Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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domingo, 15 de março de 2026

Sem precedentes...para onde caminhamos?

 

Kabiny" (ou "Cabins") do artista surrealista polaco Jacek Yerka


Declaração Universal dos Direitos Humanos

Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948.


Preâmbulo

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,

Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade e que o advento de um mundo em que mulheres e homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum,

Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão,

Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações,

Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos fundamentais do ser humano, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos do homem e da mulher e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla,

Considerando que os Países-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais do ser humano e a observância desses direitos e liberdades,

Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

Agora portanto a Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade tendo sempre em mente esta Declaração, esforce-se, por meio do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Países-Membros quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.

Artigo 1
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

Artigo 2
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.

Artigo 3
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo 4
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Artigo 5
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Artigo 6
Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.

Artigo 7
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo 8
Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Artigo 9
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo 10
Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir seus direitos e deveres ou fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.

Artigo 11
1.Todo ser humano acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte de que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

Artigo 12
Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo 13
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio e a esse regressar.

Artigo 14
1. Todo ser humano, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
2. Esse direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

Artigo 15
1. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo 16
1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.
3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.

Artigo 17
1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.

Artigo 18
Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.

Artigo 19
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

Artigo 20
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo 21
1. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; essa vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.

Artigo 22
Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo 23
1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo 24
Todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas.

Artigo 25
1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Artigo 26
1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos do ser humano e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Artigo 27
1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.
2. Todo ser humano tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica literária ou artística da qual seja autor.

Artigo 28
Todo ser humano tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.

Artigo 29
1. Todo ser humano tem deveres para com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

Artigo 30
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

IRMANDADE


Odilon Redon, "A Morte de Buda"


Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octávio Paz



quarta-feira, 11 de março de 2020

Pandemia...

 María de los Remedios Alicia Rodriga Varo y Uranga
N. 1908, Anglès (Gerona), España
M.1963, Ciudad de México, México

Gostaria de um discurso íntimo e feliz. 

Remedios Varo

Gostaria de falar-vos destas pintoras invulgares. Mulheres inquietas e visionárias. Mulheres, heroínas da normalidade dos dias atormentados.


 Leonora Carrington
N. 1917, Lancashire, Inglaterra
M. 2011,Ciudad de México, México

Gostaria de recordar que as duas viveram duas guerras que assolaram o mundo. 


 Leonora Carrington
E nos seus olhares o caos se tornou uma mágica desordem. A beleza pode ser assim: conjuga uma harmonia entre o diurno e o nocturno.

Tenhamos a serenidade dos que contemplam, mas a acção dos fazedores de um mundo novo, no qual o medo seja apenas usado de forma luminosa para nos levar a agir contra aqueles que, na sombra, o usam para do caos reerguer nova ordem!


A cidade inteira, 1936 por Max Ernst (1891-1976, Germany) |  | ArtsDot.com
«A cidade inteira», Max Ernst


Gostaria de dizer-vos que não seremos despersonalizados e não afirmaremos, como Max Ernst, depois da guerra. De nós não falaremos na terceira pessoa:

“Max Ernst morreu em 1.º de Agosto de 1914. Ressuscitou em 11 de Novembro de 1918, na forma de um rapaz que queria ser mágico e pretendia descobrir os mitos de seu tempo”. (Wiki)


sexta-feira, 5 de abril de 2019

Imagine...

Rob Gonsalves


O tempo voa, flui, ocupa-se dos outros. A seguir, escutamos a imensa cacografia do mundo que nos rodeia e percebemos que o tempo voa...É tão bom sabermos que os outros nos esperam, escutam e acreditam, ainda, que temos uma força insuperável. Teremos, nós, essa força? Sem dúvida! 
Estão aí os tempos: são de luxo e de lixo; de pão e de circo; de ideais e de banalidades.
Temos um dever, ainda: o de desocultar a superficialidade para onde nos pretendem atirar as gerações mais novas. Somos guardiões do passado e há testemunhos para legarmos.

Aí tenho estado.


Ana

domingo, 28 de outubro de 2018

Cega e Paralisa


Portinari, Guerra e Paz, ONU



No ano de 1940, um grande poeta brasileiro, escrevia um poema intemporal a que deu o sábio título de «Congresso Internacional do Medo». Imperioso lê-lo, hoje, quando o mundo se agita em desequilíbrios de toda a ordem e no momento em que muitas sombras espreitam. 
O Medo cega e paralisa a consciência humana.



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


                                                        Carlos Drummond de Andrade


Portinari FB Mão - Estudo Guerra e Paz
Cândido Portinari, A Construção de uma Mão



“Não, essa ameaça da barbárie fascista não desapareceu totalmente. Por isso, apelamos sempre para uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massas, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos. A todos aqueles e aquelas que construirão o século XXI, dizemos com carinho: criar é resistir. Resistir é criar”.


Stéphane HESSEL, Indignai-vos!, 2010

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

«Vieram uns sábios...»


Giotto, Capela Arena, Pádua, séc.XIV



«Quando entraram em casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorarem. Depois apresentaram o que traziam para lhe oferecer: ouro, incenso e mirra. Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra, por outro caminho.» 
                                                                                                                    (Mateus 2:11-12)



É admirável como as narrativas se alteram ao sabor das circunstâncias. O Povo di-lo de modo simples: quem conta um conto, acrescenta um ponto. 
Vem isto a propósito daqueles sábios que terão vindo do Oriente até Jerusalém esclarecer uma velha profecia. Somente um excerto bíblico, esse que transcrevo, nos dá notícia de tal acontecimento. Não nos fala de gruta, não nos diz quantos eram, não lhes atribui nenhum nome e, muito menos uma raça humana. Eram sábios, não necessariamente Reis. 
Sim, conheço os escritos apócrifos. Sim, conheço as primeiras representações romanas existentes no Vaticano. Não, o culto a Mitra não deriva neste relato dos,ditos, três reis magos. 
Se representam o senso messiânico dos sábios, óptimo! 

Basta-nos olhar as primeiras pinturas e a iconografia católica e a ortodoxa, para percebermos que, inicialmente, as representações os mostravam em número variável e da mesma origem étnica. 


Leonardo da Vinci, Uffizi, Florença, séc. XV

E o que dizer do quadro inacabado do génio? Tentação de todos os interpretes...ou deste quadro de Sandro Botticelli, no qual a iconografia assume o rosto dos homens da família Médici? 



Sandro Botticelli, Uffizi, Florença, séc. XV


Hoje, a ideia de «vieram uns sábios» é objecto de plástico ou o que mais se possa vender/comprar.  Esta é a narrativa do nosso tempo: entre o folclore e o descartável. 

Ana




quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Aparências

 «O esperado», Ferdinand Georg Waldmüller

O aparente e o verdadeiro lutam para uma confusão constante. A sociedade ocidental formatou, há muito, o nosso olhar. Um universo de aparências povoa os dias e a autenticidade perde-se num mundo de máscaras hipócritas.  Até quando, alimentaremos teias de ignorância? Até quando, pactuaremos com o hedonismo irresponsável? 
O aparente e o verdadeiro confundem contextos e ideais. Banalidades fúteis e lutas necessárias pelo aperfeiçoamento pessoal e social rivalizam em ambientes improváveis. 
Exigências íntimas sabem que o verdadeiro nem sempre é o óbvio, tal como o nosso olhar não pode observar nenhum smarphone no quadro o «Esperado» do pintor escocês do século XIX - mesmo se, observando a menina, formos tentados a criar analogias.
Existem contextos, da nossa época, que crescem num hediondo e perigoso rumo de confusões. 
O anacronismo instala-se...também nas escolas.


Ana

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Traços

Schoen Erhard, 1538






As primeiras  tentativas cubistas do século XVI são impressionantes...
Não costumamos imaginar, assim, a pintura desta época. Desconstruamos o olhar formatado.



Luca Cambiaso (1527–1585)





O Homem...na sua busca de encontrar fábricas de sonhos.



domingo, 5 de novembro de 2017

Muros

Andre Kohn

Talvez o silêncio destes dias claros. Talvez a criança só que te habita, ainda, e sabe que não poderá - nunca - chorar! Talvez esta colectiva viagem de regresso a lugares que julgávamos, há tanto, destruídos...

É este retrocesso dos passos que, incautos, acreditámos ter superado. Afinal, na agudeza deste sol, andámos em redor. 

Aqui estamos! Fragmentos que lutam. Falanges que despertam de casulos inauditos. Pragas que retornam. Líderes que bóiam na sua leveza sem profundidade. Gente que, fútil, tudo apaga na luz deste dia iluminado. 

Como falar-te do futuro? Como dizer-te que és tu o plano do futuro? 

És tu o meu labor de cada dia. Para ti levarei a serena palavra que esperas para poderes tecer um porvir melhor e justo.

Não desistas!

Ana. 

sábado, 16 de setembro de 2017

Sublimando...

Rob Gonsalves



Firmes, os teus passos rasgam uma inquieta solidão. Abre o peito à calada luz que te guia...credo no velho ideal, no sentimento ardente, na claridade azul da madrugada fria! Que importam os brados, que dizem os bardos líricos e narcísicos olhando a própria sombra? Não és um deles. A selva urbana não te intimida,nela os homens afogam os sonhos e viajam em florestas imaginárias onde os medos se escondem... 
Regressa! A lua vai alto e os ideais se acalentam.

Ana

domingo, 21 de maio de 2017

Inespecífica

Pol Ledent

Corre o vento do Sul, nesta Primavera inespecífica. O labor afoga-nos cada dia. Há um pântano donde, mansamente, emerge a esperança. O Verão vai chegar na surpresa do vento que corre do Sul. 


Ana



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sem receio

Luis Dourdil



Andamos sobre a fímbria dos dias e, na distância, procuramos vultos insanos  que nos fazem temer um devir sem esperança. 
Compete-nos não desistir. Compete-nos resistir. 
Que importa se os pés vão nus e o caminho é longínquo?
Caminhamos, ainda, na direcção do ideal. Ao longe, outro mais frágil nos espera. No peito fechámos o alento. No braço empunhamos a serenidade.
Não me digas que, do outro lado, existem muros e que a Humanidade definha rumo a um ocaso qualquer...
Ao longe, ainda arde Alexandria.


Ana



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Regressos

Rob Gonsalves, Sweet city


Na procura de conhecimentos, o primeiro passo é o silêncio, o segundo ouvir, o terceiro relembrar, o quarto praticar e o quinto ensinar aos outros.
Textos Judaicos




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Cinza

Juarez Machado



Sobre a cinza dos dias...é o tempo que voa, em ruínas.





segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sobre o arame

AFTER  THE  RAIN  by  Leonid  Afremov



Subi montanhas a pique, como felino nas escarpas. 
Percorri a planície, na indolência do não chegar, perseguindo a linha impoluta do horizonte. 
Pisei, contigo, os glaciares das neves eternas, com um calor íntimo acariciando o peito arfante. 
Verguei os joelhos na busca do não encontro e, por momentos acreditei que Estavas antes daquela perturbação do Nada Inicial que tudo criou nesta velocidade a que vamos, rumo ao indefinido final.
Subi a Acrópole na busca incessante da Sabedoria que aos humanos alimenta. Extasiada, olhei a distância e percebi a precária linha por onde caminhamos. 
Pisei prados transalpinos e areias dos desertos.
Olhei mares de todos os nomes que se agitavam em marés de  ideais antigos.
Teia inacabada da minha humana condição. 

Ana



terça-feira, 21 de junho de 2016

No princípio...

Vladimir Kush, Symphony of The Sun


Chegaram os longos dias do futuro. São quentes e caminho entre tílias. Contra o peito aperto o sol e a esperança. 
Que importa se não te explico, em intimismos banais, a doçura serena dos passos rápidos? Este mundo que se agita à superfície e que parafraseia poetas de antanho, que li um dia, olhando o Mediterrâneo, não me inspira nem arrebata. Cultismos novos juntam palavras antigas, na emergência vazia dos dias que restam. Glórias narcísicas em solidões quietas. Entendo.
Trabalho. Trabalho sempre. Trabalho, no rumor dos que esperam um novo dia de olhar luminoso. Amarei hoje e no futuro esses jovens inquietos que se sentam em filas nervosas, desventrando a alma dos Textos. Eles sabem e eu sei: no princípio era o verbo. 
Recriemos, então, o Mundo, nos longos dias do futuro!

Ana




quinta-feira, 2 de junho de 2016

«Lamber as botas»

François de Nomé (1593 – 1620)/Monsú Desiderio

Acontece-me pensar na fragmentação enquanto forma de dissolução das sociedades. As fracturas são feridas que se instalam no seio dos pequenos grupos organizacionais e ilustram a decadência. Pseudoafinidades são jogos de interesses miudinhos e formam células de podridão que servem uma influência narcísica e frágil. Dúbias figuras transversais sobem nas hierarquias, como lesmas, na baba que segregam. Deslocam-se em todos os grupos sem qualquer sentido de pertença ou de Ideal - sem gnose e sem fé.

Cheguei a um tempo reflexivo. Observo e laboro com o mesmo afecto. Concluo da ausência das Humanidades e deste efeito catastrófico, desta futilidade vigente que tudo mistura, deste nulo em que se afundam as sociedades ocidentais, os seus grupos sociais, principalmente os profissionais...

Só quem não conhece o fundamento vão do absolutismo, ou não leu o seu mentor, poderá passar à margem do velho escrito civilizacional que, hoje,  no final de mais um ano lectivo, aqui vos deixo.

vanitas vanitatum et omnia vanitas

(Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade.)

 Conclusão melancólica do Eclesiastes (XII, 8), sobre a pequenez das coisas deste mundo.


Ana

domingo, 17 de abril de 2016

Partir

Viajes.com, Peloponeso


Terei que ir. Enche-me essa urgência da partida. Ao longe, penso Thera, onde o destino já me levou, e sonho Esparta olhando o rio Eurotas. Conheces o Eurotas? É a Lacónia que o vê correr...não sei se nele se banharam velhos soldados de uma batalha qualquer. No silêncio inaudito desta parte do Peloponeso, pacifista e desiludida com as novas barbáries, olho e penso. Pensar foi sempre o meu maior desígnio, mesmo na consciência dolorosa desse acto.


Leo von Klenze, Akropolis

Anda, olharemos de frente a Acrópole, na próxima Atenas. Deixemos a península. De penínsulas somos conhecedores. Anda comigo reconstruir o Partenon, desenhá-lo na sua realidade etérea e justa. Temos este amor Antigo, sem idades do meio e sem treva. Procuraremos a claridade, o Sul do Sul...aí aninharemos as serenas cores da vida, aí desvendaremos se ainda é possível a Humanidade.


C. Aguilar, Grécia

Ana





quarta-feira, 30 de março de 2016

Herança

Vladimir Kush, Favourable winds


Que faremos se o vento mudar e, humanos, vierem os seres questionar-nos sobre o porvir? Que diremos se o passado florir nos íngremes caminhos da memória? Agitaremos ao vento quieto do Sul a chama de uma esperança longínqua. 
Nunca me digas, aquilo que o pesadelo nocturno me desenha e agita. Nunca admitas que vamos num retrocesso, num regresso veloz directos à barbárie - homo sum!
O medo espreita as sombras e desenha pavores, mas a claridade quente dos dias desponta por detrás de cada ideal que encha o coração humano da sua bondade mais pura.
Um dia, quente e azul, redescobriremos a rota perdida onde a justiça nos irmanará - essa será a herança!

Ana



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

As Obras e os Dias

Sísifo, de Tiziano, 1549

Hesíodo por certo não conheceu a minha vida, mas nas eras outras eras são e no tecer eterno desta viagem incompleta o peso verga-me ainda os ombros. Não penses que desisto. Eu nunca desisto. É esta a natureza daqueles que tu cantas. Todavia, são curtos os dias para os trabalhos que os deuses nos prometem. 
Éfira fica longe e Zeus mandou-me enviados difíceis. Que Tanatos se afaste, se perca nos mares e desça ao mundo a que pertence. Que se aquietem os tempos e a montanha se aplaine, pois o meu ser vagueia na planície e o absurdo não se esconde por aqui.

Ana