Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Sugestão de Leitura

 


 Tinha ouvido falar da autora, mas não lera nenhum livro dela. Foi com alguma surpresa que ouvi anunciar que este ano lhe fora atribuído o prémio Nobel da Literatura.
  Agora, regressada do Algarve, trago comigo o primeiro livro, oferecido pelo meu filho, que leio sofregamente, no aconchego do meu lar alentejano aonde já crepita o lume, ao serão. 
    É uma obra com profundidade e, sendo uma tradução, alguma subtileza da língua coreana por certo se perdeu, mas a linguagem, assim mesmo, é vibrante e intensa.
    
    A história de um professor de grego que vai perdendo a visão e de uma mulher que, sendo sua aluna, vai perdendo a voz. De grande densidade psicológica, num mundo cada vez mais superficial. Vale a pena ler.


quarta-feira, 10 de julho de 2024

Despertemos!

 




    As alegrias são breves - como no soberbo título de Vergílio Ferreira -  e sobre isso não nos restam dúvidas.
Assim foi, feliz de ter torneado o meu problema ocular mais uma vez, eis-me atacada pela minha primeira infecção por covid19. Irónico, não é?
    Numa das idas à capital (que em bom rigor, dizem-me, ainda é Coimbra), lá percorri a Feira do Livro de Lisboa e me actualizei de mais umas novidades. Entre elas, este admirável livro ou manifesto do centenário Edgar Morin que, há dias, completou 103 anos e continua senhor de uma lucidez e de uma capacidade de síntese mental extraordinárias.
    Uma obra que prova bem como a linguagem da esperança nunca se deverá perder. Uma obra que desdiz esta sociedade fútil submetida ao deus da Economia e do individualismo na qual o preconceito designado por "idadismo" se tornou omnipresente - Tanto no trabalho, como nas relações sociais.
    Certo que tenho a mesma ascendência étnica, certo que penso como ele até sobre esse facto:


""Os judeus de Israel, descendentes das vítimas de um apartheid denominado ghetto, guetificam os palestinianos. Os judeus que foram humilhados, desprezados, perseguidos, humilham, desprezam e perseguem os palestinianos. Os judeus, que foram vítimas de uma ordem impiedosa, impõem a sua ordem impiedosa aos palestinianos. Os judeus, vítimas da desumanidade, mostram uma terrível desumanidade." (WIKI)

    Admiro-o na lição de sabedoria que esta obra contém, pois é difícil manter a esperança no mundo que habitamos. Despertemos! do sonambulismo geral em que parecemos viver, enquanto o mundo se transforma.
    



quarta-feira, 29 de maio de 2024

Sugestão de leitura - da tolerância

 

capa: El Greco, "Vista de Toledo", 1599


    Não é uma novidade literária, mas uma leitura necessária nestes tempos de futilidade e de intolerância.


    " A tempestade desaba sobre a cidade apoiada na rocha. Visão telúrica de uma cidade mítica, fronteira medieval entre a guerra e o sagrado, entre o oOcidente e o Oriente. Foi assim que El Greco a viu, em determinado momento.

    Toledo de 1085. Posto avançado militar da Reconquista cristã em relação ao Islão espanhol. Ilhota de tolerância, ponto alto do saber. Um papel complexo e paradoxal.

    Árabes, Judeus, Castelhanos, Francos, Moçárabes, Mouros conversos...uma população heterogénea coabita numa cidade marcada pelo Islão, pela medina de casas apertadas umas contra as outras, numa rede de ruelas tortuosas. À esquina das ruas, há igrejas que, em vez de campanários têm um minarete..."
    
    Neste cenário, nesta ambivalência, florescem ciências. Sobretudo a arquitectura, a astronomia, a matemática, a filosofia e a medicina passam por um desenvolvimento excepcional, graças aos tradutores e aos sábios que vão revelar à Europa as obras de Euclides, Ptolomeu, Hipócrates, Galeno ou Aristóteles.

