, de César Vidal, controverso historiador espanhol especialista em Teologia e Filosofia que aqui pretende revelar a realidade histórica de Jesus.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Portugal

(Sugestão de Leitura)


« E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos Reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho. (...) Em nenhuns Reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os Reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há-de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino. »

Padre António Vieira
Sermão da Primeira Oitava da Páscoa / Pregado na Matriz da cidade de Belém do Grão-Pará, 1656

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

«Porque temos uma obrigação»

Fundação José Saramago

« As minhas palavras são de agradecimento. A Fundação José Saramago teve uma ideia, louvável por definição, mas que poderia ter entrado na história como uma simples boa intenção, mais uma das muitas com que dizem estar calcetado o caminho para o inferno. Era a ideia editar um livro. Como se vê, nada de original, pelo menos em princípio, livros é o que não falta. A diferença estaria em que o produto da venda deste se destinaria a ajudar as vítimas sobreviventes do sismo do Haiti. Quantificar tal ajuda, por exemplo, na renúncia do autor aos seus direitos e numa redução do lucro normal da editora, teria o grave inconveniente de converter em mero gesto simbólico o que deveria ser, tanto quanto fosse possível, proveitoso e substancial. Foi possível. Graças à imediata e generosa colaboração das editoras Caminho e Alfaguara e das entidades que participam na feitura e difusão de um livro, desde a fábrica de papel à tipografia, desde o distribuidor ao comércio livreiro, os 15 euros que o comprador gastará serão integralmente entregues à Cruz Vermelha para que os faça seguir ao seu destino. Se chegássemos a um milhão de exemplares (o sonho é livre) seriam 15 milhões de euros de ajuda. Para a calamidade que caiu sobre o Haiti 15 milhões de euros não passam de uma gota de água, mas A Jangada de Pedra (foi este o livro escolhido) será também publicada em Espanha e no mundo hispânico da América Latina – quem sabe então o que poderá suceder? A todos os que nos acompanharam na concretização da ideia primeira, tornando-a mais rica e efectiva, a nossa gratidão, o nosso reconhecimento para sempre».
José Saramago

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O sagrado e o profano

William Blake, 1826


Assim é o título que hoje escolhi, assim é o título da famosa obra de Mircea Eliade, que de Bucareste se fez a Lisboa e rumando a Saint-Cloud, nos deixou, nos anos cinquenta, essa obra que de tempos em tempos releio, à procura de velhos sublinhados.
A distorção europeia tende a confundir religião com cristianismo. Assim, para viver no mundo «é preciso criar o mundo»... A dicotomia cristã entre o bem e o mal parece obrigar à escolha impossível, porque inseparável por natureza.
Discorro, pois acabei hoje de ler Caim de José Saramago e os meus alunos reclamam uma opinião de leitora. Não a posso dar e os motivos são múltiplos: estou afónica; quero que formem as suas opiniões; a religião inquieta-me, mas não olho uma obra literária por esse prisma; li cada obra de Saramago (todos conhecem a minha compulsão pela leitura e a minha obrigação de ler os autores portugueses) e gosto da sua linguagem que narra contando naquela lógica de um pensamento que discorre sem perder a lucidez.
O narrador prende-me, encanta-me, mas não me seduz, porque prefiro a escrita de regime diurno das imagens literárias.
Caim em nada me escandaliza, mas não é o melhor exercício do estilo de Saramago. O tema é recorrente nas artes e, também, na Literatura, isso, deixa-o aquém de outras obras magistrais que o autor nos legou.
Aqui deixo um excerto da página 127 que, decerto não gerará polémicas, infelizmente:

«O seu a seu dono, como é de justiça.Eis o que foi escrito num livro chamado do justo, que actualmente ninguém sabe onde pára.»




sábado, 4 de abril de 2009

Carregado de mim ando no mundo



http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/84/Greg%C3%B3rio_de_Matos_1775.jpg


Queixa-se o poeta em que o mundo vai errado, e querendo emendá-lo o tem por empresa dificultosa.

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.

Gregório de Mattos, séc. XVII


http://www.jornaldepoesia.jor.br/grego.html



Tenho andado tão absorta que só hoje uma qualquer zona do meu cérebro me atirou para a realidade.
Estava a pensar como lamentava não ter ido ao encontro de uma amiga virtual - Janaína Amado - de passagem por Lisboa... perdera , também, a ocasião de conhecer dois autores extraordinários da Literatura Brasileira, ela e o marido, que estou a descobrir!
Estava a pensar em tudo isto, quando percebi, subitamente, que tinha tido uma ocasião única de estar perante a filha de dois vultos singulares das Letras Brasileiras: Jacinta Passos - sua mãe, poetisa e mulher pioneira em questões do «género» e James Amado - seu pai e académico brilhante,o maior estudioso do poeta Gregório de Mattos... Sobrinha de Jorge Amado!
Tenho andado tão absorta que não ajustei a realidade.
Tardiamente, aqui deixo a minha homenagem a Janaína, por ser como é: gentil e simples, sem o atavismo ou as vaidades tão sobejamente conhecidas na nossa praça.
Bem hajas, Janaína!

Ana

segunda-feira, 16 de março de 2009

Eficácia


Livro dos Mortos - Antigo Egipto


« Há mártires de todas as evidências. Sinceridade para todos os pontos de vista. Eficácia histórica? Que maior eficácia que a de todas as crenças? E que maior mentira para os que não crêem?»
Eduardo Lourenço


http://www.ieei.pt/documentacao/autor.php?id=3


domingo, 8 de março de 2009

El Sabor de los Días


Juanan Urkijo


(se «clicar» na imagem encontrará a obra)



Hoje quero homenagear um amigo e grande escritor. Dotado de uma fina sensibilidade e tendo aquele comedimento, profundo e sereno, próprio de quem conhece a vida e o ser humano, acaba de publicar a obra que ora vos apresento.