Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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sábado, 28 de fevereiro de 2026

A Paz sem Vencedor e sem Vencidos

 


Algures no Médio Oriente - José Alves


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos




Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dual



segunda-feira, 23 de junho de 2025

Que estamos a fazer da Humanidade?

 

Cá de casa - Ana, 2025

   

É esta a hora perfeita em que se cala

O confuso murmurar das gentes

E dentro de nós finalmente fala

A voz grave dos sonhos indolentes.


É esta a hora em que as rosas são as rosas

Que floriram nos jardins persas

Onde Saadi e Hafiz as viram e as amaram.

É esta a hora das vozes misteriosas

Que os meus desejos preferiram e chamaram.

É esta a hora das longas conversas

Das folhas com as folhas unicamente.

É esta a hora em que o tempo é abolido

E nem sequer conheço a minha face.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar, 1947 (Poema com referência aos poetas sufis da Pérsia, Saʿdī e Ḥāfiẓ)


    Os meus amigos, que por aqui andam há mais tempo, sabem que tive uma viagem planificada para o Irão/Iraque no Verão de 2020, tendo no ano de 2019 percorrido Israel, territórios disputados, Cisjordânia, com uma incursão nos montes Golã...

    O projecto por cumprir ficou aqui: "Um chá na Pérsia"

https://raraavisinterris.blogspot.com/2020/01/um-cha-na-persia.html

    Conservo esse sonho de um dia ir à velha Pérsia. Não visito países, corro atrás da História. Do resto, falaremos depois...

    Num relance à mais banal das fontes, percebemos o que a, dita, conquista islâmica fez aos velhos textos persas...eles, sim, repositórios dos antigos preceitos, mitos e lendas sobre os quais construímos o nosso saber de europeus do Sul.

Pois...os persas não são árabes.


Literatura persa clássica
Literatura persa pré-islâmica

Sobreviveram muito poucas obras do período Aqueménida, em parte devido à destruição da biblioteca de Persépolis.[3]A maior parte do que ficou consiste nas inscrições reais dos reis Aqueménidas, em particular de Dario I (522-486 a.C.) e do seu filho Xerxes I. Muitos documentos Zoroastrianos foram destruídos aquando da Conquista Islâmica do Irão no século VII. Os Parsis que fugiram para a Índia, no entanto, levaram com eles alguns dos livros do cânone Zoroástrico, incluindo partes da Avestá e antigos comentários (Zenda) a esta. Algumas das obras sobre Geografia e viagens da época Sassânida também sobreviveram, apesar de em traduções para Árabe. Nenhum texto de crítica literária do Irão pré-islâmico sobreviveu. Contudo, alguns ensaios em Persa Médio, tal como o "Ayin-e name nebextan" (Livro dos Princípios de Escrita) e o "Bab-e edteda 'I-ye" (Calila e Dimna), foram considerados como crítica literária (Zarrinkoub, 1959).[4] (WIKI)




sexta-feira, 6 de junho de 2025

A guerra terá um fim


"Alegoria da Guerra", Brueghel




A guerra terá um fim.
Os líderes trocarão apertos de mãos.
A idosa continuará
esperando pelo filho martirizado.
Aquela moça vai esperar pelo
amado marido.
E essas crianças esperarão
por seu heróico pai.
Não sei quem vendeu nossas terras.
Mas eu vi quem pagou o preço.

Mahmoud Darwish (Tradução de Nelson Santander)

    Mahmoud Darwish (Al-Birweh, 13 de março de 1941 – Houston, 9 de agosto de 2008) - Nascido em Acre, na Galileia. É ele o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestiniano Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestiniano. Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina.


quinta-feira, 29 de maio de 2025

Florescer no deserto

 

Deserto do Neguev, 2019 


    Passaram-se os dias e o Rara Avis sempre assim foi - silencia-se quando o labor dos dias me solicita até ao excesso. Os meus amigos já conhecem o significado da minha ausência: é a vida a clamar por mim.
  Tanta coisa aconteceu, entretanto! Depois dos muito quilómetros, de tanta luz a ferir o meu olhar, cá estou de regresso.
  Resta-nos florescer no deserto! Talvez, naquele sentido da grande resiliência perante as tantas adversidades e tamanha aridez - a velha lição do Livro. 
  O sangue das guerras e o grito dos homens não parecem suficientes para calar o velho Deus - haverá, ainda, um Justo? 
 Quando, quase criança (culpa das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian) lia Rousseau, estava longe de imaginar no que se transformaria a sociedade e a natureza humana de alguns líderes sociais. Esse velho suíço (antes da Suíça) bem nos avisou que, sem uma sociedade que não corrompa a natureza humana, o Estado deixa de sobreviver. Talvez, por isso, o perseguiram e chamaram de "impostor". Conhecemos os seus limites teóricos e não é disso que aqui falo, já se sabe...
    