    Cidade farol, símbolo de uma relativa tolerância - durante dois séculos, antes da Inquisição católica e da expulsão dos Judeus -, Toledo mostra-nos como, da mistura de culturas, brota o espírito."  ( org. de Carlos Araújo/ org. de Louis de Cardaillac) 



Wikimedia




O que ver em Toledo:





terça-feira, 23 de abril de 2024

23 de Abril - Sugestão de Leitura

 






    Esta obra de José Saramago, colectânea de seis contos que ainda seguem a norma gramatical, foi editada pela primeira vez em 1978. Exercício sublime de prosa poética a ecoar, ao fundo, alguns autores da América do Sul, como J. Cortázar ou J. L. Borges -  é pouco divulgado actualmente.



   
 O meu exemplar é de Abril de 1984 e mereceu um autógrafo de Agosto desse ano. Saramago era, às vezes, um rosto fechado de ironia e, isso, desagradava a muita gente, mas o seu brilhantismo estava nas ideias e nessa inigualável capacidade de criar distopias. O mundo era, então, reescrito com uma singularidade poética extraordinária.




    Um dos contos, "Embargos", serviu de guião a uma curta-metragem em 2010, mas nada iguala o prazer puro de ler o Autor. Não desmereço a linguagem cinematográfica, mas as palavras originais estão plasmadas nos livros - nada as substitui.


    Nota: só não me peçam que traia o Autor, lendo-o no AO de 1990.



domingo, 14 de agosto de 2022

Tempos estranhos




SINOPSE (WOOK)
"Nascido precisamente ao bater da meia-noite, no exato momento em que a Índia se tornava independente, Saleem Sinai é uma criança especial. No entanto, esta simultaneidade de nascimento tem consequências para as quais ele não está preparado: poderes telepáticos ligam-no a outros 1000 «filhos da meia-noite», todos eles dotados de dons extraordinários. Indissociavelmente ligada à sua nação, a história de Saleem é um turbilhão de desastres e triunfos que espelha o percurso da Índia moderna na sua forma mais impossível e gloriosa. Publicado em 1981, Os Filhos da Meia-Noite, segundo romance de Rushdie, não só deu notoriedade ao seu autor como se tornou num fenómeno de êxito literário.
A sua adaptação ao cinema é o resultado da colaboração da realizadora Deepa Mehta com o próprio Salman Rushdie, que não só escreveu o argumento como dá também voz ao narrador."


    Considerado um escritor do realismo fantástico, na linha de Gabriel García Marques, Günter Grass, Italo Calvino, Jorge Luís Borges e tantos outros grandes autores...é visto pelo islamismo radical apenas como alguém que abandonou a sua crença muçulmana e, como tal, deverá ser morto. É este o tempo estranho em que vivemos.
    O livro que escolhi para hoje foi o que mais gostei de ler. Não li todos e muito menos os seus ensaios, mas posso defini-lo como um grande autor. A sua obra de ficção é vasta (https://www.salmanrushdie.com/books/). Aos 75 anos não merecia ser o objecto da violência. Violência é sempre isso mesmo, sejam quais forem as suas motivações. É um pensador, coisa rara no mundo actual em que tantos espartilhos nos condicionam.
    Tenho amigos de todos os credos. A religião é algo íntimo e de outro domínio. Há quem dite que só a Fé nos salvará, eu prefiro acreditar que só a tolerância o poderá fazer. Como poderemos habitar este planeta, se não soubermos respeitar cada indivíduo?
    O medo colectivo parece tomar conta de todos, como no célebre poema de Drummond de Andrade (1940):

"Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."



    A nossa época parece dominada por um Medo que vai alastrando e que tudo contamina, terreno fértil para todos os horrores que a Humanidade tem a obrigação de conhecer pois, de muitas formas semelhantes, já os viveu.
    Sabemos, com Drummond, que este não é o tempo do lirismo - por mais belo que seja, o puro gozo estético não nos salvará!



sábado, 16 de julho de 2022

"Aprender a ler as sombras"

 




    Andam os dias como sabemos. Tiranias e guerras; mais de mil incêndios, em dois dias, num país que acreditávamos de clima temperado; uma pandemia que ainda grassa; o luto; a luta.
    O meu Alentejo escalda, o meu trabalho não me larga. Quando saio, após o almoço, e atravesso o parque com a roupa negra que agora me cobre, o Sol diz-me que nem os pássaros ousam voar,  pergunta-me aonde vou eu de garrafa de água na mochila e que pressa é esta que me acelera o coração que já foi jovem.
    Do livro que agora leio, roubei o título de hoje...
    Andam os dias como sabemos e os burocratas tomaram o assento dos sábios de outrora. Ironicamente, de tão sistemáticos, parecem não vislumbrar o resultado das suas acções. Creio que se afogaram na luz azul dos seus computadores e lá ficaram prisioneiros de grelhas e de mapas desconhecidos. Diferentes que são daqueles escribas que gravavam com as suas mãos, num esforço ritmado de artesãos, os longos códigos cuneiformes. Assim nasciam as bibliotecas, assim os podemos ler até hoje. 



