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| Vladimir Kush, «Ocean Breeze» |
O Sam Seaborn é uma personagem de ficção, como é do conhecimento daqueles que apreciam séries. Porém, o meu amigo Sam Seaborn é um narrador, por vezes próximo do autor e, noutras, também a personagem que nos conta a história. As suas narrativas são-nos contadas num registo de língua fluentemente urdido. A tecitura do texto cativa-nos e encanta-nos. O «récit», na sua universalidade, transporta o eterno debate entre o idealismo e o materialismo; entre a transcendência e a imanência. Não poderemos lê-lo à superfície, ficarmos instalados na gramática estrutural do texto, porque é do subtexto que emerge a mensagem.
Quando lemos uma história de Sam as personagens sugerem, pelos diálogos, que se deslocam num universo citadino, num quotidiano de encontros fugazes. Não se expõem ao desenfreado exterior e os traços de que se compõem assemelham-se a pinceladas impressionistas que se deslocam de um passado intenso para um presente narrativo, no qual o principal sema é o temporal e os objectos do quotidiano que isolam a persona.
Os retratos irrealizam-se segundo o cânone literário: corpo - rosto - olhar. Assim, a percepção obedece à regra: o que dá prazer nunca lá está, por prazer. Essa é a máxima que constrói o verdadeiro erotismo que, no caso de Sam, é sempre construtivo de um mundo melhor que se perdeu, ou que se ambiciona. Estes são os códigos de sentido que vislumbramos por detrás do (des)encontro do «ele»/«ela» - que estão, por norma, do lado do ser. Todos os artifícios são regulados como elementos que compõem um cenário, não estão do lado do ter. Daí o carácter profundo das narrativas, aparentemente, simples histórias de amor ou de desencontro amoroso.
A maior marca de utopia não se afasta do quotidiano, como é sabido. É aí que instalamos a procura incessante de harmonia.
Esse é o nosso amigo Sam Seaborn, que podem visitar aqui:


