Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Sinais de Luz

 

"cometa verde"C/2022 E3 (ZTF) - DN, 1/2/2023


    A educação era, naquela altura, um misto de ternura e de terror. A avó contava que, no monte, à noite, sinais luminosos tinham anunciado a I Guerra, a Guerra Civil de Espanha que ecoara ali ao lado e a II Guerra - onde o avô estivera. De noite, num sono perturbado, a mente povoava-se e imagens, vindas dos confins de um tempo primitivo, em que a península ibérica era vizinha do Ártico e se situava na primitiva Pangea.     Quiçá Saramago terá sido um visionário e, num dia por vir, a Ibéria se desprenda deste continente europeu e rume para algures...




        
«Pensando bem, não há um princípio para as coisas e para as pessoas, tudo o que um dia começou tinha começado antes, a história desta folha de papel, tomemos o exemplo mais próximo das mãos, para ser verdadeiro e completo, teria de ir remontando até aos princípios do mundo, de propósito se usado o plural em vez do singular, e ainda assim, duvidemos, que esses princípios não foram, somente pontos de passagem, rampas de escorregamento, pobre cabeça a nossa, sujeita a tais puxões, admirável apesar de cabeça de tudo, que por todas as razões é capaz de enlouquecer, menos por essa.»,  pág. 50



    Andam instáveis os tempos, os lugares e a mente dos humanos. 


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Humanidade comum


Jerusalém Oriental, Nablus Road - José Alves, 2019


    Chegámos e sei que não poderei sorrir. Devo baixar o olhar, em sinal de respeito e de humildade. Todos os funcionários do hotel são homens. Este não é um mundo para as mulheres. Apesar da paixão que sempre tive pela Semiótica e leitura dos sinais, símbolos, gestos, ambientes...sinto um súbito desconforto. Em lugar nenhum me senti refém do meu género, porém o solo coberto pela carpete de tons vermelhos tornou-se a minha paisagem. Não contesto costumes alheios. A estrangeira, aqui, sou eu. Começo a entender exactamente onde estou.


José Alves, 2019


        O atendimento decorre através das vozes masculinas e a resiliência terá que me acompanhar por alguns dias, de forma a tornar-me a sombra. Não venho pelas religiões, venho pela História. Aqui, a tensão está latente e o ar tem um peso algo soturno. Só vivendo, conhecendo por dentro poderemos ajuizar. Eu não julgo, observo. Ajusto-me. A má descolonização britânica deixou uma herança de guerras e conflito sucessivo. Logo em 1948 este lugar foi dominado pela Jordânia e a criação do novo estado de Israel minou, até hoje, o sossego dos habitantes anónimos. Agora, a maioria da população é árabe e, aqui, estamos na Cisjordânia (uma parte da Palestina dependente da A.N.P.). Temos consciência de que assim é.


Jerusalém oriental - José Alves, 2019


    Deste lado, temos a cidade velha muito acessível a pé e queremos conhecer os lugares, demoradamente. Nas viagens, o mais interessante é conhecer o espírito dos lugares! A porta de Herodes é logo ali...
    Saímos para o trânsito caótico e a primeira mulher com que me cruzo usa hijabe, ensaio maquinalmente um sorriso e sou correspondida. Não se importou de ser fotografada, coisa que, por cuidado e respeito, não faremos a uma mulher muçulmana. Esse unanimismo singelo recordou-me a nossa Humanidade comum. 

Ana
    




domingo, 29 de janeiro de 2023

Estranho...

 

Alentejo, 2023

    Estranho anda o mundo. Nem os poentes incendiados da minha terra plana conseguem esfumar tanta estranheza. Incapaz de indiferença, mergulho no trabalho e afundo-me em silêncio. A minha natureza alentejana sabe silenciar-se.
    A imensa cacografia em que os dias mediáticos se tornaram extremaram o pensamento de muita gente. As pessoas entrincheiraram-se em opiniões fortificadas e, numa questão de algum tempo, os totalitarismos assomarão e instalar-se-ão. Basta ler os sinais.
    As guerras alimentam-se dos ódios submersos e da miséria humana. À porta, as temos e, as mais demoradas e devastadoras, vão-se esmorecendo da actualidade televisiva. Escolas de crueldade, de corrupção, lugar emergente do caos e das ditaduras...
    A nossa identidade pode ser, agora, olhada pela intolerância: a minha bastardia alentejana; o meu sangue impuro de cristã nova; a minha condição de professora e pária social; até as seis décadas de vida, numa sociedade espectáculo que privilegia o verniz que a juventude nos dá...por pouco tempo...
    E por tudo isto, ir-vos-ei contando pequenos eventos subtis, dos tantos sítios por onde passei.

Ana

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

As Palavras Interditas

Ana, 2023




Os Navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
Partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram-se nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.



Eugénio de Andrade in As Palavras Interditas, 1951

domingo, 18 de dezembro de 2022

SAÚDE E PAZ!

 

Bettina Baldassari


O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


                                 Eugénio de Andrade, in Obscuro Domínio


Ana Tapadas, 10 anos


Têm andado velozes, os dias, entre o luto, a lida, as infecções persistentes e as mudanças transformadoras...a ausência e o silêncio instalaram-se na mente da criança que ainda guardo em mim. Meus amigos, irei visitando as vossas "casas" a pouco e pouco.

Até lá, aqui deixo a todos os meus votos de Saúde e de Paz.


BEM HAJAM!