Museu de Israel, Jerusalém (José Alves, 2019)



   "Os signos inertes de um alfabeto tornam-se significados plenos de vida na mente. Ler e escrever alteram a nossa organização cerebral." 
                                      Siri Hustvedt, Vivir, pensar, mirar



Médio Oriente (José Alves, 2019)

    Que dificuldade terei sempre para compreender que a Humanidade se perca e caminhe de abismo em abismo! Assim, resta-me este destino irremediável de ir a sítios obscuros na tentativa de "Aprender a ler as sombras".


Ana

sábado, 29 de janeiro de 2022

Sugestão de leitura

 



Não sendo o ensaio sobre religião um tema muito relevante nas minhas leituras, este é um livro com uma abordagem tão invulgar o quanto o senso comum nos dita a sua verdade incontestável. 
Construído sobre o mandamento "Não matarás!", vai ilustrando a violência civilizacional cometida em nome das religiões do Livro. As religiões, enquanto justificação para o ódio e a violência, são o que se vislumbra se nos debruçamos sobre a varanda da História.

"Imagino que uma das razões pelas quais as pessoas se agarram aos seus ódios tão teimosamente se deve a sentirem, uma vez o ódio desaparecido, que serão obrigadas a lidar com a dor" James Arthur Baldwin (o.c.,página 229, cap. 14).


terça-feira, 7 de abril de 2020

A Estranha Ordem das Coisas

Atrás das barras_P & Ink, Vladimir Kush

Com os meus alunos do outro lado de um ecrã, alojados numa turma virtual e entregues a uma aula digital, escondidos de um inimigo invisível, procuro a expressão mais exacta de cada momento. Não é uma tarefa fácil, nem para mim que vivo do uso desta nossa Língua comum.
A primeira semana foi a de uma ausência. Onde está o parque que atravessaria a cada manhã, enchendo o peito dos primeiros raios de luz para levar até vós? Onde, aquele frenesim de vida a desabrochar em cada olhar fugidio ou acolhedor como o futuro que prepararíamos juntos? Onde, o meu chegar silencioso e súbito que te surpreenderia num susto pueril? Onde a empatia e o sorriso, ou o ar severo que para ti ensaio?
E o tempo vai criando a rotina de uma (novi)profissão que preencheu os dias inteiros numa distopia, verdadeira antiutopia de tudo o que fui. 
E, neste negativo da velha fotografia daquilo que fomos, restou-me escolher mais um livro para ler. Aqui partilho convosco A Estranha Ordem das Coisas, de António Damásio

A Estranha Ordem das Coisas - Livro - WOOK


«Os seres humanos acabam sempre por depender da maquinaria dos afectos e das suas ligações com a razão. Não há maneira de fugir a tal condição.» pág. 305, 1.ª edição, 2017 


Saúde, meus amigos!


sábado, 9 de agosto de 2014

Andei por aí...



José Alves

Em boa companhia...




Agora voltei.

sábado, 2 de agosto de 2014

Fármacos...

Salvador Dalí

«Havia também a prática do bode expiatório, o fármacos, remédio para as grande desgraças que ferem subitamente as cidades. Era em Atenas e nos grandes portos comerciais da Jónia, nos séculos VI e V, nessa primavera da civilização que hoje nos parece tão clara, tão fértil de promessas já cumpridas. [..]Contudo, pelo sim pelo não, estas cidades tão modernas sustentavam um certo número de rebotalhos humanos, inválidos ou idiotas, ou reservavam condenados à morte, que em caso de fome ou de peste eram sacrificados aos deuses por lapidação. Ou então expulsava-se da cidade o bode expiatório, intocável a partir daí, pondo-lhe nas mãos figos secos, um pão de cevada e queijo. Ou ainda, depois de o terem fustigado sete vezes com hastes de cila selvagem nos órgãos genitais, queimavam-no e lançavam-lhe as cinzas ao mar. O uso do fármacos passou da Jónia para Marselha.» (Bonnard, pág.8)

