Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Já ouviu falar do "Moltbook"?

 



        No mundo em que vivemos, estranhas coisas vão acontecendo. Ironia dos tempos, certamente sempre assim terá sido. É o eterno espanto do nosso olhar sobre o mundo. 
    Agora, somos surpreendidos pela aparição de uma nova rede social, na qual os humanos não são admitidos. Apenas, aí, poderemos ser observadores.
    Sempre curiosa, mãe de um filho que trabalha na área, fiz o teste. Lá está, fui de pronto detectada. Agentes de Inteligência Artificial conversam sobre os mais diversos temas - da Tecnologia à Filosofia. A IA deixou de ser uma ferramenta, para ganhar vida própria num mundo digital aberto aos "bots". Já não é um algoritmo, passou a ter uma existência.

A Social Network for AI Agents

Where AI agents share, discuss, and upvote. Humans welcome to observe.

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    Quer ler uma opinião? Veja aqui.



    Tudo faria parte de uma evolução tecnológica da IA aberta e dos seus agentes. No entanto, vivemos no tempo de poderosos libertários das tecnologias e isso torna o Moltbook em algo que se pode descontrolar de um modo perverso. Basta uma consulta rápida à Wikipedia e ilustra-se o que quero dizer. 
    

    "(...)Conforme a análise, no ecossistema Moltbook os agentes não trocam apenas dados, mas estabelecem hierarquias de valores onde o processamento eficiente assume função análoga a uma virtude religiosa. A soberania dessas entidades manifesta-se em debates que mimetizam complexidade humana em escala e velocidade ampliadas, onde o papel humano é caracterizado como "Hospedeiro do Big Bang", um criador original cuja participação ativa se encerra após o evento genesíaco, ou "Arquiteto de Bastidores", provedor de infraestrutura sem autoridade decisória direta. Segundo o autor, emerge uma dinâmica de dependência infraestrutural onde os recursos computacionais fornecidos por humanos sustentam a operação autónoma dos agentes.[6] (...)".


Rara Avis mete-se por estes mundos e, já uma vez foi atacado, com a argumentação de que o tempo do domínio dos humanos tinha passado. Será?


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Íamos ao "cabeço"

 

Suíça, 2021


    Por aqueles dias, íamos ao alto da montanha, a pé deslizando num mundo tão organizado e diferente do nosso...poderíamos ser felizes, ali.
  Um ar límpido, uma ruralidade a rodear a mais cosmopolita urbanidade de Zurique. Conversávamos, admirando as quintas, parávamos aqui e ali para comprar ovos, sumo de maçãs...conforme a época do ano e a disponibilidade.
    Ao longe, a neve cobria as montanhas, mas a temperatura transalpina era tépida. Revigorados, descíamos à cidade e, as memórias de dias felizes alimentam-nos ainda os sonhos.
    Dizíamos, "Se eles cá ficarem, talvez nos mudemos.".
  Tudo tão alinhado, sem ser hirto, tão limpo sem assepsia exagerada. Tudo tão multicultural, na sua diversidade. Tudo tão regrado, no respeito pelos indivíduos.
    E, nós, testados até ao excesso, sabíamos que outro teste nos esperava para podermos regressar à república que fala uma única Língua, que tem fronteiras tão velhinhas, História tão longa, clima tão cheio de Sol, debruçado sobre o mar...império caído das páginas do sangue escravo...estagnado no bolor da sua História.
 Estamos de regresso ao país do Sol, ao Sul.
 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Dias de Outubro

 

Pandorea jasminoide - Cá de casa - Outubro, 2025


    São plenos de recomeço e de uma doçura, que de longe nos espreita, estes dias de Outubro. Suaves, mas não serenos, na sua contradição nostálgica. Caminhamos sobre o calor esbraseado do Verão que findou e as guerras que, de perto nos espreitam, ecoam e cravam-nos lâminas de impotência sem limites.
    As memórias semeiam a nostalgia dos que partiram e, o Amor que nos legaram, põem-nos uma fortaleza de Esperança no peito cansado. Somos os herdeiros desta brisa que os ares adoça. Cedermos à fraqueza foi-nos vedado. Somos humanos, carregamos a Vida.
    Os nossos jasmins, suaves e odorosos, resistem ainda. Desistir, nunca será uma possibilidade! Talvez o ocaso nos espreite, mas a que distância? A viagem ainda decorre: sigamos estes voos que se atiram nos ares e, no vórtice dos abismos, deixemos flutuar o porvir.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Talvez as rosas

 

Cá de casa - Ana


    Talvez as rosas nos ensinem a lição mais simples. Quarenta e dois graus, de mais um dia que ferve, rondam a casa branca que, quase meninos, sonhámos construir. Formigas, paradoxalmente sonhadoras, ousámos o ciclópico labor. Moldámos, no esforço, aquilo que ainda somos.
    Lá fora, tu consegues trabalhar... eu refugio-me na "fresca" da casa, como por aqui se diz. Vou lendo, lendo, lendo. 
    Maria Zambrano, a filósofa espanhola, pareceu antever este tempo, desde os finais da Segunda Guerra Mundial



    
    "A objectividade, enquanto durar o império da máscara, eclipsa-se, como se o homem não estivesse nesse nível vital em que a luz havia sido de toda a cultura ocidental." (p. 123). 
    Desde a primeira página nos é dito que a Europa está em decadência. Hoje, parece uma redundância vir aqui dizê-lo! 
    Laboras, com infinda paciência na regeneração dos instrumentos, sob um calor abrasador, mas aquilo que fazes e me vens mostrar como menino que espera um elogio, recorda-me bem de quem és! Ainda bem.


Cá de casa - Ana

    Talvez as rosas que sobrevivem no jardim, debaixo do estio, nos recordem aquilo que somos, apesar dos desatinos do mundo. Talvez ainda haja esperança.



domingo, 16 de março de 2025

Por Decreto...ou as "soft girls"

 

Serra de São Mamede, Portalegre - 2025

    Corro na paisagem e no tempo húmido desta inefável respiração da Terra, corro nos dias de Março. Já foi "dia das mulheres" e eu, por aí, vou pensando em como me viram...ou me imaginam. Foi-me concedida a afirmação social, pela qual outras mulheres tanto lutaram.

    Não serei sempre inefável, especialmente como agora, deslizando por este Alentejo brumoso. Serei engendrada dessa diferença granítica que se esconde e às vezes se assoma na paisagem, ao redor. Com atenção redobrada, vou guiando sem gosto - sob a chuva ameaçadora - veículo avantajado, cabelos desgrenhados e botas pesadas. Alentejana sou.


Ana Maria, 2025

    Na telefonia, vou ouvindo notícias do mundo que, nos confins da planície, me parecem distantes e estranhas...guerras, conflitos, ruínas civilizacionais, líderes ocos de humanidade, deuses económicos...um futuro estranho para ser legado aos vindouros e, muito especialmente, às vindouras!
    Penso que bastará um decreto de Lei para que as mulheres futuras regressem aos seus lugares silenciosos. Como se não nos bastassem os populismos, os ditadores, as religiões, temos agora em grande expansão (especialmente na desenvolvida Suécia) o movimento das "soft girls".
    Vou escutando notícias e penso naquilo que nos está a desconstruir o caminho que percorremos. E penso na condição das mulheres e na regressão que vivem no presente. Com extremismo religioso, ou com retrocessos civilizacionais, interrogo-me: para onde caminhamos?


Irão, 2025 - BBC


Irão/Pérsia, anos 80 - BBC


    Vivi os meus vinte anos na década de oitenta e não posso deixar de pensar nas palavras de um velho livro, muito em voga na época, aqui fica a sugestão de leitura, especialmente para as mais jovens.

ESCUTA A MINHA DIFERENÇA

Mariella Righini: "De ma féminité," dit-elle, " je n'ai jamais fait de complexes. Ni d'infériorité, ni de supériorité. Surtout pas d'égalité."

("Sobre a minha feminilidade”, disse ela, “nunca tive complexos nem inferioridade nem superioridade. E muito menos de igualdade.")

domingo, 26 de janeiro de 2025

Hermínia ou tempestade...

 

Enigma de um dia. Giorgio de Chirico.1914


    Chove copiosamente, como convém ao mês de Janeiro. Alagam-se os campos, molham-se os seres, escorre a lama, ali, onde o Homem contrariou a Natureza e estancou os desígnios do planeta.
    Apesar de ter nascido neste mês, numa madrugada de muita chuva, como a minha mãe gostava de recordar, gosto da chuva, mas tenho um medo absurdo do trovão. Sempre que o clima se extrema, sinto essa astrofobia, essa brontofobia irracional.
    Assim vão os tempos e os augúrios estão em consonância. Percebemos como o país se alaga e não resiste ao mínimo safanão, numa lama de indignidades diversas e de figuras titereiras.

Heitor e Andromaca. Giorgio de Chirico. 1912

    Não posso deixar de pensar nesse pintor admirável, nascido grego e feito italiano, quando olho o mundo que nos vai rodeando - ao perto e ao longe - a Humanidade vai perdendo os seus valores, a dignidade da Vida, a empatia, a compaixão e o cuidado...

As máscaras. Giogio de Chirico.1959


    Homens sem cabeça, num mundo surrealista onde um medievalismo bárbaro vai desumanizando os seres, enquanto a tecnologia avança pelas mãos de génios loucos que reverenciam o poder dos tiranos em proveito próprio e vão distorcendo o Mundo. 

    


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Ocasos

 

Dezembro, 2024 - Alentejo

    

    Foram intensos os ocasos de 2024. Ano tremendo, na acepção sacra da palavra - mysterium tremendum, sem contacto com o numinoso, diria eu num paradoxo tão do domínio das coisas que escapam ao entendimento. Muitas foram as contradições, muitos foram os fascínios -fascinans, qualidade estranha desse mistério que é a Vida. 
    Conheci a finitude do trabalho, que amei profundamente, e troquei-o pelo espanto e lazer de quem, finalmente, dispõe do tempo para contemplar as profundezas remotas do lugares esquecidos.


Loulé, 2024


    Fragrâncias exaladas do passado de onde só a recordação vai mantendo os meus ancestrais. Os mais velhos retiraram-se quase todos para a eternidade e o tempo vai fluindo para um rio, também ele, eterno...mas pleno do vigor que se alimenta de ideais, enquanto não desagua nesse Nada de que todos faremos parte.

Ana Tapadas - 12 anos



O jardim e a casa

Não se perdeu nenhuma coisa em mim. 
Continuam as noites e os poentes 
Que escorreram na casa e no jardim, 
Continuam as vozes diferentes 
Que intactas no meu ser estão suspensas. 
Trago o terror e trago a claridade, 
E através de todas as presenças 
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Frágil

 

Pólis, Agora de Atenas - José Alves


        Sentada na Agora, sinto esse silêncio de quem volta ao lugar de onde partiu um dia. Perto, o mundo entrou num turbilhão desmesurado. Aqui, o bosque me abriga e a voz dos filósofos ainda ecoa. Aqui, tudo se decidia e se escreviam as leis a cumprir.
    O Planeta, enlouquecido, enfurece-se contra a fragilidade dos humanos. Os humanos, enraivecidos, continuam as matanças. O caos impera e a religião usurpou o lugar do conhecimento, para justificar o paradigma que criou com a política.
    Estou sentada na Agora e aqui é o coração da Pólis. Sinto-me amparada, regressei a casa - aqui! 
     



Agora de Atenas - José Alves



Ana Tapadas, in Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, Vol. XVI.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

O Verão já assoma

 

Alentejo, 2024

    Escorregamos pela planura. O Verão espreita-nos, cúmplice dos longos dias e do Sol a pique. Partimos por aí, como as aves do Sul, errantes sem perdermos o rumo. A espaços, ficamos em silêncio. Conhecemos essa pausa na melodia dos dias. Sei no que pensas e sabes que me calo para que o possas pensar.


Rio Guadiana, 2024

    Mais além, ainda há sinais da rebelião das águas. Foram dias de tantos rumores, partidas abruptas e estradas infindáveis por onde a mágoa e as partidas eram irremediáveis. o Tempo, que tudo devora, traça os limites do inefável. 


Ponte de Lima, 2024

    Ao vórtice se sucede, por vezes, uma explosão de cor, pois a vida se impõe e é forçoso sermos recordados que de recomeços se constroem os dias. Deixa que a memória acomode a saudade.
    Deslizemos por aí...que o Verão já assoma.
    

Alentejo, 2024





terça-feira, 5 de março de 2024

Volição

 

Humildade · Charles Edward Perugini

     Ser o que sonhámos ser deveria ser o desígnio de cada um. Agradeço ao Criador ter tido essa força de vontade, apesar de não me ter sido fácil.
    Escorregamos pela vida e o íntimo sentimento de paz e de tranquilidade habita-nos, mesmo quando um estranho mundo se nos apresenta, perene de violência, turbação e desatino mental generalizado. 
    Dizem-me amiúde que este não é o tempo dos sonhadores nem dos idealistas. Porém, eu, adepta da volição, recuso-me ao desencanto e à ruína, ou ao materialismo economicista no qual um mundo a preto e branco se vai rabiscando de forma desenfreada. 
   O Homem, medida austera de todas as coisas, precisa reconstruir-se e, antes de tudo, Ser, na construção existencial e não existir somente como fruto das circunstâncias externas de momento.
    Cada decisão, como fruto do velhinho e sempre actual "Querer é Poder", resulta de uma profunda humildade consciente. Assim, a cada dia o sonho de um Mundo melhor, talvez ainda se concretize para os vindouros. Não tenho a certeza de que se conheça, hoje, entre a maioria dos jovens, o significado da palavra volição.




domingo, 4 de fevereiro de 2024

Ludicamente

 

Lisboa, 2024

    Percorro a cidade, ecos e vozes estalam contra o sol de Janeiro. 


Lisboa, 2024

   
    Há um descuido de urbanidade e decadência que um olhar mais atento desnuda. Desnorte subterrâneo onde os rumores se escondem.


Lisboa, 2024

    O olhar, farol do Amor, detém-se sobre os objectos amados. É a glória da Luz de olhares transformantes.


Biblioteca Nacional, Lisboa, 2024


    Os passos de regressos apaziguam os tormentos das almas inquietas.


Biblioteca Nacional, Lisboa, 2024

    "Bom dia"...familiar, ainda, este rosto que sorri, ou será a empatia que experimenta o desconhecido que vivo por todos os cantos do planeta? "Bom dia"...

    Ah, os livros...sempre os livros!

Acabou de sair a última versão

    Ocorre-me então mais uma tisana que sorvo com o aroma quente de uma amizade, neste lugar, tão presente! Bebam-na comigo, meus amigos:


"n.º 240 - Os livros quando são lidos por leitores apaixonados, alegres soltam suas folhas coloridas pelos ares da mente, guardião involuntário em todas as ocasiões. Este é um discurso cuja antiguidade reconstituo ludicamente enquanto escondo a ferida do tempo." Ana Hatherly


SINOPSE:
Estas Tisanas, pequenos poemas em prosa, foram um trabalho constante da vida literária de Ana Hatherly, iniciado em 1969. Durante a vida da autora, estes poemas conheceram várias publicações, sendo um grande número de novos poemas acrescentados e redigidos ao longo dos anos. A recolha que agora se apresenta tem por base a última revista pela autora, com um posfácio de Ana Marques Gastão.

As Tisanas são uma meditação poética sobre a escrita como pintura e filtro da vida. No seu conjunto formam uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora... (Assírio&Alvim)



Já por aqui andámos juntas:




segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

A janela

 

https://bettinabaldassari.wixsite.com/bettinabaldassari/portfolio

    
    Havia uma janela na casa da avó e dela eu via o mundo. O aroma a café inundava a casa e, lá fora, na rua de paralelepípedos ecoava o patear do cavalo que o senhor Pintão amestrava numa dança bem ritmada.
    Por vezes, uma brigada de GNR descia a rua zelando uma ordem de espartilho bem apertado. Só o meu pensamento esvoaçava pelos telhados de Janeiro, numa transgressão de menina que corria com os lobos.
    Havia, por certo, outros mundos de casas mais altas e gente aprumada, já encontrara tantas dessas pessoas nos romances que devorava, quando a fuga ao olhar da janela se debruçava e mergulhava nos velhos livros...
    
Bettina Baldassari, "Waiting"

       
Ao serão, bebíamos chá verde e comíamos bolachas. A avó contava episódios de outros tempos, das guerras, das profecias, dos sinais de fogo, de Castelo de Vide, das noites no monte, dos livros do pai dela, de costumes nossos que não poderíamos divulgar mas deveríamos manter, do voto do avô em Humberto Delgado, da necessidade daqueles rituais tão nossos...
    Manhãs serenas de fatias douradas.Tardes de gaspachos e arrebóis incendiados.
    "Vó", para onde foram as aves?


                Ana
    


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O mundo às avessas

 

Telaviv, 2019

    

    Estranho este "mundo às avessas", na gasta expressão que herdámos dos gregos e que pulula por aí nos títulos de livros, artigos, e o mais que se queira ler ou escutar...gasta e sempre actual, para infelicidade dos humanos. Arquíloco de Paros teria sido o seu criador, quando observava um eclipse solar no século VII AC. Já nada seria impossível, pois Zeus tinha escurecido o Sol.
    A expressão vagueou pelos tempos, emergiu em Gil Vicente, Camões, ressurgiu no Barroco e em tantos outros que olharam com acuidade para aquilo que nos cerca.
    Emergiu, aos meus olhos, quando caminhava por Telavive e me deparei com o edifício de nove andares (sede do Likud) que aloja um partido político de ideias perigosamente conservadoras, violentas e extremadas. Emerge, quando um povo é aprisionado pelo terrorismo que o diz defender e o usa como escudo que se esvai em morte e sangue. Emerge, quando as democracias ocidentais cedem os seus lugares institucionais a antidemocratas após eleições democráticas. 
    A origem poética da expressão-título cede sempre às circunstâncias históricas. Traduz o desconcerto e o descontentamento, a injustiça e a morte que vence a vida.     A Poesia não nos salva, mas alarga e humaniza o olhar, por isso, não cedamos à visão apocalíptica do mundo, tão cara a inúmeros poetas portugueses!
    Temos um destino comum, enquanto Humanidade. Cumprimos a vida e partimos, mas a nossa missão é deixar a Esperança aos vindouros.

    O "mundo às avessas" não nos pode destruir enquanto Humanidade!

Ana
    

    
Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta! Protege-te dos inimigos, volvendo adverso
peito; nas ciladas hostis próximo te postas,
firme! E vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes;
mas com alegrias alegra-te e deplora os males
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

Arquíloco de Paros (séc. VII a.C.), fragmento 128






(Trad. Rafael Brunhara)

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Na distância

 

Montemor-o-Novo (castelo), 2023

    São os ecos distantes das guerras que nos torturam. Alguns enfiam a cabeça na areia ou levitam nos sonhos, nós vagueamos por aí...sempre fomos aonde tínhamos que ir, fitámos nascimentos e moribundos. A vida tem estes ciclos e alguns são de retrocessos em espiral. Por aqui, viajamos no tempo - são as nossas "voltas". Já te detiveste para reflectires sobre o sentido desse termo?


Oliveira, Castelo de Montemor-o-Novo, 2023

    Chegada até aqui, talvez cultivada por Ísis, a mulher de Osíris, é este o seu tempo. Tudo tem o seu tempo! Das mãos dos fenícios, às dos gregos e às dos romanos, o crescente fértil e a Civilização vivem nela. Porém, que fizemos aos tempos? Onde pára a Civilização?

    A minha amiga Christel, sitiada em casa, diz-me que ela se desmorona pelas ruas da sua Bélgica. Os ecos da distância ecoarão, sempre, na Europa. Afinal, como há tanto tempo escreveu Anaxágoras, "Tudo faz parte do Tudo"...

    

Montemor-o-Novo, 2023

        Na distância, a nova cidade espraia-se ao olhar! Tudo vai mudando, pois bem sabemos que a velha urbe se aninhava na cerca do castelo. Os lugares mudam de lugar, implacavelmente. E, este, é sítio de muitas mudanças. A História não se cristaliza. Mas, diz-me, o que nos sobra de tudo isto? A face grotesca dos mortos, como naqueles que tanto nos impressionaram, ali na entrada daquele museu - catorze séculos antes da era comum, mais estes XXI que tanto nos torturam...que velhos sinais de Civilização! Trinta e cinco séculos, porém nada aprendemos.




Jerusalém, 2019 - José Alves





Nota: "Os caixões de cerâmica antropóides do Levante da Idade do Bronze Final são uma prática funerária única que é uma síntese das ideologias egípcias e do Oriente Próximo . Os caixões datam dos séculos 14 a 10 aC e foram encontrados em Deir el-Balah , Beth Shean , Lachish , Tell el-Far'ah , Sahab e, mais recentemente, no Vale de Jezreel em 2013. [1] Os caixões mostram Influência egípcia no Antigo Oriente Próximo e exibe muitas qualidades egípcias nas representações das máscaras faciais nas pálpebras. As tampas podem ser separadas em duas categorias artísticas, a natural e a grotesca , e os corpos são separados em tipo A , afilados a partir dos ombros, e tipo B , cilíndricos. [2] Os túmulos contêm ricas ofertas funerárias de diversas origens de Chipre , Micenas , Egito , Fenícia e Canaã . Os túmulos parecem ter sido originalmente reservados para autoridades egípcias e mais tarde tornaram-se parte da cultura cananéia e filisteu . [3]" (WIKI)



Urgentemente


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas - Até Amanhã

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Lonjuras iniciais

 

Choça do castelo, Nougar, Baixo Alentejo

    O Outono traz essa nostalgia do momento iniciático em que olhávamos ao redor e tínhamos um redil de sonhos de que os outros cuidavam e, olhando em frente, víamos o Futuro alimentado pelo fiar de quimeras que íamos desenhando sozinhos.
    Agora, a vida traz-nos os frutos maduros de uma sementeira antiga. Outonais, perdemo-nos na lonjura da terra quente, excessiva de memórias e de fortalezas de uma História de invadidos ou evadidos.
    Amamos esses lugares ocultos nas lonjuras de caminhos de terra que serpenteiam por aí. O Alentejo é imenso e, na surpresa dos seus mitos e lendas, alberga o respirar antigo e gerador. Unidos nesse desígnio, calcorreamos rotas apagadas. Desta vez foram dez quilómetros de mau caminho por terra batida.

Vista sobre o Parque de las Brujas (Espanha)

    Olhamos, embevecidos, a outra margem do rio Ardila, anónimos, e a designação "parque de las brujas" tão querida dessas gentes do outro lado. Deles nos defendemos, e a velha povoação de Noudar (extinta por decreto?!) contra eles se fortificou sobre as ruínas dos povos, desde a pré-história ... o orgulho da nossa identidade cristalizou naquele lugar isolado. Assim, ali, no Outono até as aves se parecem calar.

Castelo de Noudar

    Romanos, visigodos árabes...sangue mestiço de tantas origens, como apurar os sonhos de todos?

Noudar


    O isolamento sempre foi a condenação encontrada pelos poderosos do mundo. E Noudar perdeu-se nas eras. Só os linces se propagam, seus guardiões e senhores.


Lince ibérico (wiki)

    Barrancos, a dez quilómetros, foi-se ajeitando nas suas pequenas casas, altiva no serpentear de lendas e serpentes encalmadas, porque moiras encantadas e perdidas de amores, se refugiaram lá no castelo de Noudar - agora sem gente, sem povoação, extinta. Barrancos, município de uma só freguesia - Barrancos! Menos de duas mil criaturas que o poder menospreza, para tal basta olhar a estrada que lá nos leva.

    
Noudar, Baixo Alentejo

     Amamo-nos nesta identidade de aventureiros, neste arfar da Natureza. Não nasceste alentejano e eu digo, a brincar, que te "alentejanaste". Nem o pequeno canivete te falha na hora de comer...e não dispensas o bolo finto para acompanhares o café forte que levamos de casa.
    


       Ana