Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

domingo, 7 de abril de 2013

Sem submissão...

FLOWN WITH THE WIND
Vladimir Kush

Ninguém nos poderá delapidar esta tarde rósea em que somos a brisa morna da planície. Fremente, a floração aguarda só mais um dia de sol. É essa liberdade de águias que nos crava no peito a esperança, mesmo quando todos imploram e sibilam a pobreza futura. É o velho orgulho da mestiçagem destes sangues, tão mesclados, que nos adoçou a voz e a tolerância sem submissão. Percorro contigo a vastidão destes lugares, sentindo a energia renovar o meu ser de criatura do Sul e, subitamente, um poema de Nemésio ajusta-se ao momento. Em surdina, habita-me o instante:

*****
Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.
Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo, Grego, Grego!
Homem, seja onde for.
Romano na ambição,
Oriental no ardil
Latino na paixão,
Europeu por subtil:
Homem sou, homem só
(Pascal: "nem anjo nem bruto"):
Cristãmente, do pó
Me levante impoluto.

Vitorino Nemésio


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Justitia Mater

Tuscany Village
BOB PEJMAN
Associar uma pintura da Toscana a Antero de Quental pode ser alguma coisa de estranho, para quem me ler. As estruturas antropológicas do imaginário têm destas coisas. Todavia, estive ali por duas vezes (1982 e 2009), sempre com o meu subsídio de férias, abdicando de luxos e de coisas materiais que não valorizo tanto como esse partir à descoberta da cultura do Mediterrâneo. Trabalho há trinta e seis anos, desde os dezoito, e continuarei a fazê-lo, se cá estiver, num tempo a perder de vista. 
A Literatura é a minha paixão e profissão. Hoje, só Antero poderá ser a minha voz.

*****
Nas florestas solenes há o culto 
Da eterna, íntima força primitiva: 
Na serra, o grito audaz da alma cativa, 
Do coração, em seu combate inulto: 

No espaço constelado passa o vulto 
Do inominado Alguém, que os sóis aviva: 
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva 
D'um deus que luta, poderoso e inculto. 

Mas nas negras cidades, onde solta 
Se ergue, de sangue medida, a revolta, 
Como incêndio que um vento bravo atiça, 

Há mais alta missão, mais alta glória: 
O combater, à grande luz da história, 
Os combates eternos da Justiça! 

                                           Antero de Quental,
Sonetos
http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/acordaos/20130187.html

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Da Mudança...

Vladimir Kush


«Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo.», Heráclito



Vladimir Kush



quarta-feira, 27 de março de 2013

A heresia



«Aos cátaros da Ocitânia - perfeitos e famílias crentes - que sofreram física e mentalmente os horrores da cruzada, primeiro, e da Inquisição, depois.»


Dias de chuva e muita leitura, sempre será assim. Recordo-me menina à espera da carrinha da Gulbenkian e de esgotar tanto os limites de requisição que precisava do cartão de amigos. Era um momento mágico. O Largo das Amoreiras, as casas brancas, as viagens precoces por essa reserva maravilhosa que a humanidade guarda na herança escrita. Dela fiz a minha profissão, que amo profundamente.
Hoje chove e inicio mais uma leitura. Agora, tenho a vantagem de conhecer os lugares, de ter caminhado por montes e vales, descido montanhas, sorvido o perfume dos ares. A minha memória faz-se de aromas e de rostos humanos.
A dedicatória já me conquistou.

«A Igreja cátara, herdeira dos saberes mais profundos da espiritualidade de Zaratustra, na longínqua Pérsia, soube aninhar no coração do Ocidente (Languedoc) uma cultura sociocultural  diferente da que preconizava a Igreja oficial, apesar de ser também cristã. Os seus ministros - Perfeitos - durante mais de dois séculos, partilharam os seus ensinamentos, baseados na liberdade da pessoa, no respeito pela mulher, na tolerância intercultural, na protecção da natureza e no sentido do trabalho, como premissas para a vida humana.», pág. 11

Sei a continuação da história, mas que importa? Nunca é demais relembrar o peso dos tiranos.
Esta é uma boa altura para recordar os resultados do concílio de Niceia... ou não recordas, também, as quatro controvérsias da Páscoa aí discutidas?

Ana 


terça-feira, 26 de março de 2013

Marejar

google

Tomba esta chuva fina que tudo encharca. Estrangeiros na nossa terra subvertemos o tempo adiado. Os homens bons partiram e foram morrer algures. Outros ficámos, permanecemos para fitarmos uma realidade especular. Todos os dias me chegam os ecos de mais um sonho desfeito, de mais uma tirania sem nome. 
Eu tenho de mister a esperança. Pesa-me, todavia, o que se espera do meu olhar. Dói-me a injustiça do inominável. Aprendi no silêncio longínquo da planície que todos os humanos têm o timbre puro da sinceridade. 
Quero as vozes de um plural livre e justo. Não ouse esta chuva marejar o teu olhar!

Ana