Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Tempestade

 

Rembrandt, A Tempestade no mar da Galileia, 1633

                                                                 
É longa e devastadora a tempestade...só a grandiosidade de Herculano, para a descrever. Ela, também é íntima e furiosa.


(Parte VI)


Sibila o vento: os torreões de nuvens

Pesam nos densos ares:

Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas

Pela extensão dos mares:

A imensa vaga ao longe vem correndo

Em seu terror envolta;

E, dentre as sombras, rápidas centelhas

A tempestade solta.

Do sol no ocaso um raio derradeiro,

Que, apenas fulge, morre,

Escapa à nuvem, que, apressada e espessa,

Para apagá-lo corre.

Tal nos afaga em sonhos a esperança,

Ao despontar do dia,

Mas, no acordar, lá vem a consciência

Dizer que ela mentia!


As ondas negro-azuis se conglobaram;

Serras tornadas são,

Contra as quais outras serras, que se arqueiam,

Bater, partir-se vão.

Ó tempestade! Eu te saúdo, ó nume

Da natureza açoite!

Tu guias os bulcões, do mar princesa,

E é teu vestido a noite!

Quando pelos pinhais, entre o granizo,

Ao sussurrar das ramas,

Vibrando sustos, pavorosa ruges

E assolação derramas,

Quem porfiar contigo, então, ousara

De glória e poderio;

Tu que fazes gemer pendido o cedro,

Turbar-se o claro rio?


Quem me dera ser tu, por balouçar-me

Das nuvens nos castelos,

E ver dos ferros meus, enfim, quebrados

Os rebatidos elos.

Eu rodeara, então o globo inteiro;

Eu sublevara as águas;

Eu dos vulcões com raios acendera

Amortecidas fráguas;

Do robusto carvalho e sobro antigo

Acurvaria as frontes;

Com furacões, os areais da Líbia

Converteria em montes;

Pelo fulgor da Lua, lá do norte

No pólo me assentara,

E vira prolongar-se o gelo eterno,

Que o tempo amontoara.

Ali, eu solitário, eu rei da morte,

Erguera meu clamor,

E dissera: «Sou livre, e tenho império;

Aqui, sou eu senhor!»


Quem se pudera erguer, como estas vagas,

Em turbilhões incertos,

E correr, e correr, troando ao longe,

Nos líquidos desertos!

Mas entre membros de lodoso barro

A mente presa está!...

Ergue-se em vão aos céus: precipitada,

Rápido, em baixo dá.


Ó morte, amiga morte! é sobre as vagas,

Entre escarcéus erguidos,

Que eu te invoco, pedindo-te feneçam

Meus dias aborridos:

Quebra duras prisões, que a natureza

Lançou a esta alma ardente;

Que ela possa voar, por entre os orbes,

Aos pés do Omnipotente.

Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem

Desça, e estourando a esmague,

E a grossa proa, dos tufões ludíbrio,

Solta, sem rumo vague!


Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam

O sono do existir;

Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças

Nas trevas do porvir.

Doce mãe do repouso, extremo abrigo

De um coração opresso,

Que ao ligeiro prazer, à dor cansada

Negas no seio acesso,

Não despertes, oh não! os que abominam

Teu amoroso aspeito;

Febricitantes, que se abraçam, loucos,

Com seu dorido leito!

Tu, que ao mísero ris com rir tão meigo,

Caluniada morte;

Tu, que entre os braços teus lhe dás asilo

Contra o furor da sorte;

Tu, que esperas às portas dos senhores,

Do servo ao limiar,

E eterna corres, peregrina, a terra

E as solidões do mar,

Deixa, deixa sonhar ventura os homens;

Já filhos teus nasceram:

Um dia acordarão desses delírios,

Que tão gratos lhes eram.

E eu que velo na vida, e já não sonho

Nem glória nem ventura;

Eu, que esgotei tão cedo, até às fezes,

O cálix da amargura:

Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado

De quanto há vil no mundo,

Santas inspirações morrer sentindo

Do coração no fundo,

Sem achar no desterro uma harmonia

De alma, que a minha entenda,

Porque seguir, curvado ante a desgraça,

Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa

Fragor da tempestade,

Salmo de mortos, que retumba ao longe,

Grito da eternidade!...



Pensamento infernal! Fugir covarde

Ante o destino iroso?

Lançar-me, envolto em maldições celestes,

No abismo tormentoso?

Nunca! Deus pôs-se aqui para apurar-me

Nas lágrimas da terra;

Guardarei minha estância atribulada,

Com meu desejo em guerra.

O fiel guardador terá seu prémio,

O seu repouso, enfim,

E atalaiar o sol de um dia extremo

Virá outro após mim.

Herdarei o morrer! Como é suave

Bênção de pai querido.

Será o despertar, ver meu cadáver,

Ver o grilhão partido.


Um consolo, entretanto, resta ainda

Ao pobre velador:

Deus lhe deixou, nas trevas da existência,

Doce amizade e amor.

Tudo o mais é sepulcro branqueado

Por embusteira mão;

Tudo o mais vãos prazeres que só trazem

Remorso ao coração.

Passarei minha noite a luz tão meiga,

Até o amanhecer;

Até que suba à pátria do repouso,

Onde não há morrer.


Alexandre Herculano, A Harpa do Crente

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Nós lembramos


Sandro Botticelli, O Abismo do Inferno, séc. XV-XVI


    Há qualquer coisa, na indumentária deste senhor, que deveria ser analisada, pois a Semiótica é uma ciência, não um acaso.

Jornal Observador

a “memória não é passiva”
in:

    Judeus, ciganos, negros, testemunhas de Jeová, homossexuais, pessoas com deficiência, alemães e opositores ao regime, minorias, pessoas doentes e debilitadas, doentes mentais, alcoólicos, algumas minorias eslavas, muitos polacos...e tantos outros, no ódio violento e ideológico...

UNESCO 

    Que o anti-semitismo vigente não nos cegue!
    Que a "ditadura da felicidade" ou a "cretinice digital" não nos volte a atirar para o abismo!


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Frio Janeiro



SIC- notícias (Nuvem prateleira sobre Ponte de Sor), Jan. 2026



FRIO JANEIRO 

Frio e luminoso mês de janeiro 
Em que as trevas assolam o país, 
Horizonte largo de brilho derradeiro 
Onde a Justiça se confunde na raíz. 

Frio ardiloso e este sol rotineiro 
Que pisa a herança da sua matriz. 
Sonho largo, abraço verdadeiro, 
Afeto, linha pura que sempre quis. 

Ergue-te e vela, a tirania espreita!
Ergue-te e sonha o largo horizonte 
No moribundo país que se estreita! 

Além na colina e aqui neste monte, 
Tua coluna frágil, moldável, endireita 
E olha em frente da tua reta fronte! 

                                                                     
                                 Ana Tapadas, SUL SERENO, p.52


    Caiu granizo e uma chuva intensa, e as nuvens partiram, a madrugada trouxe, então, as cores do improvável. O improvável está sempre à espreita e, na primeira ocasião, instala-se.


Hoje, de madrugada. 



    Não gostaria de envelhecer no país em que fui criança!
               (Sim, é uma metáfora.)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026