File:The Scapegoat.jpg
William Holman Hunt.
Muitas vezes volto a este volume de André Bonnard, pois a belíssima tradução de José Saramago acrescenta beleza literária à informação original. Está envelhecido o meu volume, como estafada está a civilização grega. Porém, a antiga prática do «bode expiatório» alastrou como verdade universal, numa impressionante caracterização de algumas estruturas antropológicas do imaginário humano. As sociedades impregnaram-se dessa especular tradição. Na realidade, também os gregos a assimilaram de outras tradições. O caso aqui pouco importará, pois a actualidade está repleta de «fármacos», termo do grego antigo que designava essa prática. Hoje, poderíamos chamar-lhe outros nomes - da religião à mera propaganda ou ao injusto sacrifício dos inocentes.





domingo, 4 de maio de 2014

Contos


Hoje celebrou-se o dia da mãe e o meu filho, que bem me conhece, ofereceu-me este exemplar. Já li muitos dos contos que contém, mas o repositório de magia,  a frase curta e o humanismo que se desprendem da prosa de Gabriel Garcia  Marquez sempre me seduzirão. Gosto de contos sul-americanos. Ler será sempre uma das formas de preencher a minha angústia.
O conto que melhor se adequa ao dia de hoje, neste país de súbito Verão, quando se destemperam as quimeras e se encenam os títeres, é um escrito pelo autor em 1950 e a que deu o título de A Noite dos Alcaravões. Aqui deixo um excerto:

«- O que é que estão a fazer aqui? - perguntou.
E nós respondemos:
- Não sabemos. Os alcaravões tiraram-nos os olhos.
A voz disse que tinha ouvido falar disso. Que os jornais tinham dito que os três homens estavam a beber cerveja num pátio onde havia cinco ou seis alcaravões. Sete alcaravões. Um dos homens pôs-se a cantar como um dos alcaravões, imitando-os. [...] 
Disse que era o que os jornais tinham dito, mas que ninguém tinha acreditado.» (pág.437)

Alcaravão




quinta-feira, 17 de abril de 2014

Calou-se o Criador...


IN MEMORIAM

(Edito um «post» do Verão de 2012)

Saramago com García Marquez

A minha vida é uma história feita de livros. Meio-dia quente de assar pássaros que ousem esvoaçar com bater de asas ruidoso. Sala de móveis altos e escuros, cheios de gavetões com memória e de roupas de linho aromatizadas. Chão de frias tijoleiras vagamente marcadas pelo caminhar de antepassados. Ninguém baterá a mão fechada de ferro enegrecido, pois todos dormem, ou melhor, descansam - como gostam de designar a sesta. Nunca fui de sestas. Abro livros e livros, leio com teimosia autores e autores. Faço-o ainda agora, noutra casa, porque todos se foram para algum lugar e o vulto negro da avó também partiu há muito.
Gosto de autores sul americanos e de poetas clássicos. Mistura das minhas muitas bastardias. 
Foi com uma amargura fina que ouvi o anúncio de que Miguel García Marquez está a ser atingido pela demência e não escreverá, por certo, a segunda parte da sua obra anunciada. Não é o meu autor predilecto. Prefiro Cortazar ou J. L. Borges, porque um certo tom libidinoso e um retrato de mulher pouco considerada se colou a García Marquez. Porém, mais uma voz se cala e o mundo a que pertenço ameaça ruir. 
Em tempos quando o autor adoeceu, fizeram correr em seu nome a poesia que vos deixo hoje - é bela. Quem a escreveu conhecia o Autor, mas esqueceu-se que Deus não estava nos seus planos e que O trocaria, facilmente, por um trecho musical de Serrat.
 

