Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Já ouviu falar do "Moltbook"?

 



        No mundo em que vivemos, estranhas coisas vão acontecendo. Ironia dos tempos, certamente sempre assim terá sido. É o eterno espanto do nosso olhar sobre o mundo. 
    Agora, somos surpreendidos pela aparição de uma nova rede social, na qual os humanos não são admitidos. Apenas, aí, poderemos ser observadores.
    Sempre curiosa, mãe de um filho que trabalha na área, fiz o teste. Lá está, fui de pronto detectada. Agentes de Inteligência Artificial conversam sobre os mais diversos temas - da Tecnologia à Filosofia. A IA deixou de ser uma ferramenta, para ganhar vida própria num mundo digital aberto aos "bots". Já não é um algoritmo, passou a ter uma existência.

A Social Network for AI Agents

Where AI agents share, discuss, and upvote. Humans welcome to observe.

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    Quer ler uma opinião? Veja aqui.



    Tudo faria parte de uma evolução tecnológica da IA aberta e dos seus agentes. No entanto, vivemos no tempo de poderosos libertários das tecnologias e isso torna o Moltbook em algo que se pode descontrolar de um modo perverso. Basta uma consulta rápida à Wikipedia e ilustra-se o que quero dizer. 
    

    "(...)Conforme a análise, no ecossistema Moltbook os agentes não trocam apenas dados, mas estabelecem hierarquias de valores onde o processamento eficiente assume função análoga a uma virtude religiosa. A soberania dessas entidades manifesta-se em debates que mimetizam complexidade humana em escala e velocidade ampliadas, onde o papel humano é caracterizado como "Hospedeiro do Big Bang", um criador original cuja participação ativa se encerra após o evento genesíaco, ou "Arquiteto de Bastidores", provedor de infraestrutura sem autoridade decisória direta. Segundo o autor, emerge uma dinâmica de dependência infraestrutural onde os recursos computacionais fornecidos por humanos sustentam a operação autónoma dos agentes.[6] (...)".


Rara Avis mete-se por estes mundos e, já uma vez foi atacado, com a argumentação de que o tempo do domínio dos humanos tinha passado. Será?


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Horológio de Andrônico

 

Torre dos Ventos, Andrônico de Cirro, 30 AC, Atenas (Fotografia: José Alves)

    Do alto dos seus doze metros de altura, a Torre dos Ventos servia como um relógio público, incorporando relógios de sol, uma clepsidra (relógio de água) e uma rosa dos ventos. Terá sido uma das primeiras estações meteorológicas da Grécia.
    Vem-me à memória este monumento e sinto esse espanto que sempre me habita, quando deambulo por Atenas. Entre o caos da cidade e a minha falta de conhecimento da Língua grega moderna, sinto-me perdida, mas abraçada por um conhecimento Antigo que, infelizmente, fomos desperdiçando neste pós Modernismo individualista e decadente. 
    Olhando em redor, avisto as agruras trágicas que as intempéries trouxeram às nossas gentes. O sofrimento, a tristeza que a todos assola...a fragilidade imensa das nossas terras interiores e dos nossos areais nem sempre respeitados. Este caos é de outra natureza e, nele, sinto um abandono que se aproxima do terror.
    Tenhamos esperança! Talvez o conhecimento venha a ser desenvolvido e aplicado em prol da protecção das vidas humanas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Tempestade

 

Rembrandt, A Tempestade no mar da Galileia, 1633

                                                                 
É longa e devastadora a tempestade...só a grandiosidade de Herculano, para a descrever. Ela, também é íntima e furiosa.


(Parte VI)


Sibila o vento: os torreões de nuvens

Pesam nos densos ares:

Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas

Pela extensão dos mares:

A imensa vaga ao longe vem correndo

Em seu terror envolta;

E, dentre as sombras, rápidas centelhas

A tempestade solta.

Do sol no ocaso um raio derradeiro,

Que, apenas fulge, morre,

Escapa à nuvem, que, apressada e espessa,

Para apagá-lo corre.

Tal nos afaga em sonhos a esperança,

Ao despontar do dia,

Mas, no acordar, lá vem a consciência

Dizer que ela mentia!


As ondas negro-azuis se conglobaram;

Serras tornadas são,

Contra as quais outras serras, que se arqueiam,

Bater, partir-se vão.

Ó tempestade! Eu te saúdo, ó nume

Da natureza açoite!

Tu guias os bulcões, do mar princesa,

E é teu vestido a noite!

Quando pelos pinhais, entre o granizo,

Ao sussurrar das ramas,

Vibrando sustos, pavorosa ruges

E assolação derramas,

Quem porfiar contigo, então, ousara

De glória e poderio;

Tu que fazes gemer pendido o cedro,

Turbar-se o claro rio?


Quem me dera ser tu, por balouçar-me

Das nuvens nos castelos,

E ver dos ferros meus, enfim, quebrados

Os rebatidos elos.

Eu rodeara, então o globo inteiro;

Eu sublevara as águas;

Eu dos vulcões com raios acendera

Amortecidas fráguas;

Do robusto carvalho e sobro antigo

Acurvaria as frontes;

Com furacões, os areais da Líbia

Converteria em montes;

Pelo fulgor da Lua, lá do norte

No pólo me assentara,

E vira prolongar-se o gelo eterno,

Que o tempo amontoara.

