Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 17 de outubro de 2021

Plumas de luz

 

V. Kush, Infinity trail

Exacta

crua

felina

pluma de luz


Exacta

nua

ferina

Pluma de luz


Planando no infindo labirinto deste Outono.


Jacek Yerka, Autumn Labyrinth



       (Refém do trabalho, irei visitando os @migos. Para todos, um doce Outono, ou Primavera...).

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

No fio do tempo

 

Mankthi, Shamsia Hassani, artista afegã

É ainda o Verão. Dias quentes feitos de partidas e de chegadas, de retornos fugazes a que o excesso de luz queima as pontas, como a mariposas descuidadas. Alguns dramas, muitas alegrias. Partidas sem retorno e reencontros melífluos.
Há fugas e cobardias, recomeçam guerras. A religião, como desculpa para a maldade dos homens, envenena e o dinheiro das armas corrompe...inocentes nasceram anónimos em lugares de fogo. Sangue ou choro, que faz a Humanidade? Espartilha e separa.

Alto Minho, Agosto, 2021

Outra vez o Minho, agora sem nortada, quente e húmido como um ventre criador que não se quer separar da sua cria. Superstições na memória colectiva, rituais de tribo que haveremos de cumprir, contrafeitos mas obedientes. Eu, que não sou de tribos, observo indiferente - são décadas de hábito. Sejam felizes! Estejam satisfeitos.

Opernhaus (ópera), Zurique, 2021


Outra vez Zurique, doce esvoaçar do Amor. Plena, a vida, enche-se de sentido. O sorriso de Madalena traz promessas de futuro. A felicidade veio instalar-se aqui e temos de lhe trazer os nossos peitos abertos. Galgados os Pirenéus, ultrapassados os Alpes...olhamo-nos em silêncio, olhos nos olhos, sentados no Largo da ópera, temos o mais intenso brilho destes tantos milionários que caminham para a Bahnhofstrasse. Tanta coisa já nos é familiar, até o preço deste café que ousámos beber.

Quintas, Schlieren - 2021

Subamos às quintas, ali onde em 11 minutos a cidade abraça o campo, tudo se torna idílico e percebemos a civilidade com que se trata a natureza neste lugar. Sim, rodearmo-nos de cimento e de periferias engaioladas, há muito  que nos atirou para a retaguarda. José não resiste às compras e vai retirando e pagando os ovos, a fruta...sem vendedor. Um elogio à confiança! Os bens alimentares custam parcas moedas. Em breve voaremos para um lugar que se aqui viesse se espantaria.

Alvor, 2021


E lá está o Infante, no seu promontório olhando do passado. Ali, na curva do mar! Enquanto caminho pelos passadiços, adivinho o rumor das naus aportando ao Futuro.

Agora, atravesso o parque, no lugar de sempre, sonhando com lugares na memória.


Ana

domingo, 15 de agosto de 2021

Quando desço...



Zurique, Agosto - 2021



Quando desço ao país dos lagos
encho o peito de sonhos,
de afagos,
do fulgor de um dia que finda.
E do halo que exala das florestas...
qual Ícaro que sobe vigoroso,
ainda,
sobre o glaciar dos ideais em flor,
subo 
ou desço 
nas arestas do Amor!

Ana

 

Suíça, Agosto - 2021

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A Luz que Vem das Pedras


Alentejo, 2020


A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

                                                                     Pedro Tamen, in Agora, Estar



quarta-feira, 28 de julho de 2021

Quando a sua existência pertence ao futuro

 

Médio Oriente, 2019

Já andei por muitos lugares e não procurei neles o verniz retocado das agências de viagens. Assumo o gosto pela geografia que se banha no Mediterrânio. Talvez só esse seja o traço comum da minha busca de uma identidade feita de misturas e de incógnitas.
Vem isto a despropósito dos ataques sucessivos que este blogue tem sofrido, em longos comentários que me incitam também a longas bibliografias, feitos em nome de movimentos, ditos, pós-humanistas. O meu perfil de blogger assumido como humanista poderá ser o desafio...
Estes movimentos não são novos - configuram novos fascismos -  e uma qualquer página wikipédia serve de alerta aos meus amigos que passem pelo mesmo. 

Médio Oriente, 2019

A tecnologia e a inteligência artificial devem ter as dimensões do olhar humano, pois este as criou, ainda que nem sempre com a melhor das intenções - motivo supremo para eu continuar humanista e acreditar que os valores humanos, esses, é que não se poderão perder! A verdadeira revolução acontece na construção do homem, na sua dignidade, verdade, fraternidade e sentido de justiça.

Médio Oriente, 2019

Quando observava este cemitério destruído pela guerra, num território que três ou quatro povos reclamam como seu e com os montes Golã no horizonte, vi que o único túmulo preservado guardava um apelido português - «Dr. Martins». E, na distância, para lá das colinas, a Síria banhava-se (banha-se ainda) no sangue dos homens...


Médio Oriente, 2019

Quando, na manhã seguinte, observei melhor vi o túmulo do sábio cuja estátua enfeita, também, a cidade espanhola de Córdova (onde nasceu) - Maiomonides, sábio do Al Andaluz. 
E, antes que sionistas e antissemitas resolvam plasmar aqui os seus ódios e crenças, sempre vos digo que me senti bem: sim, o humanismo é essa universal força dos valores e da sabedoria humana que nos irmana, fraternalmente!
O Homem é, ainda, a esperança do Homem!

Ana