Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Um dia Agustina disse...

Manuscrito, Agustina Bessa Luís


Durante muitos anos, ensinei o romance Sibila de Agustina Bessa Luís. Nessa época fui lendo as suas obras e o que se ia dizendo, na imprensa da especialidade, sobre ela. Poderia dissertar sobre o assunto, mas recordarei apenas essa caligrafia que sempre me impressionou. Que coisa mais pessoal que o traço do nosso punho, sobre uma folha de papel? 


Em 2012, pronunciou uma frase extraordinária que aqui vos deixo:


«Devemos discutir as coisas importantes e a morte, seguramente, não é uma coisa importante.» ABL



(Os meses de Abril e de Maio são muito trabalhosos para um professor, peço desculpas pela ausência. A vida reclamou a minha constante presença.)


sexta-feira, 23 de novembro de 2018

SINAIS DE FOGO...sugestão de leitura





«Romance único de Jorge de Sena, parcela de um projecto romancesco de grande dimensão cuja designação genérica seria Monte Cativo, objectivando o recorte de uma geração nascida nos finais dos anos 10 do século XX, Sinais de Fogo abriga em si o despertar de um jovem, entre um grupo de amigos e familiares, para a sexualidade, a política e o fazer poético.
De uma erudição e de um rigor literário inexcedíveis, aqui se fixa um olhar sobre o ano de 1936 português, tendo como pano de fundo o início da Guerra Civil de Espanha.

Colecção Mil Folhas.»



Paradise, Califórnia  (Google, news)


GÉNESIS
De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça... -Ai quantos que eram novos
em  vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade:  o mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

                                                                                                         Jorge de Sena



«Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919 em Lisboa. Terminou em 1936 o seu curso de liceu (média de 13 no 5.º e 6.º anos, média de 14 no 7.º ano), ano em que se inscreveu nos preparatórios para a escola naval . Formou-se em engenharia civil na faculdade de engenharia do Porto (licenciou-se com 13 valores).
Até 1959 foi funcionário da Junta Autónoma de Estradas, data em que se exila no Brasil, onde conclui o doutoramento em letras e rege as cadeiras de teoria da literatura e literatura portuguesa na Universidade de Araquara.
A partir de 1965 passa a viver nos E.U.A. acompanhado da esposa Mécia de Sena, de quem teve nove filhos, sendo professor catedrático na Universidade de Winsconsin e, posteriormente na Universidade da Califórnia - Santa Bárbara, onde dirigiu o departamento de literatura portuguesa e espanhola. Recebeu ao longo da sua vida vários prémios, entre eles a Grã-Cruz de Santiago.
Faleceu em 4 de Junho de 1978. Três dias depois, a Assembleia da República exprimia pesar unânime, certamente partilhado por todos os que tiveram a honra de o conhecer a si ou à sua obra.»







sábado, 21 de abril de 2018

Metáforas

Odilon Redon



«Hão-de morrer estes velhos sem saberem que as palmeiras não são árvores, é incrível a que ponto pode chegar a ignorância dos homens, por outras palavras, incrível é dizermos que uma palmeira não é uma árvore e isso não ter nenhuma importância, assim como guarda-chuva e guarda-sol, o que conta é a protecção que dão
                     

                                      J. SARAMAGO, in O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caminho, 1984




domingo, 19 de fevereiro de 2017

Sugestão de leitura






Espera-se que fale do livro, do outro...livro. Só posso recomendar este. O resto é mesmo isso - o resto. Daí a verborreia com o seu carácter prolixo.







sexta-feira, 29 de maio de 2015

«Como são deles as palavras...»

John William Godward

«Mas a angústia que me habita, a violenta redescoberta da morte, que eu acabo de fazer, tornam-me estranha esta cidade, separam-ma dos meus olhos vazios, venho de luto, o meu pai morreu.» 
                                                                                                                                                                                            Vergílio Ferreira, Aparição




domingo, 15 de fevereiro de 2015

Obrigada, Alex Campos!


África

Os meus dias correm afiados. Só hoje posso ter a paz necessária para aqui deixar o agradecimento de um presente muito especial que recebi do meu amigo Alex Campos. Ele conhece bem África. Eu fui apenas, durante alguns anos, professora de Literaturas de Língua Portuguesa.


Recordando...

Assim, quando abri o pequeno pacote...a minha alma deslumbrou-se. Acabava de receber o manancial poético dessa incomparável voz africana: Alda Lara!






À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados 

Em cristallímpido e puro...

E àquela virgem esquecida 
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
meu vestido de noiva

Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo 

Que não acredita em Deus...

E os livrosrosários meus
Das contas de outro sofrer

São para os homens humildes
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos
Essesque são de dor 
Sincera e desordenada... 
Essesque são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora
Em que a minha alma venha 
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora... 

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças 

Que encontrares em cada rua...



Obrigada, Alex Campos!




quinta-feira, 17 de abril de 2014

Calou-se o Criador...


IN MEMORIAM

(Edito um «post» do Verão de 2012)

Saramago com García Marquez

A minha vida é uma história feita de livros. Meio-dia quente de assar pássaros que ousem esvoaçar com bater de asas ruidoso. Sala de móveis altos e escuros, cheios de gavetões com memória e de roupas de linho aromatizadas. Chão de frias tijoleiras vagamente marcadas pelo caminhar de antepassados. Ninguém baterá a mão fechada de ferro enegrecido, pois todos dormem, ou melhor, descansam - como gostam de designar a sesta. Nunca fui de sestas. Abro livros e livros, leio com teimosia autores e autores. Faço-o ainda agora, noutra casa, porque todos se foram para algum lugar e o vulto negro da avó também partiu há muito.
Gosto de autores sul americanos e de poetas clássicos. Mistura das minhas muitas bastardias. 
Foi com uma amargura fina que ouvi o anúncio de que Miguel García Marquez está a ser atingido pela demência e não escreverá, por certo, a segunda parte da sua obra anunciada. Não é o meu autor predilecto. Prefiro Cortazar ou J. L. Borges, porque um certo tom libidinoso e um retrato de mulher pouco considerada se colou a García Marquez. Porém, mais uma voz se cala e o mundo a que pertenço ameaça ruir. 
Em tempos quando o autor adoeceu, fizeram correr em seu nome a poesia que vos deixo hoje - é bela. Quem a escreveu conhecia o Autor, mas esqueceu-se que Deus não estava nos seus planos e que O trocaria, facilmente, por um trecho musical de Serrat.
 

La Marioneta de Trapos

Se por um instante Deus se esquecesse
de que sou uma marioneta de trapo,
e me presenteasse um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso,
mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem,
senão pelo que significam.
Dormiria pouco e sonharia mais,
entendo que por cada minuto que fechamos os olhos,
perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm,
despertaria quando os demais dormem,
escutaria enquanto os demais falam, e como
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida,
me vestiria com simplicidade,
me atiraria de bruços ao sol,
deixando descoberto, não somente meu corpo,
mas também minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração....
Escreveria meu ódio sobre o gelo,
e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com un sonho de Van Gogh
sobre as estrelas um poema de Benedetti,

que ofereceria à lua.
Regaria con minhas lágrimas as rosas,
para sentir a dor de seus espinhos,
e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida...
Não deixaria passar um só dia
sem dizer à gente que quero, que a quero.
Convenceria a cada mulher e homem
de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar
que deixam de enamorar-se quando envelhecem,
sem saber que envelhecem
quando deixam de se enamorar.
A uma criança daria asas, mas deixaria
que ela aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte
não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens....
Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha,
sem saber que a verdadeira felicidade está
na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido
aperta com seu pequeno polegar pela primeira
vez o dedo de seu pai,
o tem amarrado para sempre.

Aprendido que um homem unicamente tem direito de olhar
outro homem de cima para baixo,
quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês,
mas finalmente de muito não haverão de servir
porque quando me guardem dentro desta maleta,
infelizmente estaria morrendo....