     
    

sábado, 9 de março de 2024

Nunca

 

Care.org - Sudão


Um pardal com saudades de seu lar,
Empoleira-se na janela do coração;
seus olhos têm anseio,
Ele se estica para olhar as casas,
Nos céus distantes,
Esperando por uma manhã alegre,
Carregada de promessas,
Para pousar como um turbante,
Nos ombros de sua pátria.

Com cada golpe nós mergulhamos em um abismo escuro,
A junta de pés pesados ​​sitia nossas canções,
Agitam nosso tinteiro, confiscam sua paz interior.

Eles envenenam nossa alegre primavera,
E colocam seus focinhos em tudo.

Mais um sonho agradável eles desfiguram,
Aos olhos de cada mãe.
Mas eles não conseguem nos silenciar.

Nunca.

Em suas celas bebemos,
o xarope da perseverança,
Para permanecermos,
firmes e corajosos.

Ó meus tempos de prisão,
Ó minhas dores,
de saudade
e de tormento,
Se eu perder o contato com você,
Quem, neste tempo de coerção, eu seria?

Se eu perder contato com você eu vou trair,
Os pequeninos que ainda estão por vir,
Se eu perder o contato com você,
Vaidoso e egocêntrico eu me tornarei.

Enquanto eu tiver uma voz em meus acordes,
Que prisão — ou mesmo a morte — pode me silenciar?

Não.
Jamais sucumbiremos.

Eles não têm nada a dizer
Quanto ao nosso destino.

Não, eles não têm!
Somos nós que trazemos a vida
Aos poros mortos da dormência.

Minha querida,
minha companheira de vida,
No mais alto respeito, sempre te manterei.

Ó minhas amadas filhas,
Aninhadas à sombra das pessoas gentis.

Ó espaço luminoso ainda ao alcance dos olhos:
Aqueça-me com suas saudações pacíficas,
Com suas cartas.

Dê minhas saudações aos meus pares;
Dê minhas saudações às nuvens;
Dê minhas saudações à terra;
Dê minhas saudações à multidão;
E às palavras de romance,
Nos cadernos da juventude.


Mahjoub Sharif, poeta do Sudão (tradução de Raad Abdullah Ferreira)



ONU








sábado, 28 de maio de 2022

Guerra


Max Ernst



Tanto é o sangue

que os rios desistem de seu ritmo,

e o oceano delira

e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue

que até a lua se levanta horrível,

e erra nos lugares serenos,

sonâmbula de auréolas rubras,

com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte

que nem os rostos se conhecem, lado a lado,

e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidos na lama…

Os olhos que já não pestanejam com a poeira…

As bocas de recados perdidos…

O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes…

Tanta é a morte

que só as almas formariam colunas,

as almas desprendidas… — e alcançariam as estrelas.


E as máquinas de entranhas abertas,

e os cadáveres ainda armados,

e a terra com suas flores ardendo,

e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,

e este mar desvairado de incêndios e náufragos,

e a lua alucinada de seu testemunho,

e nós e vós, imunes,

chorando, apenas, sobre fotografias,

— Tudo é um natural armar e desarmar de andaimes

entre tempos vagarosos,

sonhando arquiteturas.


                                         Cecília Meireles, in Mar Absoluto


sexta-feira, 1 de abril de 2022

Europa

 

Adolfo Casais Monteiro



Andam corridos os dias, como a brisa que varre a Ibéria. Do longe, apenas os ecos da guerra como uma hiena estranha que gritasse dos confins da minha planície. O tempo esgueira-se como uma sombra fugidia que se aquieta nas noites breves.
Temos o dever de sair dos pequenos mundos e das fechadas conchas em que nos abrigamos. Chego a olhar com desdém os poemas do "eu" que, agora, preenchem os meus dias de trabalho. O individualismo pós-Moderno não me preenche esteticamente, jamais teve essa capacidade. 
Ocorre-me, então, que alguns dos mais construídos poetas, teóricos e valorosos vultos da cultura portuguesa sempre ficaram excluídos de todos os programas escolares, mesmo os universitários.
Assim, remando contra essas marés, aqui deixo um poeta extraordinário para os dias que habitamos - Adolfo Casais Monteiro.