La Marioneta de Trapos

Se por um instante Deus se esquecesse
de que sou uma marioneta de trapo,
e me presenteasse um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso,
mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem,
senão pelo que significam.
Dormiria pouco e sonharia mais,
entendo que por cada minuto que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm,
despertaria quando os demais dormem,
escutaria enquanto os demais falam, e como
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida,
me vestiria com simplicidade,
me atiraria de bruços ao sol,
deixando descoberto, não somente meu corpo,
mas também minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração....
Escreveria meu ódio sobre o gelo,
e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com un sonho de Van Gogh
sobre as estrelas um poema de Benedetti,

que ofereceria à lua.
Regaria con minhas lágrimas as rosas,
para sentir a dor de seus espinhos,
e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida...
Não deixaria passar um só dia
sem dizer à gente que quero, que a quero.
Convenceria a cada mulher e homem
de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar
que deixam de enamorar-se quando envelhecem,
sem saber que envelhecem
quando deixam de se enamorar.
A uma criança daria asas, mas deixaria
que ela aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte
não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens....
Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade está
na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido
aperta com seu pequeno polegar pela primeira
vez o dedo de seu pai,
o tem amarrado para sempre.

Aprendido que um homem unicamente tem direito de olhar
outro homem de cima para baixo,
quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês,
mas finalmente de muito não haverão de servir
porque quando me guardem dentro desta maleta,
infelizmente estaria morrendo....

De autor anónimo - Atribuído a García Marquez

Fonte: http://www.elsonfroes.com.br/neumanne.htm (8/07/12)

quarta-feira, 27 de março de 2013

A heresia



«Aos cátaros da Ocitânia - perfeitos e famílias crentes - que sofreram física e mentalmente os horrores da cruzada, primeiro, e da Inquisição, depois.»


Dias de chuva e muita leitura, sempre será assim. Recordo-me menina à espera da carrinha da Gulbenkian e de esgotar tanto os limites de requisição que precisava do cartão de amigos. Era um momento mágico. O Largo das Amoreiras, as casas brancas, as viagens precoces por essa reserva maravilhosa que a humanidade guarda na herança escrita. Dela fiz a minha profissão, que amo profundamente.
Hoje chove e inicio mais uma leitura. Agora, tenho a vantagem de conhecer os lugares, de ter caminhado por montes e vales, descido montanhas, sorvido o perfume dos ares. A minha memória faz-se de aromas e de rostos humanos.
A dedicatória já me conquistou.

«A Igreja cátara, herdeira dos saberes mais profundos da espiritualidade de Zaratustra, na longínqua Pérsia, soube aninhar no coração do Ocidente (Languedoc) uma cultura sociocultural  diferente da que preconizava a Igreja oficial, apesar de ser também cristã. Os seus ministros - Perfeitos - durante mais de dois séculos, partilharam os seus ensinamentos, baseados na liberdade da pessoa, no respeito pela mulher, na tolerância intercultural, na protecção da natureza e no sentido do trabalho, como premissas para a vida humana.», pág. 11

Sei a continuação da história, mas que importa? Nunca é demais relembrar o peso dos tiranos.
Esta é uma boa altura para recordar os resultados do concílio de Niceia... ou não recordas, também, as quatro controvérsias da Páscoa aí discutidas?

Ana 


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Maria Teresa Horta

Google

A minha homenagem à mulher que soube dizer «não» e mantém um olhar límpido!


A escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, disse esta terça-feira à Lusa que não o aceita receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto.
A entrega do Prémio D. Dinis esteve agendada para dia 28, sexta-feira da próxima semana, numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.


“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, explicou Maria Teresa Horta à Lusa.



“Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência”, salientou a escritora que acrescentou: “Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores”.



Para Maria Teresa Horta, “o primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural”.



A autora afirmou que “o país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto”.



“Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro”, deixou claro Maria Teresa Horta.



A escritora disse que já informou a Fundação Casa de Mateus da sua decisão, assim como a sua editora e falou com cada um dos membros do júri.



A premiada salientou ainda a “satisfação” que lhe deu ter sido distinguida “por um júri que representa três gerações de poetas: o Vasco Graça Moura que é da minha [geração], o Nuno Júdice, que é da seguinte, e o Fernando Pinto do Amaral, que é a mais nova”.



No sítio da Fundação Casa de Mateus, na Internet, é afirmado que “a sessão solene de entrega do Prémio será agendada brevemente”.



