Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165
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segunda-feira, 31 de março de 2025

Cyclamen de Alepo

 

cyclamen cá de casa, 2025

Cantos para o amor
1
um eco de ti me disse:
“o segredo que fala de ti e de mim
não tem idade”
2
sabemos como podem amar as estações
sabemos que línguas falaram
no desconhecimento do vento e do espaço
3
não tenho medo
devo inventar o testemunho que
te corresponde

Entre teus olhos e eu
quando penetro meus olhos nos teus
vejo a alvorada profunda
vejo o antigo ontem
vejo isso que ignoro
e sinto que passa o universo
entre os teus olhos e eu

Unidade
o universo uniu-se a mim
suas pálpebras cobrem com as minhas
o universo ligou-se à minha liberdade,
qual dos dois criou o outro?

Não possuo edição portuguesa



    Pseudónimo de Ali Ahamed Said Esber, poeta conhecido por combater o sionismo e as ditaduras árabes, defende uma poesia livre das amarras das instituições políticas e das obrigações religiosas.

(Enquanto desviamos o olhar.)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Adonis, "Na Sombra das Coisas"

 

Gianfranco Gazzetti , Museu de Aleppo, 2008




Na sombra das coisas

Gosto de ficar na sombra das coisas
no segredo delas, gosto
de entranhar a criação
de vagar como as ideias
como a arte que se entranha
e, incerto, incauto
renasço a cada dia.

                                          Adonis (tradução Michel Sleiman)

Adonis (em árabe: أدونيس, pseudónimo de Ali Ahamed Said Esber — Al Qassabin, Lataquia, Síria, 1 de janeiro de 1930) é um poeta e ensaísta sírio, com uma longa carreira literária no Líbano e em França, autor de mais de vinte livros em língua árabe. Considerado o maior poeta contemporâneo de Língua árabe.








quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Memórias - 1

Galileia/Síria, José Alves - 2019



Olho o meu rosto tisnado pelo sol dourado do Médio Oriente...raramente olho este rosto. Sei da minha tez clara, dos olhos pardos de gato fugidio e do peso sério que a idade lhe vai trazendo. Porém, o que agora vejo no fundo desse olhar é, tão só, aquilo que observei. Como é possível? O que somos, humanamente?
Não me peças que ajuíze. Aquilo que vi desconstrói cada chavão, perturba até ao âmago e entristece. Como ousas essa indiferença, enquanto os sonhos dos homens se desmoronam nestes muros furados por rajadas recentes? 
A realidade dói em cada esquina e deve ser contemplada. Se aqui estivesses comigo não terias tantas palavras. A realidade emudece, não é tagarela.

Hoje, chegada há um dia, disseram-me:
- Tens um ar tão sereno e o olhar tão triste!
Ai de mim se assim não fora...seria sinal de haver perdido a minha condição de ser humano.

Ana