Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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terça-feira, 24 de setembro de 2024

Por onde andaste?

 

Óbidos, 2024


As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.


(Leonardo da Vinci)


Mérida, 2024


Onde estavas, eu estava, e onde eu estava, aí querias estar.

(Provérbio Romano)


Peniche, 2024


Meu amor tem duas vidas para amar-te.

Pablo Neruda


Figueira da Foz, 2024



Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa

Manuel António Pina


Alcácer do Sal, 2024


Em Alcácer eram verdes as aves do pensamento.


Joaquim Pessoa


Ponte de Lima, 2024


Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,


Joaquim Sabino


Ponte de Sor, 2024




Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos,


Vinicius de Moraes


Zurique




EM LOUVOR DO FOGO

Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem,
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta
doçura da tarde.


In “Obscuro Domínio”, Eugénio de Andrade

Editorial Inova – 1971


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Não nos sirvam cicuta

 

Cicuta
    


"Sócrates anuncia aeroporto em Alcochete
    O novo aeroporto será construído em Alcochete e a terceira travessia do Tejo entre Chelas e Barreiro combinará comboios com automóveis.
O novo aeroporto de Lisboa vai ser construído na zona do Campo de Tiro de Alcochete, devendo ficar pronto entre 2013 e 2014. A decisão foi anunciada pelo Governo esta quinta-feira, dia 10, em conferência de imprensa, após a reunião do Conselho de Ministros. " (EXPRESSO, 10/01/2008)
Cicuta (Wiki)

"Montenegro anuncia aeroporto, TGV para Madrid e nova ponte sobre o Tejo

    Governo confia que o novo aeroporto de Alcochete, Aeroporto Luís de Camões, terá em 2031 as duas pistas já concluídas e que em 2034 já será possível a ligação em alta velocidade Lisboa-Madrid. Do plano faz parte a terceira ponte sobre o Tejo. O atual aeroporto de Lisboa deixará de existir." (Diário de Notícias, 14/05/2024)

    Num país em as lutas políticas se sobrepõem ao desenvolvimento social, a verdade é uma coisa fluída e, jamais, firme.
    A cicuta, planta comum por todo o território, passa quase sempre despercebida. Por favor, tenham cuidado, meus amigos.
    
Sugestão de leitura:




"Argumentum ornithologicum
    Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo, talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém conseguiu fazer a conta. Neste caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe." (pág. 15)

Aqui: 

domingo, 25 de abril de 2021

Com Fúria e Raiva

 

                                                           

Fonte: https://www.abrilabril.pt

                                                   

Com fúria e raiva acuso o demagogo                                            

E o seu capitalismo das palavras

 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada

Que de longe muito longe um povo a trouxe

E nela pôs sua alma confiada

 

De longe muito longe desde o início

O homem soube de si pela palavra

E nomeou a pedra a flor a água

E tudo emergiu porque ele disse

 

Com fúria e raiva acuso o demagogo

Que se promove à sombra da palavra

E da palavra faz poder e jogo

E transforma as palavras em moeda

Como se fez com o trigo e com a terra


1977. Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas,

Moraes Editores

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

E...as festas acabaram.

 

De volta...

José


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio — e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?



Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

«Mão aberta e o dedo indicador a tocar o polegar»




Caça F-35 da Força Aérea de Israel, 2019


Quando presenciamos situações extremas e no nosso íntimo as guardamos, uma perspicácia qualquer, apurada e constante, aguça-nos o olhar. Temos que experimentar...estar lá, sentir. Quem pode ser indiferente ao caça F-35 (dizem-me) que sobrevoa este lugar?


Israel, 2019

Quem pode ser indiferente aos jovens, quase imberbes, do outro lado da estreita rua e comer tranquilamente, oferendo as costas indefesas a esta invenção de Uziel Gal? Parece leve a Uzi...
Sou alentejana, sabe-lo bem, o meu pacifismo íntimo há muito que sabe exactamente como se usa uma arma. A imensidão da minha planura educa-nos para a defesa, ou se preferires, para a coragem.


Israel, 2019

Sim, estavam nos lugares sacros e rezavam no Muro. Celebrava-se um ritual muito específico e no dia seguinte houve dois mortos a escassos metros... Tishá BeAv nunca trouxe boas memórias...


Knesset, Israel, 2019

Do outro lado, a Universidade, a Biblioteca Nacional e o fabuloso museu que aqui me trouxe...deste lado, em plena campanha eleitoral, o edifício do parlamento onde o conservadorismo se instalou. Eu, já te disse várias vezes, corro atrás da História.


Torres de vigia, Knesset, 2019



Sabes bem que não poderei aproximar-me e muito menos fotografar tudo! Por isso, será no meu íntimo que continuarei a guardar as memórias destes lugares.
Quantos museus tenho em redor? Muitos, muitos! Andei vinte e seis quilómetros nesse dia. Que importa? Sou alentejana, recordas? Que me importa a distância?



Mas nada ali me atemoriza! Fui e voltei e hei-de regressar!

Aquilo que me preocupa está aqui tão perto! Há um rumor que vem de longe, há uma indiferença ao rumo, um caminho para uma ignorância galopando sobre os gestos, sobre os indícios...aqui, em Portugal!