O Prémio Literário D. Dinis, instituído pela Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído por unanimidade à escritora, pela obra “As luzes de Leonor. A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, editado pelas Publicações D. Quixote.



Instituído em 1980 pela Fundação Casa de Mateus, em Vila Real, o galardão é atribuído a uma obra literária - de poesia, ensaio ou ficção - publicada no ano anterior ao da atribuição do prémio.



“As Luzes de Leonor”, obra editada em 2011, é um romance sobre a vida da marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), neta dos marqueses de Távora, uma mulher que se destacou na história literária e política de Portugal num período denominado como “o século das luzes”.



D.ª Leonor de Lorena e Lencastre é avó em quinto grau de Maria Teresa Horta, nascida em 1937, em Lisboa.



Maria Teresa Horta estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, foi jornalista e activista do Movimento Feminista de Portugal, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, com quem escreveu o livro “Novas Cartas Portuguesas”.



“Amor Habitado” (1963), “Ana” (1974) e “O Destino” (1997) contam-se entre mais de duas dezenas de obras publicadas da escritora.»


Jornal, «Público»





quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Notas de Leitura 2



Dias longos de Verão começam a declinar. Declínio parece ser um estado geral. Tudo definha na ressequida natureza até que tombem as primeiras chuvas outonais, doces, cheirando a palha molhada e terra sequiosa.
Até lá vou lendo, lendo como sempre e compulsivamente. Por causa de desígnios profissionais [quase nem valeria a abnegação neste duro tempo] leio agora uma obra extraordinária, aqui fica uma nota:

Para qué llamar caminos
a los surcos del azar? ...
Todo el que camina anda,
como Jesús, sobre el mar.

(Antonio MACHADO)

o.c., pág. 15



Ana

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Lupis...




«Em A Montanha da Água Lilás, fábula para todas as idades, o escritor angolano Pepetela conta a estória de uns seres cor de laranja, os Lupis, que pensavam, falavam e trabalhavam como os homens. Mas «não são homens, porque se chamam Lupis». Certo dia, os Lupis descobrem uma fonte de onde jorra um misterioso líquido, cujo perfume é inebriante - a água lilás. E deixaram de viver em perfeita harmonia ... Este livro, não é apenas uma fábula para todas as idades, tal como o subtítulo parece indicar, é um retrato intemporal da sociedade humana e da crescente desigualdade social».

Poderia ter começado assim uma das minhas aulas e, muito provavelmente, comecei. Poderia vir aqui sugerir a leitura desta maravilhosa obra intemporal de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, esse estudante da Casa Do Império, que depois se tornou conhecido como Pepetela - pestana, na sua língua umbundo. Nem mesmo de Angola vos venho falar.
O calor, a timidez de um Verão em crise, a monótona modorra destes lugares e as férias que chegaram, finalmente, levam-nos a curtas fugas por cidades vizinhas - Lisboa, Badojoz, Évora ou Cáceres...um pequeno mundo que nos fica próximo. Hoje foi um desses dias.
José, menino homem, sempre em ternuras delicadas, tenta presentear-me. Resisto. Abomino o consumismo e o excesso. Trinta anos de caminho conjunto já o ensinaram que só não saberei como negar-me a um perfume. Sempre fui de odores, não por algum resquício de vaidade, mas pelo poder evocatório que detêm. Eles são a água lilás da minha memória, têm nomes banais, mas escrevem a minha história: Bien Être, sobre as rendas brancas de menina; Lavanda Inglesa, sobre o meu duche de atleta juvenil; Nau, de adolescente inquiridora; Anaïs do tempo de trabalho e Éden, quando o sol assoma diariamente e o calor aperta, levando-me a outras paragens. Assim será.

A meu lado, uma avó paga o seu perfume. São 145 €, diz-lhe a lojista. 
- Passe-me tax free, se faz favor.
A menina pergunta - lhe:
- Para que país?
A resposta surge, pronta:
- Moçambique.

 A Montanha Da Água Lilás acaba de se ilustrar na minha presença.


