José Alves, 2019 |
O acaso de uma marcação prévia trouxe-nos aqui. É necessário guardar num parque pago o carro de matrícula IL. Neste lugar nenhum seguro nos garante. Passamos a andar a pé à média de 12 km por dia, ou de táxi. Sabemos onde estamos. Uma placa traça-nos um breve historial da casa e todos os funcionários são homens. Visto-me de forma discreta, mas sinto algum desconforto íntimo. Ao fundo da Nablus Road, fazendo esquina, fica o American Colony. Duplo incómodo. Nem sei o que mais me perturba.
Precisava de alguma inocência livresca para me sentir segura. Aqui, tudo se desfaz e se põe em perspectiva. Os sorrisos são raros.
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José Alves, 2019 |
O gosto árabe do século XIX renova memórias inoportunas. Alguma decadência mina esta atmosfera. Somos resilientes e isso ajuda-nos. Sabemos bem que já foi cenário de horrores e até clínica.
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José Alves, 2019 |
Ao segundo dia, o funcionário sorriu. Não somos ingleses, nem franceses, nem americanos e o nosso passaporte português abre-nos muitos caminhos nesta terra de tantos separatismos, disputas, vencidos e vencedores.
Dormi agitada, a Festa do Sacrifício (muçulmana) e a Tisha b'Av (judía) aproximam-se e os «raids» nocturnos acordam-me com rajadas de metralhadora, num bairro abaixo.
Lembras-te dos Filisteus?
Não me peças que decida. O que vejo é hediondo, mas não é a preto e branco. Setenta anos de guerra são capítulos no tempo. E...eu estou aqui a tentar compreender. Jamais serei a mesma.
Ana