(excerto)



III

Na erma solidão glacial da treva

os que não morreram velam.


Em vagas sucessivas de descargas

A morte ceifou os nossos irmãos.


O medo ronda,

o ódio espreita.

Todos os homens estão sozinhos.


A madrugada ainda virá?


Vão caindo um a um na luta sem trincheiras,

e a noite parece que não terá nunca madrugada,

mas cada gota de sangue é agora semente de revolta,

da revolta que varrerá da face da terra

os sacerdotes sinistros do terror.

A revolta a florir em esperança

dos braços e das bocas que ficaram...


A traição ronda,

A morte espreita.


Uma comoção de bandeiras ao vento...

Clarins de aurora, ao longe...


Os que não morreram velam.


IV

Eu falo das casas e dos homens,

dos vivos e dos mortos:

do que passa e não volta nunca mais...

Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,

ah, não me venha com teorias!

eu vejo a desolação e a fome,

as angústias sem nome,

os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,

uma insignificante parcela de tragédia.

Eu, se visse, não acreditava.

Se visse, dava em louco ou em profeta,

dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,

— mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.

Olho num pasmo sem limites,

e fico sem palavras,

na dor de serem homens que fizeram tudo isto:

esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,

esta lama de sangue e alma,

de coisa e ser,

e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,

se o ódio sequer servirá para alguma coisa...



Deixai-me chorar — e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,

de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,

e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,

por momentos será nosso um pouco de sofrimento alheio,

por um segundo seremos os mortos e os torturados,

os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,

seremos a terra podre de tanto cadáver,

seremos o sangue das árvores,

o ventre doloroso das casas saqueadas,

— sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...


Eu não sei porque me caem lágrimas,

porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,

eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,

eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,

eu que estou na minha casa sossegada,

eu que não tenho a guerra à porta,

— eu porque tremo e soluço?


Quem chora em mim, dizei — quem chora em nós?


Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:

As ruas são ruas com gente e automóveis,

Não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,

e a miséria é a mesma miséria que já havia...

E se tudo é igual aos dias antigos,

Apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,

eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,

sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,

sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


“Europa” de Adolfo Casais Monteiro (Confluência, s.d.) é um poema premonitório. Foi lido aos microfones da BBC, na emissão de língua portuguesa, a 23 de Maio de 1945, por António Pedro. Era o fim da guerra europeia e havia uma grande esperança – a de que, depois da tragédia terrível, que tinha deixado o velho continente exangue, seria possível lançar as bases de uma paz duradoura. Como disse José Augusto Seabra, no prefácio à edição de 1991 (Nova Renascença): “Pela voz forte e timbrada de um intelectual então emigrado, António Pedro, esse poema, da autoria de Adolfo Casais Monteiro, um dos nossos mais corajosos poetas resistentes à ditadura, acordou em quantos o escutavam a esperança de que também para Portugal a hora da liberdade iria soar, na nova Europa que se erguia sobre o sangue e os escombros decorrentes da criminosa aventura totalitária hitleriana”.

                                                                                                                           

Guilherme d' Oliveira Martins



António Pedro, 1940


segunda-feira, 14 de março de 2022

Autocrator

 

google


Já no declínio do Império Romano, naquilo a que gostamos de chamar Império Bizantino, o imperador irradiava o seu poder indiviso e designa-se por Autocrator – palavra de origem grega que significava a centralização de todas as tomadas de decisão se centralizarem num indivíduo. Nesta matriz de poder unipessoal e absoluto, a Igreja submete-se ao autocrata.



A queda de Constantinopla (Fonte: Conhecimento Científico)


Quando o Império Bizantino caiu (1543) e, finalmente, acreditamos ter saído da Idade Média, outros impérios surgiram e novas idades médias se instalaram. A sedução do modelo autocrático de Bizâncio prolongou-se no tzarismo russo.  



Síria (11 anos depois)


As diversas formas de totalitarismos têm em comum esse olhar que vê nos povos a servidão medieval do seu senhor. Temos a obrigação ética de olhar em volta. Crescemos a ouvir falar das guerras, a olhar as guerras...como poderemos projectar o Futuro?



Somália


Como poderemos reconstruir o ser humano que emerge dos escombros, da propaganda, da banalidade envernizada...em que nós mesmos nos afogamos?
Que herança deixaremos aos vindouros?



