Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Ao velho Endovélico

 

Terena, Alto Alentejo - 2022

    
    Há lugares que abrigam o nosso ser com o afago de uma história antiga contada ao serão. Já caminhei por tantos lugares, mas aqui é o meu lugar.

Terena, Alto Alentejo - 2022


    Ainda que as poeiras do deserto me recordem perigos crescentes e toldem a vastidão da paisagem.

Terena, Alto Alentejo - 2022

    Poderia ficar, neste silêncio tão leve, imaginando as velhas defesas que  sobrepuseram as pedras. Então, os gritos dos homens ecoaram em línguas diversas...

Terena, Alto Alentejo - 2022

        A religião e a guerra deram-se as mãos, como sempre, nessa coincidentia oppositorum, onde os contrários se unem. Aqui, o templo se fez defesa militar.

Terena, Alto Alentejo - 2022

    Fala-me, antes, das rosas que sobreviveram aos calores deste estio ardente! Caminha comigo, por estas ruas desertas de casas habitadas para dentro!

Terena, Alto Alentejo - 2022

    Sentemo-nos aqui, escutando o silêncio, tecendo a esperança...


Terena, Alto Alentejo - 2022


                              O velho Endovélico zelará por nós.


Terena, Templo do Endovélico (wikimédia)














quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Iniciais

 



Doces são os dias outonais

sabem aos silêncios doces

iniciais

Tecem-se na serenidade

dos aromas mais antigos 

ancestrais


Ana




terça-feira, 13 de setembro de 2022

Desesperos...



Maluda, Alentejo


    Li desesperadamente, daquela forma quase alucinada que me entope o cérebro, tolda o raciocínio e distancia as emoções...sempre foi assim, nos ásperos dias de Agosto. Gosto de refugiar-me e de encontrar resguardo nos dias rectilíneos de cores e traços duros que a mão de Maluda captou como ninguém. A minha mãe morreu durante o ano lectivo anterior...ainda carrego o luto e o negro.
    O meu íntimo suaviza-se na dureza, já o sabes! Gosto de resvalar até ao meu limite, para recomeçar com um sorriso sereno. Assim se acomodam as emoções, se guarda a melancolia das perdas imensas que este ano me tem trazido.
    Nestes processos o Sul Sereno cala-se. É preciso que feche os poros emocionais todos e me exija os limites, para prosseguir. Quando, na juventude, pratiquei atletismo, correndo a meia distância, tinha essa mesma sensação: controlar-me, superar-me e fortalecer-me no suor do meu cansaço autoimposto. 
    Está, assim, recuperada a capacidade para sublimar a dor da perda e do luto e voltar a pisar a sala de aula com o leve sorriso e a exigência de sempre. Se me exijo, exijo-te! Só assim poderá ser... há anos a aluna Cátia chamava-me, carinhosamente, "a minha atleta", mas ela não sabia disto. Até hoje, interrogo-me qual seria o motivo...

Eléctrico de Ponte de Sor (treinando)

domingo, 21 de agosto de 2022

A ímpar visão

 

Acrópole, Atenas -  José Alves


De todos os ângulos te vejo,

Como num sonho!

Luz de sabedoria e pensamento,

Em tempo tão inquieto.

Como num sonho

Te quero e no âmago te desejo!

Quando te olho, me aquieto,

Serena senhora do momento.


Ana


domingo, 14 de agosto de 2022

Tempos estranhos




SINOPSE (WOOK)
"Nascido precisamente ao bater da meia-noite, no exato momento em que a Índia se tornava independente, Saleem Sinai é uma criança especial. No entanto, esta simultaneidade de nascimento tem consequências para as quais ele não está preparado: poderes telepáticos ligam-no a outros 1000 «filhos da meia-noite», todos eles dotados de dons extraordinários. Indissociavelmente ligada à sua nação, a história de Saleem é um turbilhão de desastres e triunfos que espelha o percurso da Índia moderna na sua forma mais impossível e gloriosa. Publicado em 1981, Os Filhos da Meia-Noite, segundo romance de Rushdie, não só deu notoriedade ao seu autor como se tornou num fenómeno de êxito literário.
A sua adaptação ao cinema é o resultado da colaboração da realizadora Deepa Mehta com o próprio Salman Rushdie, que não só escreveu o argumento como dá também voz ao narrador."


    Considerado um escritor do realismo fantástico, na linha de Gabriel García Marques, Günter Grass, Italo Calvino, Jorge Luís Borges e tantos outros grandes autores...é visto pelo islamismo radical apenas como alguém que abandonou a sua crença muçulmana e, como tal, deverá ser morto. É este o tempo estranho em que vivemos.
    O livro que escolhi para hoje foi o que mais gostei de ler. Não li todos e muito menos os seus ensaios, mas posso defini-lo como um grande autor. A sua obra de ficção é vasta (https://www.salmanrushdie.com/books/). Aos 75 anos não merecia ser o objecto da violência. Violência é sempre isso mesmo, sejam quais forem as suas motivações. É um pensador, coisa rara no mundo actual em que tantos espartilhos nos condicionam.
    Tenho amigos de todos os credos. A religião é algo íntimo e de outro domínio. Há quem dite que só a Fé nos salvará, eu prefiro acreditar que só a tolerância o poderá fazer. Como poderemos habitar este planeta, se não soubermos respeitar cada indivíduo?
    O medo colectivo parece tomar conta de todos, como no célebre poema de Drummond de Andrade (1940):

"Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."



    A nossa época parece dominada por um Medo que vai alastrando e que tudo contamina, terreno fértil para todos os horrores que a Humanidade tem a obrigação de conhecer pois, de muitas formas semelhantes, já os viveu.
    Sabemos, com Drummond, que este não é o tempo do lirismo - por mais belo que seja, o puro gozo estético não nos salvará!