De autor anónimo - Atribuído a García Marquez

Fonte: http://www.elsonfroes.com.br/neumanne.htm (8/07/12)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Não me peçam razões...

Lanzarote, José Saramago


«Para mim o mundo é uma espécie de enigma constantemente renovado. Cada vez que o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito mais para me dizer do que aquilo que sou capaz de entender. Daí que me tenha de abrir a um entendimento sem baías, de forma a que tudo caiba nele.»

José Saramago, O Jornal, Janeiro de 1983


*****

Um dos governos de Cavaco Silva proibiu a indicação do romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo para o Prémio Europa. Saramago recebeu o prémio Nobel da Literatura em 1998.

***** 


Não me Peçam Razões...Não me peçam razões, que não as tenho, 
Ou darei quantas queiram: bem sabemos 
Que razões são palavras, todas nascem 
Da mansa hipocrisia que aprendemos. 

Não me peçam razões por que se entenda 
A força de maré que me enche o peito, 
Este estar mal no mundo e nesta lei: 
Não fiz a lei e o mundo não aceito. 

Não me peçam razões, ou que as desculpe, 
Deste modo de amar e destruir: 
Quando a noite é de mais é que amanhece 
cor de primavera que há-de vir. 
José Saramago, in Os Poemas Possíveis




terça-feira, 24 de setembro de 2013

Da Eternidade






«Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar.»



"o puro amor a cada coisa

o absoluto no ínfimo"

                                                                                          António Ramos Rosa



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Muitos optaram pelo silêncio...




Mario Vargas Llosa, o escritor peruano nascido em 1936 e prémio Nobel da Literatura em 2010, nem sempre foi um dos meus autores de eleição. Hoje, no entanto, aproveito os longos dias de calor para retornar aos livros - o computador é, ele mesmo, mais uma labareda... Llosa não tem a escrita burilada que me cativa, mas nele existe uma lucidez que me encanta. Jamais é fútil ou ligeiro, mesmo quando escreve obras infantis. 
A obra que leio é uma fina análise na qual o ensaísta, o escritor e o jornalista fazem uma admirável síntese dos nossos tempos. A obra começa por chamar T.S. Eliot, George Steiner, Guy Debord, Gilles Lipovet­sky, Jean Ser­roy e Frédéric Mar­tel, para aju­darem a car­ac­teri­zar a “meta­mor­fose” da cul­tura con­tem­porânea, e ter­mina con­vo­cando Nicholas Carr, autor de Os super­fi­ci­ais, para falar sobre “o que a Inter­net está a fazer aos nos­sos cére­bros”.
Aqui vos deixo uma visão geral:

Sinopse
A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afecta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, actua como mecanismo de distracção e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio. Uma duríssima radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, pelo olhar inconformista de Mario Vargas Llosa.(Wook)
Mario Vargas Llosa

Claro que o título me fez lembrar uma outra obra que até por aí circula na rede, mas com uma perspectiva bem diversa, esta:





quarta-feira, 17 de julho de 2013

O DISCRETO


Peeter Neeffs I - 1578-1660

Que passei anos a estudar o Barroco já não é por aqui novidade. Que levei horas a fio a ler processos inquisitoriais, menor novidade é ainda...foi tempo perdido? Não. Orgulho-me disso? Não, e o motivo é simples: a minha ideia de Deus escapou-se-me das catedrais para  universo. Eu decidi fazê-lo por me sentir inquieta com tudo o que se oculta sob a camada superficial dos seres e das épocas. Sobre o referido período as camadas de ocultação tombaram em abundância. A fragilidade da sociedade portuguesa da época, que se deslumbrava com os modelos dos dominadores e expulsava os seus melhores filhos, tornou-se um paradigma daquilo que somos hoje - dependentes, pretendentes e obscuros.
Desses tempos guardo muitos pintores e autores a que retorno amiúde. Por estes dias, de muito trabalho e provações diversas em terrenos de armadilha e poeira, vou relendo Baltasar Gracián y Morales que sendo jesuíta - com tudo o que isso significou então - teve a lucidez necessária para perspectivar o seu tempo.  A obra tem o sugestivo título: O Discreto. Num momento em que se fecham por aí governantes e pretendentes e na catedral se aplaudem políticos com estridentes palmas, enquanto seguranças de serviço vigiam as ruas, aqui vos deixo - com o sabor de antanho -  um excerto daquilo que leio:

«Daqui nasce que esses tais, mui pagos de sua paradoxia, solicitam a ocasião e andam à caça de empenhos; vão à conversação como a contenda, levantam porfias, e, feitos harpias insofríveis do bom gosto, a tudo arranham com suas acções e a tudo dessazonam com suas palavras. [...] Se passam logo de bacharéis de presunção a licenciados de malícia monstros da impertinência.»(pág. 87).





Ana

sábado, 1 de junho de 2013

Portugal, povo de suicidas



Unamuno

«- Que doutrina horrível! , digo para mim, guardando o jornal no bolso, e recordo Alcácer-Quibir e o rei D. Sebastião, o terramoto desta cidade de Lisboa, D. Pedro V, o Hamlet português e o seu mestre Herculano, cujo soberbo túmulo contemplei esta mesma tarde nos Jerónimos e, por último, torna a surgir diante de mim o enigmático e triste sorriso de Eça de Queiroz.
Entretanto vai e vem a gente desta cidade cosmopolita; parece contente, ri, gesticula, corre para os seus negócios ou para as suas distracções. E um observador satisfeito poderia dizer ao vê-los:
" Este é um povo como todos os outros; aqui não acontece nada."
E, não obstante, o povo desta terra, Portugal, é um povo triste.
Sim, é um povo triste. E daqui resulta o encanto que tem para alguns, apesar da evidente trivialidade das suas manifestações exteriores.
[...]
Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida.»

Miguel de UNAMUNO, Portugal povo de suicidas, p.p. 72-73


Fecho o livro. Vou comprá-lo também. Se não me afastar da Feira do Livro, arruíno-me. Hoje, vi Lisboa pelos olhos do iberista.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

You Are Welcome To Elsinore

 Pawla Kuczynskiego

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício


Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição


Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinor


E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita


Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar



                                                             Mário de Cesariny

Pawla Kuczynskiego

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Maria Teresa Horta

Google

A minha homenagem à mulher que soube dizer «não» e mantém um olhar límpido!


A escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, disse esta terça-feira à Lusa que não o aceita receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto.
A entrega do Prémio D. Dinis esteve agendada para dia 28, sexta-feira da próxima semana, numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.


“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, explicou Maria Teresa Horta à Lusa.



“Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência”, salientou a escritora que acrescentou: “Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores”.



Para Maria Teresa Horta, “o primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural”.



A autora afirmou que “o país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto”.



“Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro”, deixou claro Maria Teresa Horta.



A escritora disse que já informou a Fundação Casa de Mateus da sua decisão, assim como a sua editora e falou com cada um dos membros do júri.



A premiada salientou ainda a “satisfação” que lhe deu ter sido distinguida “por um júri que representa três gerações de poetas: o Vasco Graça Moura que é da minha [geração], o Nuno Júdice, que é da seguinte, e o Fernando Pinto do Amaral, que é a mais nova”.



No sítio da Fundação Casa de Mateus, na Internet, é afirmado que “a sessão solene de entrega do Prémio será agendada brevemente”.



O Prémio Literário D. Dinis, instituído pela Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído por unanimidade à escritora, pela obra “As luzes de Leonor. A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, editado pelas Publicações D. Quixote.



Instituído em 1980 pela Fundação Casa de Mateus, em Vila Real, o galardão é atribuído a uma obra literária - de poesia, ensaio ou ficção - publicada no ano anterior ao da atribuição do prémio.



“As Luzes de Leonor”, obra editada em 2011, é um romance sobre a vida da marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), neta dos marqueses de Távora, uma mulher que se destacou na história literária e política de Portugal num período denominado como “o século das luzes”.