Iraque (13/3/2022) Um dos edifícios atingidos pelos mísseis iranianos AZAD LASHKARI/REUTERS


Nota: um dia de 2019, subi aos Montes Golã. Disso aqui dei notícia.

domingo, 4 de novembro de 2018

Ao Deus de Espinoza...





"Orfeu Encantando os Animais", por Aelbert Cuyp, 1640



Baruch Espinoza nasceu em 1632 em Amesterdão, descendendo de judeus portugueses, e morreu em Haia em 1677. Foi um dos grandes racionalistas do século XVII, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.   
Em certos dias, apetece-me orar ao Deus de Espinoza... 




      
DEUS SEGUNDO ESPINOZA

"Pára de ficar rezando e batendo no peito!

O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e usufruas da tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que fiz para ti. 

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e

frios que tu mesmo construíste e que acreditas serem a minha casa.

A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas

praias.

Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti. 

Pára de me culpar da tua vida miserável:

Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, 

ou que tua sexualidade fosse algo condenável.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar 

o teu amor, o teu êxtase, a tua alegria.

Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer. 

Pára de ler supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.

Se não podes ler - Me num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus

amigos, nos olhos de teu filhinho...

não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais - me dizer como fazer o meu

trabalho? 

Pára de ter tanto medo de mim. 
Eu não te julgo, nem te
critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.

Eu sou Puro Amor.    Pára de me pedir perdão. 

Não há nada a perdoar.

Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres,

de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.

Como posso culpar-te se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso castigar-te por seres como és, se Eu sou quem te fez?

Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos

que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?

Que tipo de Deus pode fazer isso? Esquece qualquer tipo de

mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te

manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.

A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que

teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho,

nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.

Esta vida é a única que há aqui e agora, e a única de que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prémios nem castigos.

Não há pecados nem virtudes.

 Ninguém leva uma placa.
 Ninguém leva um registo.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso dar-te um conselho:

Vive como se não o houvesse.

Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.

Assim, se não há nada, terás aproveitado a oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não te vou perguntar se foste bem

comportado ou não.

Eu vou perguntar-te se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais

gostaste? O que aprendeste? 

Pára de crer em mim - crer é supor,
adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas

tua filhinha, quando acaricias o teu cachorro, quando tomas banho no
mar. 

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra acreditas, tu, que Eu seja?

Aborrece - me que me louvem. Cansa-me que agradeçam.

Tu sentes-te grato?
Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tuas relações, do mundo.

Sentes-te olhado, surpreendido?
 Expressa a tua alegria!
 Esse é o modo de me louvar.   
Pára de complicar as coisas e de repetir como

papagaio o que te ensinaram sobre mim.

A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este

mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisas de mais milagres?

Para quê tantas explicações?

Não me procures fora! Não me acharás.
Procura-me dentro de ti,
aí é que estou."



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Einstein, quando interrogado se acreditava em Deus, respondeu:

"Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo e na

harmonia de tudo o que existe.”

segunda-feira, 20 de março de 2017

Hu.ma.ni.da.de

Itália, Veneza


Há mundos líquidos, por onde correm os sonhos dos homens. Lugares idílicos, aonde se reinventam rumores de antanho. Primaveras secretas que arfam no peito dos lunáticos e dos amantes devorados pela paixão e, esta, paradigma do destino último da humana condição - a morte.

Secretos, intranquilos, mergulhamos na atonia e no caos.

Que restará desta geração que - absorta, edonista e irascível - se afunda lentamente, pasmada no plasma e na contemplação de si mesma?

Haverá lugares obrigatórios e guerras necessárias?

Já te amei em Veneza e cruzei o Trieste quando a guerra grassava tão perto...
Só te posso afirmar aquilo que sei: o amor está em qualquer lugar e o sangue dos homens não é a nossa herança comum nem constrói o futuro - não te iludas, todavia! 
Somos a Humanidade.


Ana


Líbia, Sirte









hu·ma·ni·da·de 
(latim humanitas, -atis)
substantivo feminino
1. O conjunto dos homens.
2. Natureza humana.
3. Género humano.
4. Bondade.
5. Benevolência, compaixão.

"humanidade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/humanidade [consultado em 20-03-2017].


domingo, 19 de junho de 2016

Recordando...

Salvador Dalí, 1936 (O Grande Paranóico)

« Eis o espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do cepticismo elegante. Desfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...», J. Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis



Sol