«Mão aberta e o dedo indicador a tocar o polegar» numa concentração de «forças da Ordem»?!




terça-feira, 19 de novembro de 2019

Não adormeças...por favor!

«Guernica», Pablo Picasso



Eu Vim de Longe
                                                                                             José Mário Branco

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar





Para ouvir a canção preferida, basta «clicar» no link.





domingo, 3 de março de 2019

Prenúncios da desconformidade...





São Pedro de Moel, 2019

AINDA NÃO É VERÃO!



Vila Velha de Ródão, 2019


JÁ FOI VERÃO!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Populismos

Jornal opinião acre


SEM COMENTÁRIOS.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril

Golpe e Revolução


                Eu não posso senão ser
               desta terra em que nasci.
               Embora ao mundo pertença
               e sempre a verdade vença,
               qual será ser livre aqui,
               não hei-de morrer sem saber.

               Trocaram tudo em maldade,
               é quase um crime viver.
               Mas, embora escondam tudo
               e me queiram cego e mudo,
               não hei-de morrer sem saber
               qual a cor da liberdade.

                                                                       Jorge de Sena 





25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen




terça-feira, 27 de junho de 2017

Aves de rapina

Abutres, Portugal


Tristemente, abutres políticos espreitam a dor alheia!



As amoras
O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

domingo, 18 de junho de 2017

Amanhece

Pedrogão, 2017

Como amanhecem os espectros,
Ímpias cacofonias...
Íntimas as dores,
Dilaceradas as memórias?


Novos pintores realistas


E, mesmo assim, há quem, numa humanidade precária, se dilua em lirismos idílicos... em casulos narcísicos.

Ana




quinta-feira, 27 de abril de 2017

Entre mouros e visigodos



Portas de Ródão, José Alves

Andámos à deriva, mergulhados nas lendas deste país, aturdidos pela brisa insistente, fugidos a um trabalho sem tréguas. É preciso recarregar, é urgente retornarmos a lugares que deixámos cristalizados num tempo já antigo. Ainda ouvimos a voz serena do mestre que nos levou, tão jovens, a subirmos aqui acima.

Ródão, José Alves

 Destroçada, a rainha adúltera, pragueja, na imensidão da paisagem: « Nesta terra não haverá cavalos de regalo, padres não se ordenarão e putas não faltarão».



Portas de Ródão, José Alves

(Versão popular)

«Wamba, rei visigodo, fundou o Castelo de Ródão, onde vivia com a sua mulher e filhos. A rainha fugiu, certo dia, para os braços de um rei mouro, o que levou Wamba a procurá-la, disfarçado de mendigo.
Ela reconheceu-o, fingiu ser prisioneira do mouro e escondeu o marido no próprio quarto, entregando-o em seguida ao amante.
Pediu Wamba à generosidade do inimigo que lhe concedesse tocar pela última vez a sua corna. Os seus companheiros de armas ouvindo-o, acudiram-lhe. Mataram o rei mouro, e trouxeram a rainha para o Castelo de Ródão.
Por sugestão do filho mais novo, o castigo dela consistiu em ser precipitada pela íngreme encosta para o Tejo. Ao saber do castigo, a rainha proferiu a sua tripla maldição:
Adeus Ródão, adeus Ródão
Cercada de muita murta
E terra de muita ...
Não terás mulheres honradas
Nem cavalos regalados
Nem padres Coroados!»
Diz-se que por onde o corpo rolou nunca mais cresceu mato.» 



José Alves, 2017

NB: a praga da rainha pode ler-se neste cartaz.



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Indigências...







Umberto Eco partiu e, na minha caminhada absorta, aquilo que mais estranheza me causou foi o facto de ele já ter completado oitenta e quatro anos - Tempus fugit. Quem fez o meu percurso, conhece-o especialmente pela sua proposta teórica de 1976 a propósito da teoria do signo e da Semiótica. A sua definição é fascinante, até hoje: estuda tudo quanto possa ser usado para mentir




Assoberbada pelo trabalho, ausente do blogue e da vida em geral, entregue aos outros, mais frágeis e velhos, até à exaustão...aborrece-me esta comunicação social leviana e fútil que parece não saber olhar e fala assim do mestre do OLHAR! Reduzido ao romance O Nome da Rosa ou encaminhado para o filme que se aproveitou do livro escrito, Eco parte da imprensa portuguesa. Indigência daquilo em que nos tornámos. 

Ninguém é obrigado a conhecer a obra do professor e ensaísta, mas o jornalismo tem o dever de informar para lá da superfície. Suspeito que alguns jornalistas nem leram o romance que citam...



terça-feira, 10 de novembro de 2015

JUSTITIA MATER

Vladimir Kush


Nas florestas solenes há o culto
Da eterna, íntima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma cativa,
Do coração, em seu combate inulto:

No espaço constelado passa o vulto
Do inominado Alguém, que os sóis aviva:
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva
Dum Deus que luta, poderoso e inculto.

Mas nas negras cidades, onde solta
Se ergue, de sangue mádida, a revolta,
Como incêndio que um vento bravo atiça,

Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, à grande luz da história,
Os combates eternos da Justiça!


Antero de Quental



 Nenhum homem é por natureza escravo.
Ζήνων ὁ Κιτιεύς
(Zenão de Cítio, séc. IV A.C.)