Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

As Palavras Interditas

Ana, 2023




Os Navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
Partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram-se nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.



Eugénio de Andrade in As Palavras Interditas, 1951

domingo, 18 de dezembro de 2022

SAÚDE E PAZ!

 

Bettina Baldassari


O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


                                 Eugénio de Andrade, in Obscuro Domínio


Ana Tapadas, 10 anos


Têm andado velozes, os dias, entre o luto, a lida, as infecções persistentes e as mudanças transformadoras...a ausência e o silêncio instalaram-se na mente da criança que ainda guardo em mim. Meus amigos, irei visitando as vossas "casas" a pouco e pouco.

Até lá, aqui deixo a todos os meus votos de Saúde e de Paz.


BEM HAJAM!



domingo, 27 de novembro de 2022

Mundo perfeito

 

Bettina Baldassari


    Lembro-me daqueles dias silenciosos e da rua detrás. Já fazia frio, mas que importava? Histórias de mundos longínquos povoavam-me a mente. Quimeras, marajás, gente deslumbrante que levitava sobre tapetes. Um dia eu iria a esses lugares! Levada por sonhos, voraz na leitura, só os meus amigos silenciosos me acompanhavam pacientemente. Se me chamassem para dentro, pelo frio da aragem ou por a mesa estar posta, lá me erguia e eles também, com a vivacidade ágil e juvenil de antanho.
    Onde choveram as pérolas cristalinas desses dias? Que sombra ou que cansaço se inundou de tantas partidas? Que Deus cruel soprou as poeiras dos desertos?



Bettina Baldassari

   
 Estoicamente aqui estamos! Na distância troam as guerras e são tantas...já caminhámos por tantos desses lugares e, por ali, amámos Epicuro, mesmo sabendo como o sangue dos homens se espraiou no horizonte. A nossa existência nunca foi de facções, de matilhas barulhentas ou de folias hedonistas. Reparaste que eu sorria e, aquelas mulheres longínquas, me sorriam de volta. Isto sempre te encantou e sou feliz por ter essa arma serena. Vamos para ser e estar, para conhecer uma remota origem comum. Vamos em busca dessa Humanidade que se fragmenta e que sonháramos herdeira de um destino comum e harmonioso.


Ana


    

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Homenagear Saramago é ler a sua obra


 

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

                                                               José Saramago, in Os Poemas Possíveis



quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Ao velho Endovélico

 

Terena, Alto Alentejo - 2022

    
    Há lugares que abrigam o nosso ser com o afago de uma história antiga contada ao serão. Já caminhei por tantos lugares, mas aqui é o meu lugar.

Terena, Alto Alentejo - 2022


    Ainda que as poeiras do deserto me recordem perigos crescentes e toldem a vastidão da paisagem.

Terena, Alto Alentejo - 2022

    Poderia ficar, neste silêncio tão leve, imaginando as velhas defesas que  sobrepuseram as pedras. Então, os gritos dos homens ecoaram em línguas diversas...

Terena, Alto Alentejo - 2022

        A religião e a guerra deram-se as mãos, como sempre, nessa coincidentia oppositorum, onde os contrários se unem. Aqui, o templo se fez defesa militar.

Terena, Alto Alentejo - 2022

    Fala-me, antes, das rosas que sobreviveram aos calores deste estio ardente! Caminha comigo, por estas ruas desertas de casas habitadas para dentro!

Terena, Alto Alentejo - 2022

    Sentemo-nos aqui, escutando o silêncio, tecendo a esperança...


Terena, Alto Alentejo - 2022


                              O velho Endovélico zelará por nós.


Terena, Templo do Endovélico (wikimédia)