Ali, eu solitário, eu rei da morte,

Erguera meu clamor,

E dissera: «Sou livre, e tenho império;

Aqui, sou eu senhor!»


Quem se pudera erguer, como estas vagas,

Em turbilhões incertos,

E correr, e correr, troando ao longe,

Nos líquidos desertos!

Mas entre membros de lodoso barro

A mente presa está!...

Ergue-se em vão aos céus: precipitada,

Rápido, em baixo dá.


Ó morte, amiga morte! é sobre as vagas,

Entre escarcéus erguidos,

Que eu te invoco, pedindo-te feneçam

Meus dias aborridos:

Quebra duras prisões, que a natureza

Lançou a esta alma ardente;

Que ela possa voar, por entre os orbes,

Aos pés do Omnipotente.

Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem

Desça, e estourando a esmague,

E a grossa proa, dos tufões ludíbrio,

Solta, sem rumo vague!


Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam

O sono do existir;

Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças

Nas trevas do porvir.

Doce mãe do repouso, extremo abrigo

De um coração opresso,

Que ao ligeiro prazer, à dor cansada

Negas no seio acesso,

Não despertes, oh não! os que abominam

Teu amoroso aspeito;

Febricitantes, que se abraçam, loucos,

Com seu dorido leito!

Tu, que ao mísero ris com rir tão meigo,

Caluniada morte;

Tu, que entre os braços teus lhe dás asilo

Contra o furor da sorte;

Tu, que esperas às portas dos senhores,

Do servo ao limiar,

E eterna corres, peregrina, a terra

E as solidões do mar,

Deixa, deixa sonhar ventura os homens;

Já filhos teus nasceram:

Um dia acordarão desses delírios,

Que tão gratos lhes eram.

E eu que velo na vida, e já não sonho

Nem glória nem ventura;

Eu, que esgotei tão cedo, até às fezes,

O cálix da amargura:

Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado

De quanto há vil no mundo,

Santas inspirações morrer sentindo

Do coração no fundo,

Sem achar no desterro uma harmonia

De alma, que a minha entenda,

Porque seguir, curvado ante a desgraça,

Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa

Fragor da tempestade,

Salmo de mortos, que retumba ao longe,

Grito da eternidade!...



Pensamento infernal! Fugir covarde

Ante o destino iroso?

Lançar-me, envolto em maldições celestes,

No abismo tormentoso?

Nunca! Deus pôs-se aqui para apurar-me

Nas lágrimas da terra;

Guardarei minha estância atribulada,

Com meu desejo em guerra.

O fiel guardador terá seu prémio,

O seu repouso, enfim,

E atalaiar o sol de um dia extremo

Virá outro após mim.

Herdarei o morrer! Como é suave

Bênção de pai querido.

Será o despertar, ver meu cadáver,

Ver o grilhão partido.


Um consolo, entretanto, resta ainda

Ao pobre velador:

Deus lhe deixou, nas trevas da existência,

Doce amizade e amor.

Tudo o mais é sepulcro branqueado

Por embusteira mão;

Tudo o mais vãos prazeres que só trazem

Remorso ao coração.

Passarei minha noite a luz tão meiga,

Até o amanhecer;

Até que suba à pátria do repouso,

Onde não há morrer.


Alexandre Herculano, A Harpa do Crente

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Nós lembramos


Sandro Botticelli, O Abismo do Inferno, séc. XV-XVI


    Há qualquer coisa, na indumentária deste senhor, que deveria ser analisada, pois a Semiótica é uma ciência, não um acaso.

Jornal Observador

a “memória não é passiva”
in:

    Judeus, ciganos, negros, testemunhas de Jeová, homossexuais, pessoas com deficiência, alemães e opositores ao regime, minorias, pessoas doentes e debilitadas, doentes mentais, alcoólicos, algumas minorias eslavas, muitos polacos...e tantos outros, no ódio violento e ideológico...

UNESCO 

    Que o anti-semitismo vigente não nos cegue!
    Que a "ditadura da felicidade" ou a "cretinice digital" não nos volte a atirar para o abismo!


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Frio Janeiro



SIC- notícias (Nuvem prateleira sobre Ponte de Sor), Jan. 2026



FRIO JANEIRO 

Frio e luminoso mês de janeiro 
Em que as trevas assolam o país, 
Horizonte largo de brilho derradeiro 
Onde a Justiça se confunde na raíz. 

Frio ardiloso e este sol rotineiro 
Que pisa a herança da sua matriz. 
Sonho largo, abraço verdadeiro, 
Afeto, linha pura que sempre quis. 

Ergue-te e vela, a tirania espreita!
Ergue-te e sonha o largo horizonte 
No moribundo país que se estreita! 

Além na colina e aqui neste monte, 
Tua coluna frágil, moldável, endireita 
E olha em frente da tua reta fronte! 

                                                                     
                                 Ana Tapadas, SUL SERENO, p.52


    Caiu granizo e uma chuva intensa, e as nuvens partiram, a madrugada trouxe, então, as cores do improvável. O improvável está sempre à espreita e, na primeira ocasião, instala-se.


Hoje, de madrugada. 



    Não gostaria de envelhecer no país em que fui criança!
               (Sim, é uma metáfora.)