Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 17 de agosto de 2019

Síndroma

Jerusalém, Monte Sião - José Alves, 2019



Septuaginta - Salmos - Salmo 137
Para David, um salmo de Jeremias.

1 Junto aos rios da Babilónia, ali nos assentámos, e chorámos quando nos lembrámos de Sião.
2 Pendurámos as nossas harpas nos salgueiros das suas margens,
3 Pois ali aqueles que nos tinham tomado cativos pediam-nos as palavras de uma canção; os que nos tinham levado para longe pediam-nos um hino, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.
4 Como iríamos entoar o canto do Senhor em terra estranha?
5 Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão direita se esqueça da sua habilidade!
6 Que a minha língua se apegue à minha garganta, se eu não me lembrar de ti, se eu não eleger Jerusalém como a maior das minhas alegrias.
7 Lembra-te, ó Senhor, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém, quando disseram: Arrasai-a, arrasai-a até os seus fundamentos!
8 Miserável filha da Babilónia! Bendito aquele que te recompensar da maneira como nos tens feito;
9 Bendito aquele que apanhar e esmagar os teus pequeninos contra a rocha!




Monte Sião, escavações que comprovam a destruição da cidade (José Alves - 2019)






Cá nesta Babilónia


Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião! 


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 


Israel - José Alves, 2019


Tenta compreender um povo a que a História persegue há trinta e cinco séculos. Aqui nada é a preto e branco. Não te apresses a julgar.

A Paz é um caminho necessário e difícil. 






terça-feira, 13 de agosto de 2019

Memórias 2




José Alves, 2019

O acaso de uma marcação prévia trouxe-nos aqui. É necessário guardar num parque pago o carro de matrícula IL. Neste lugar nenhum seguro nos garante. Passamos a andar a pé à média de 12 km por dia, ou de táxi. Sabemos onde estamos. Uma placa traça-nos um breve historial da casa e todos os funcionários são homens. Visto-me de forma discreta, mas sinto algum desconforto íntimo. Ao fundo da Nablus Road, fazendo esquina, fica o American Colony. Duplo incómodoNem sei o que mais me perturba. 
Precisava de alguma inocência livresca para me sentir segura. Aqui, tudo se desfaz e se põe em perspectiva. Os sorrisos são raros.


José Alves, 2019

O gosto árabe do século XIX renova memórias inoportunas. Alguma decadência mina esta atmosfera. Somos resilientes e isso ajuda-nos. Sabemos bem que já foi cenário de horrores e até clínica.


José Alves, 2019

Ao segundo dia, o funcionário sorriu. Não somos ingleses, nem franceses, nem americanos e o nosso passaporte português abre-nos muitos caminhos nesta terra de tantos separatismos, disputas, vencidos e vencedores. 

Dormi agitada, a Festa do Sacrifício (muçulmana) e  Tisha b'Av (judía) aproximam-se e os «raids» nocturnos acordam-me com rajadas de metralhadora, num bairro abaixo. 
Lembras-te dos Filisteus? 

Não me peças que decida. O que vejo é hediondo, mas não é a preto e branco. Setenta anos de guerra são capítulos no tempo. E...eu estou aqui a tentar compreender. Jamais serei a mesma.


Ana




quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Memórias - 1

Galileia/Síria, José Alves - 2019



Olho o meu rosto tisnado pelo sol dourado do Médio Oriente...raramente olho este rosto. Sei da minha tez clara, dos olhos pardos de gato fugidio e do peso sério que a idade lhe vai trazendo. Porém, o que agora vejo no fundo desse olhar é, tão só, aquilo que observei. Como é possível? O que somos, humanamente?
Não me peças que ajuíze. Aquilo que vi desconstrói cada chavão, perturba até ao âmago e entristece. Como ousas essa indiferença, enquanto os sonhos dos homens se desmoronam nestes muros furados por rajadas recentes? 
A realidade dói em cada esquina e deve ser contemplada. Se aqui estivesses comigo não terias tantas palavras. A realidade emudece, não é tagarela.

Hoje, chegada há um dia, disseram-me:
- Tens um ar tão sereno e o olhar tão triste!
Ai de mim se assim não fora...seria sinal de haver perdido a minha condição de ser humano.

Ana

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Rotas de vida

Minho, Julho, 2019


Abate-se sobre nós um tempo remoto, uma memória de tribo e de jovialidade, de sonhos tecidos na luz e, ora, perdidos no silêncio dos anos. Paisagem eterna dos montes que descem de cumes incertos, lugares improváveis para se viver e os rios que cantam nos vales pasmados de verde.
Abate-se sobre nós este sol húmido de florestas desgrenhadas. Eternos e imaturos, frágeis como meninos, os inseguros caracteres de Agustina passeiam em lugares desconhecidos. 
Viagem, rota de vida, que o coração escolheu, mas que não extasia o olhar. Estilhaça-se a memória de um tempo estagnado na luz destes dias velozes.


Ana

sábado, 20 de julho de 2019

Labirinto da Saudade - para todos os hedonistas actuais




Sugestão de leitura para todos os hedonistas actuais que recusam a idade que os viu nascer e não recolhem a imensa Sabedoria dos velhos.

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