Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 3 de março de 2021

Vertigem


Vladimir Kush


É este silêncio de dias plenos

É o rumor do tempo que corre

E o frio fechado no coração

Dos homens!

As vidraças estilhaçadas

Na vertigem de dias plenos

E as forças renovadas...

Dos homens!

É o grito incendiado que fulmina

O arrebol do tempo renovado 

E o frio fechado no coração

Dos homens!


Ana


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

E@D

 

Rob Gonsalves


TEMPO

 

Tempo — definição da angústia.

Pudesse ao menos eu agrilhoar-te

Ao coração pulsátil dum poema!

Era o devir eterno em harmonia.

Mas foges das vogais, como a frescura

Da tinta com que escrevo.

Fica apenas a tua negra sombra:

— O passado,

Amargura maior, fotografada.

 

Tempo…

E não haver nada,

Ninguém,

Uma alma penada

Que estrangule a ampulheta duma vez!

 

Que realize o crime e a perfeição

De cortar aquele fio movediço

De areia

Que nenhum tecelão

É capaz de tecer na sua teia!

 

Miguel Torga, Cântico do Homem, Coimbra editora, p.p. 51-52


Muito devagar, muito devagar...que agora os dias do Ensino à distância nos maceram o olhar, difícil é chegar até este Sul. Muito lentamente irei saldando a minha dívida de visitas às páginas amigas.

                                                                Saúde!


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

São os tempos!

 

Alto Alentejo, Janeiro 2021

Quebro o gelo, com uma passada larga. Conheço o desenho de cada passo, pois em cada dia repito esta passagem. O parque amanhece e carrega-se da renovada esperança de mais um dia que desponta. A luz limpa é um logro. A friagem desceu do zero e ela lê melhor a realidade.
Caeiro falar-te-ia do «cubo da sensação», mas eu falo-te deste animal do Sul e do Sol que sente o desconforto do gelo.

Alto Alentejo, Janeiro 2021

Podes imaginar a samarra verde, a pele pálida, a máscara ironicamente aconchegante nesta alba...só não sabes do calor íntimo e revoltado. Ah! Não sabes como a injustiça revolta! Como a intempérie é, talvez, necessária e urgente...
Não culpes este chão. Ele conhece os tiranos que o pisaram. Não culpes este chão!

Alto Alentejo, Janeiro 2021

A intempérie chegará! Os sonhos jorrarão como esta água, a cântaros...e lavarão os rios que secaram no Verão. 
Não bramas, aturdindo a ignorância, pois dela se constroem as grades. Só as vozes não se aprisionam, só o sopro íntimo erguerá a obra. Amainará a chuvada. 

Alto Alentejo, Janeiro 2021

Caminho no parque, sob a chuva que fustiga, com uma passada larga. 
Do lado de lá o infindável trabalho dos dias: arremessar sementes ao Futuro em salas plenas de esperança!
Não culpes este chão!



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

E...as festas acabaram.

 

De volta...

José


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio — e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?



Carlos Drummond de Andrade


domingo, 20 de dezembro de 2020

BOAS FESTAS

 

Mar da Galileia/Kineret



Na margem de uma guerra qualquer, olhando os incautos passantes, desejo-te a Paz. No dia que finda, recordo que, para lá do horizonte, muitos não se erguerão no dia que recomeçará. As aparências não me fascinam, a profundidade atemoriza-me e deslumbra-me. São doces estas águas que olhas vagamente. São doces e, todavia, por elas se fez (fará) a guerra. 
Atrás, os destroços, não pouparam nem os mortos...e falas-me de um Deus menino, poderá ser? Ele pisou estes lugares, dirás. Por Esse farás as Festas e celebrarás o fim de um ano incomum a que convencionámos chamar tempo comum. Aqui, outro calendário me diz de outro tempo e o agora é já além de meados o quinto milénio. 
Assim caminhamos, reféns das disputas, tantas,  que até as divindades as tecem!



 
Desejo-te a Paz e a Saúde! E que tombem os que neste mundo cavalgam sobre a força da ignorância.

Sejamos fraternos e puros ...voltarei!

BOAS FESTAS MEUS AMIGOS!