Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Beira


Perdemo-nos pela Beira.
Paisagem fantasmagórica com escuros vales. Braços de árvores erguidos, velhos troncos de incêndios antigos. Memórias de Verão sem sossego.
Grifos erguem-se do passado e a memória de mitos esotéricos sobressalta - me...
A Beira inquieta-me
.




A voz do querido Professor Lindley Cintra ecoa, de longe, e traz-me a lenda do Rei Wamba, último dos visigodos que aqui reinou, no século talvez sétimo.
Godos, velhos habitantes peninsulares que nos transmitiram este catolicismo que se entranha, aqui, em cada pedra.
E, bruxas que não vemos, vagueiam pelos socalcos pedregosos caminhando para Espanha.



Até o Tejo se estreita o quanto pode, quase com Ródão a fechar-lhe as portas.
Os homens têm ares de velhos Viriatos - peito forte, cabelo farto, ar de guerreiros capazes de enfrentarem a última legião romana.
E, lá pelos lados da Serra da Gardunha, naves extraterrestres rasgam as noites mais escuras, sem que os homens se maravilhem.




As nuvens caem baixas, como farófias gigantescas, e acontecerá decerto algum milagre.
A minha Fé, que já existiu e me perturba agora cada dia, como se fora caminho para o Inferno, aflora nestas rochas superficiais. Se me distrair...

Ao longe, gigantes eólicos quixotescos, rodam braços energéticos e apontam um futuro que não sabemos se seremos capazes de habitar.





Perdemo-nos pela Beira.


http://www.energiasrenovaveis.com/images/upload/per0067_1.jpg

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Da Catalunha - obrigada!




Querida Antonia Tenea vou dizer-to naquela língua que uniu a Espanha católica. Vou dizer-to como o registam os Dicionários do teu país desunido pela cultura, pela História e pelos sonhos diversos dos homens, país abstracto nos sonhos de Unamuno:

Esfuerzo consciente de los grupos humanos por entroncar con su pasado, sea éste real o imaginado, valorándolo y tratándolo con especial respeto.

Diada catalã em dia de deposição de armas.
Dia de Portugal quando o estro camoniano se calava e a monarquia dual, falada naquele castelhano timbrado de Filipe, inundou os paços em Lisboa.
Minha amiga, tu és médica e sabes. Sabes bem melhor que eu como é difícil ao humano olhar-se de frente.
Não podemos apagar a História. Estamos de acordo. Não poderemos esquecer as guerras: civis, coloniais, quixotescas, velhas gestas, velhas tiranias. Só assim evitaremos as do porvir.
Da tua rica Catalunha podes olhar o meu Portugal sem memória histórica.
Tu não és castelhana. Eu não sou castelhana.
Nós somos ibéricas e irmãs ancestrais. Nós somos ibéricas como todos os castelhanos, afinal.
Humanas e sequiosas de um mundo melhor.
Bem hajas!


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Portugal Futuro


António Silva Porto, Ceifa, 1884?


O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro azul é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável


António Ramalho, Margens do Sena, 1882


Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz



António Carneiro, Sinfonia Azul, 1910



Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz



António Pedro, Intervenção Romântica, 1940


À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira - mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro

Ruy Belo, 1970

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A paz sem vencedor e sem vencidos

Monica Stewart



Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Lamentável...

Pavão, baixaki


É vistoso o pavão, mas é só uma aparência. Quem o conhece bem, conhece-lhe também os asquerosos e deformados pés que tem.



Maitê Proença Gallo


Numa sociedade frágil não é subtil, mas inútil ser assim e à justa, tão pacoviamente fútil!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A 7 de Outubro começava a Escola oficial

Paula Rego, O passado e o presente


Há 5 77o anos, seria sete de Outubro se já seguíssemos o calendário de hoje.
No muito católico país «abria a escola». Corríamos com o cheiro novo dos livros, as batas brancas oficiais - que se tornariam pretas no Liceu - e um mundo de sonhos por plantar.Tudo pareciam certezas.
Estranha contradição.No muito católico país escolhera-se o primeiro dia da Era Judaica (3 761 A.C.)para iniciar as aulas.
Recordei-me disto, porque um dos meus alunos chamou, baixinho, «judeu» ao seu colega...e pedi, então, a uma das alunas que lesse alto este poema do nosso querido Jorge de Sena:


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando
lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer uma delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu
semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anónimamente quanto haviam vivido,
ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos,
apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum juízo final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

JORGE DE SENA,«Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya»

Os olhos azuis do meu aluno ficaram avermelhados ... e sorrimos.

domingo, 4 de outubro de 2009

Para ti



Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

Alentejo - visto pela BBC

Documentário: "Forest in a Bottle" from EcoLogicalCork.com on Vimeo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009