D.ª Leonor de Lorena e Lencastre é avó em quinto grau de Maria Teresa Horta, nascida em 1937, em Lisboa.



Maria Teresa Horta estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, foi jornalista e activista do Movimento Feminista de Portugal, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, com quem escreveu o livro “Novas Cartas Portuguesas”.



“Amor Habitado” (1963), “Ana” (1974) e “O Destino” (1997) contam-se entre mais de duas dezenas de obras publicadas da escritora.»


Jornal, «Público»





quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Notas de Leitura 2



Dias longos de Verão começam a declinar. Declínio parece ser um estado geral. Tudo definha na ressequida natureza até que tombem as primeiras chuvas outonais, doces, cheirando a palha molhada e terra sequiosa.
Até lá vou lendo, lendo como sempre e compulsivamente. Por causa de desígnios profissionais [quase nem valeria a abnegação neste duro tempo] leio agora uma obra extraordinária, aqui fica uma nota:

Para qué llamar caminos
a los surcos del azar? ...
Todo el que camina anda,
como Jesús, sobre el mar.

(Antonio MACHADO)

o.c., pág. 15



Ana

terça-feira, 31 de julho de 2012

Enkheduanna

google


Gosta de História e escreve poesia a filha de Sargão de Akkad. Debruça-se sobre a tabuinha de argila, ainda fresca, e afasta a bela trança. Escreve hinos a Inanna, a deusa lunar. Quem assim a vê, nem percebe o seu inaudito valor de menina. Um dia será sacerdotisa. Letrada, escreve sem parar, enquanto seu pai segue os rumores da guerra. 

Impressionado, cem anos depois, o príncipe Gudeia há-de recolher numa biblioteca os escritos da primeira autora conhecida. Passaram mais de quatro mil anos e à terrível deusa já ninguém consagra hinos.


                                                                                          Ana

Para saber mais:

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Flor

BNL - espólio D08 (Almada Negreiros

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros



Penso, muitas vezes, neste poema de Almada Negreiros quando, como agora, vejo o desnorte na Educação. Alguém pensará no delicado e complexo processo que se exige ao aprendiz? 

Ana 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tomas Tranströmer - o Nobel e Portugal



Nobel da Literatura 2011






FUNCHAL

O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, 
construída por náufragos.
Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim 
as rajadas de vento do mar.
Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa 
dois peixes, segundo uma antiga
receita da Atlântida. Pequenas explosões de alho.
O óleo flui nas rodelas do tomate. Cada dentada diz-nos que
o oceano nos quer bem,
um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos 
as agrestes colinas floridas,
sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais, 
bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas 
coisas juntos, lembramo-nos disso, momentos em que 
de pouco ou nada servíamos (por exemplo, quando esperávamos 
na bicha para doarmos sangue ao saudável gigante –
ele tinha prescrito uma transfusão).
Acontecimentos, que nos poderiam ter separado, se não nos tivessem 
unido, e acontecimentos
que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram!
Eles tornaram-se pedras. Pedras claras e escuras. Pedras de 
um mosaico desordenado.
E agora mesmo acontece: os cacos voam todos na mesma direcção, 
o mosaico nasce.
Ele espera por nós. Do cimo da parede, ilumina o quarto de hotel, 
um design, violento e doce,
talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo 
quando tiramos as roupas.

Ao entardecer, saímos.
A poderosa pata azul escura da meia ilha jaz expelida sobre o mar.
Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados, amigavelmente, 
suaves controlos,
todos falam, fervorosos, na língua estranha.
“ Um homem não é uma ilha “

Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de 
nós mesmos. Por meio daquilo que
existe em nós e que o outro não consegue ver. Aquela coisa 
que só se consegue encontrar
a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula 
contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante 
que propaga o silêncio.
Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. 
Um livro que só no escuro se consegue ler.





LISBOA

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

Tomas Tranströmer, poeta sueco


tradução de Luís Costa






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EM PORTUGUÊS:
21 poetas suecos, publicado em 1981 pela editora Vega, uma obra organizada por Vasco Graça Moura e Ana Hatherly