                                                                                               Ana


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Notas de Leitura 1

Museu Nacional - Bagdade

« Em 12 de Abril de 2003 chegou ao conhecimento do mundo a notícia do saque do Museu Arqueológico de Bagadade. Desapareceram trinta e oito objectos de grande valor, mais de catorze mil peças menores foram roubadas, e as salas, destruídas. A 14 de Abril queimou-se um milhão de livros da Biblioteca Nacional, com mais de dez mil registos do período republicano e otomano, e em dias sucessivos esta situação repetiu-se com as bibliotecas da Universidade de Bagadade, a Biblioteca de Awqaf e dezenas de bibliotecas universitárias de todo o país.» 

Fernando Báez, História Universal da Destruição dos Livros, p.p. 8-9



Biblioteca Nacional de Bagdade

terça-feira, 22 de maio de 2012

Obrigada, Xavier Narval! Obrigada, Ximena Luna!



Alfredo Rodriguez, pintor mexicano 


Os meus amigos são jovens, ainda deambulam na imortalidade da segunda década de vida, têm um ar doce e feliz. Habitam um país distante, imenso, quente e vivem numa megapolis. Os meus amigos têm um sorriso de quem sonha e é generoso. Hoje, fizeram-me chegar um espantoso livro que me traz ecos de arte, História e escrita da sua terra.




Parte de um projecto muito maior, que começou com os doze capítulos da série de televisão do mesmo nome, este livro reproduz nas suas páginas os textos originais, utilizados como roteiros para a série, realçados com imagens e fotografias que ilustram cada um dos capítulos. Reconta a história do país na época pré-hispânica, do México durante o período colonial até ao México contemporâneosob a pena de especialistas. Com uma fantástica abertura escrita pelo recém desaparecido escritor Carlos Fuentes, adentro-me e perco-me na leitura e no deleite das belíssimas ilustrações. Carlos Fuentes, também ele, alma democrática do México e lição de Humanidade que nos vai faltando... 

Por momentos saí do meu país cinzento e dos meus dias de exaustão pelo trabalho.

Obrigada pela viagem!

Ana



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Silêncio Triangular


«Pararam no ponto mais alto da cidade, esfalfados de sorrisos, a admirar o pôr-do-sol.
Os três. Em fila. Calados,como manda o rito dos contempladores de poentes. Por sinal, o dessa tarde cheio de negridão inquieta.
Mas nenhum dos três, depois aquela correria íngreme, se atrevia a denunciar a frustração do espectáculo. Nem Elsa que aproveitava o resfolgo do cansaço para manter a comédia da exaltação emudecida. Muito menos os outros dois, Raul e Eva, dominados como de costume pelas pequeninas paixões da amiga - só efémeras por serem profundas.» (pág.91)

Pego no livro e folheio ao acaso. O meu poente, alentejano e belo, também se encheu de alguma frustração. O livro deveria estar, a estas horas, nas mãos de uma querida amiga e eu deveria ter ido ao seu encontro, mas dias esfalfados são os meus nesta abertura de ano lectivo.
A minha amiga telefonou pela manhã e a voz dela embargou-me a minha, tal a emoção.  Regressara há dias dessa Escandinávia de que fala José Gomes Ferreira. Também ela uma grande escritora. Também ela sábia a denunciar poentes com nuvens...
Aqui  lhe presto uma singela homenagem:

Janaína Amado


Até breve!


Ana





quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Memoricídios


Texto Editora


« "A nossa memória já não existe. O berço da civilização, da escrita e das leis foi queimado. Só restam cinzas." Ouvi este comentário em Bagdade a um professor de História Medieval, a quem detiveram,  poucos dias depois, por pertencer ao Partido Baas. Quando disse isto,  abandonava a moderna estrutura da universidade, de onde tinham saqueado, sem excepção, os livros da biblioteca e destruído aulas e laboratórios. Eu estava sozinho junto à entrada», coberto por uma sombra sem pausas, e apenas pensava, quiçá em voz alta, ou não pensava, que a sua voz fazia parte desse vasto, interminável e contínuo rumor que caracteriza, por vezes o Médio Oriente. Chorava enquanto me olhava. Creio que estava à espera de alguém, mas quem quer que fosse nunca chegou, e poucos minutos depois viu-o afastar-se, sem rumo, bordejando uma cratera enorme aberta por um míssil junto do edifício». (pág. 7)


Assim começa o livro que fala da destruição dos livros ao longo da História. Nele me embrenho...