Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Auto da Fé

Tulipa laranja


Leio mais um processo inquisitorial. Surpreende-me, outra vez, este rigor miudinho de antanho. Minúcia e excelência no trabalho jamais se identificaram com o Bom, com o ético...A luz coada que entra no silêncio casulo da Torre do Tombo acolhe velhos judeus que caminham, ainda, pelas ruas frias de Amesterdão.
Manuel Bocarro Francês - médico, matemático e astrónomo - que há-de ser, depois, aquilo que fora - Jacob Rosales - anda por Hamburgo, conversa com Kepler e seguirá para Roma para publicar a sua obra sob os auspícios de Galileu Galilei. Os príncipes da Europa reclamam os seus cuidados médicos e a morte surpreende-o em Florença quando  cuida da duquesa de Strozzi.
Homens sábios, afáveis e justos desfilam sob os meus olhos à crua luz lisboeta do século dezassete. Estão nos Autos. As suas vidas foram afastadas de um país mesquinho em que uma escuridão se adensa, como espectáculo mundano, ali, de costas para o Tejo. 
Autos da Fé, do medo e da coacção.

Emigradas da Turquia, com seus turbantes coloridos, tulipas ladeiam o meu jardim. Vieram da Holanda num dia de Verão, nas mãos do meu filho, e recordam-me que fui capaz de passar o testemunho. 

Não podemos abdicar. O Carnaval que enche as nossas praças seculares há-de ter um fim.

Ana


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Hecatombe

Gauguin


O meu país desconstrói-se, estilhaça-se neste chão onde já adivinho a Primavera. 
Hecatombe sem nevoeiro. 
Ecos de rebelião fragmentaram-se em medo...
Onde estão os homens bons? Para onde rumaram os ideais?




domingo, 13 de janeiro de 2013

Desassossego


Edgar Mueller

Hoje, farta de notícias manipuladoras e de incúria, deu-me para reler excertos de Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Retenho uma passagem, bem a condizer com os tempos que vivemos:


«Essas criaturas tinham todas vendido a alma a um diabo da plebe infernal, avarento de sordidezas e de relaxamentos. 
Viviam a intoxicação da vaidade e do ócio, e morriam molemente, entre coxins de palavras, num amarfanhamento de lacraus de cuspo. 
O mais extraordinário de toda essa gente era a nenhuma importância, em nenhum sentido, de toda ela. Uns eram redatores dos principais jornais, e conseguiam não existir; outros tinham lugares públicos em vista do anuário e conseguiam não figurar em nada da vida;[...]». 

E, eu, que dizem ser eclética (ao ponto de usar o wok para saltear os meus cozinhados vegetarianos e para confeccionar as migas alentejanas), dou por mim a pensar que vivemos numa estranha ilusão óptica, ao jeito das composições de Edgar Mueller. 

Vivemos o desassossego, essa estranha palavra de cinco «s» - nem precisamos de maiores simbologias...

Ana






quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Relatório


Persepolis

Enquanto o meu país definha e a Grécia agoniza, ocorre-me pensar em leituras antigas, daquelas que remontam ao séc. IV antes da era comum. Poderia ser Aristóteles, poderia ser Clearco e o seu De Somno...estaria em Delfos, na ilha de Chipre ou algures entre a Europa e a Ásia. Todavia, estou aqui. A fuga, o voo parecem-me apenas delírios. Hoje é impossível sonhar.
Ah, velhos impérios e novos declínios!
Ah, velhos e sábios e novos ignorantes!
Por onde andas, Clearco? Já não reescreves os ensinamentos do mestre, nem te exercitas com os pitagóricos?
Já não se reproduz, nas novas terras escravizadas, o velho ensinamento helénico?
Só a ruína perdurará no transcorrer dos dias?
Sibila não o serei, que só negros fumos saem destas piras, porém aqui te deixo - de memória - o basilar ensinamento:

Em criança, aprende as boas maneiras;
Em adolescente, controla as tuas paixões;
Em homem maduro, sê justo;
Quando envelheceres, dá bons conselhos;
Ao morreres, fá-lo sem remorsos.


Estranhos escritos agora te ocupam as jornadas.

texto integral

Ana







quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Arrebol

Vicente, Alentejo

O sol espraia-se mesmo se a terra escurece. O arrebol leva consigo a promessa de outros dias por vir. E, na fria aragem do poente, uma solidão pesada mas tranquila acalenta ideais indestrutíveis. A Verdade e a Justiça erguer-se-ão na quieta linha do horizonte. Fraternos acolheremos a alvorada!

Ana