Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ignoto Deo

 

Atenas, Grécia

    Treze horas, pequena aldeia, dia quente de Outubro. Enquanto, lá longe, se agita o mundo em movimentos vertiginosos de um tempo estranho, estou aqui sozinha perante a campa dos meus pais e procuro uma oração. Só penso nesta sensação de quem está só, perante o infinito. Só palavras de vários poetas me enchem a memória...poderia ser de Antero de Quental, poderia ser de Régio, poderia ser de Garrett...todos viveram essa ideia perante um Deus ainda ignorado. 
   O apóstolo Paulo usou, sabiamente, esse "Ignoto Deo" dos gregos, para difundir a religião nova a que hoje chamamos cristianismo. Ah, onde estará, hoje, a tolerância desses atenienses antigos? Fazem-nos tanta falta! 
    Opto por trazer à memória José Régio, talvez pela desistência que me invade, neste momento, o espírito e pela certeza que sempre tive de que "Ele" não desistiu de mim.
   
    IGNOTO DEO

Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

José Régio, in 'Biografia'


Sem comentários: