Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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domingo, 4 de fevereiro de 2024

Ludicamente

 

Lisboa, 2024

    Percorro a cidade, ecos e vozes estalam contra o sol de Janeiro. 


Lisboa, 2024

   
    Há um descuido de urbanidade e decadência que um olhar mais atento desnuda. Desnorte subterrâneo onde os rumores se escondem.


Lisboa, 2024

    O olhar, farol do Amor, detém-se sobre os objectos amados. É a glória da Luz de olhares transformantes.


Biblioteca Nacional, Lisboa, 2024


    Os passos de regressos apaziguam os tormentos das almas inquietas.


Biblioteca Nacional, Lisboa, 2024

    "Bom dia"...familiar, ainda, este rosto que sorri, ou será a empatia que experimenta o desconhecido que vivo por todos os cantos do planeta? "Bom dia"...

    Ah, os livros...sempre os livros!

Acabou de sair a última versão

    Ocorre-me então mais uma tisana que sorvo com o aroma quente de uma amizade, neste lugar, tão presente! Bebam-na comigo, meus amigos:


"n.º 240 - Os livros quando são lidos por leitores apaixonados, alegres soltam suas folhas coloridas pelos ares da mente, guardião involuntário em todas as ocasiões. Este é um discurso cuja antiguidade reconstituo ludicamente enquanto escondo a ferida do tempo." Ana Hatherly


SINOPSE:
Estas Tisanas, pequenos poemas em prosa, foram um trabalho constante da vida literária de Ana Hatherly, iniciado em 1969. Durante a vida da autora, estes poemas conheceram várias publicações, sendo um grande número de novos poemas acrescentados e redigidos ao longo dos anos. A recolha que agora se apresenta tem por base a última revista pela autora, com um posfácio de Ana Marques Gastão.

As Tisanas são uma meditação poética sobre a escrita como pintura e filtro da vida. No seu conjunto formam uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora... (Assírio&Alvim)



Já por aqui andámos juntas:




quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A Neo-Penélope

Figueira da Foz, 2018 - José Alves


Foi aqui que em 2015 - e de luto recente pelo meu pai - li a notícia da morte de Ana Hatherly. Chegara ao planeta a 8/5 e partia a 5/8...posso até imaginar algumas correspondências pitagóricas que faria a propósito destas datas. Leio um livro que comprei na feira vizinha e cujo título é, curiosamente, Grécia Mágica - o fogo secreto dos gregos - obra ligeira e especulativa, mas ainda assim, interessante e adequada à ligeireza destes dias.
Subitamente, a D. envia uma mensagem. Investiga o espólio da Autora e...lá está uma das minhas cartas. Mestra e amiga, Ana Hatherly guardou-a. Sinto uma nostalgia que o dia não dissipa. Também eu recebi cartas que guardo... Afinal, o segundo «post» deste blogue foi-lhe dedicado ( De Cuba a Bassorá). Eu conheci a professora e vislumbrei a pessoa por detrás do olhar límpido e azul. Soube, de viva voz, alguns dos seus dramas íntimos - perdas irreparáveis. Conheci-lhe aquela vaidade de quem tem consciência de estar acima do provincianismo bacoco. Soube-a resistente,multifacetada e inconformada.


Com um lápis na mão

Ontem 
Estive pensando em ti
Com um lápis na mão.

Era um desafio
Uma maneira de enfrentar uma crise
Mas era um filtro

Queria escrever-te
Escrever-te veladamente
Escondendo o meu tormento
Atrás de um tecido sedoso de palavras.

Mas não consegui.
O lápis permaneceu imóvel.
Dentro de mim
Só se ouvia uma voz que dizia:
Cala-te! Cala-te!

Ana Hatherly, in Neo-Penélope, p.18








sábado, 9 de março de 2013

Esta Gente / Essa Gente



O que é preciso é gente

gente com dente
gente que tenha dente 

que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente


só é dominada por essa gente


quando não sabe que é gente

                                     Ana Hatherly, in Um Calculador de Improbabilidades



Aqueles que aqui vêm há mais tempo sabem bem como admiro Ana Hatherly. 
Foi minha professora e tínhamos uma enorme cumplicidade. Que bom saber que continuamos a tê-la.

http://raraavisinterris.blogspot.pt/2008/03/ana-hatherly.html

http://raraavisinterris.blogspot.pt/2009/03/arte-do-suspenso.html