Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 7 de abril de 2020

A Estranha Ordem das Coisas

Atrás das barras_P & Ink, Vladimir Kush

Com os meus alunos do outro lado de um ecrã, alojados numa turma virtual e entregues a uma aula digital, escondidos de um inimigo invisível, procuro a expressão mais exacta de cada momento. Não é uma tarefa fácil, nem para mim que vivo do uso desta nossa Língua comum.
A primeira semana foi a de uma ausência. Onde está o parque que atravessaria a cada manhã, enchendo o peito dos primeiros raios de luz para levar até vós? Onde, aquele frenesim de vida a desabrochar em cada olhar fugidio ou acolhedor como o futuro que prepararíamos juntos? Onde, o meu chegar silencioso e súbito que te surpreenderia num susto pueril? Onde a empatia e o sorriso, ou o ar severo que para ti ensaio?
E o tempo vai criando a rotina de uma (novi)profissão que preencheu os dias inteiros numa distopia, verdadeira antiutopia de tudo o que fui. 
E, neste negativo da velha fotografia daquilo que fomos, restou-me escolher mais um livro para ler. Aqui partilho convosco A Estranha Ordem das Coisas, de António Damásio

A Estranha Ordem das Coisas - Livro - WOOK


«Os seres humanos acabam sempre por depender da maquinaria dos afectos e das suas ligações com a razão. Não há maneira de fugir a tal condição.» pág. 305, 1.ª edição, 2017 


Saúde, meus amigos!


sábado, 21 de março de 2020

POESIA IMORTAL

«Safo admirando Alceu», Lawrence Alma-Tadema
«Dizem que há nove musas, que falta de memória! Esqueceram a décima, Safo de Lesbos» (Platão)


..........Só hoje sei o que é ser deus… Quem é esse homem que está sentado na tua frente enquanto tu falas descuidada e ris de maneira encantadora? 
..........O meu coração bate-me descontroladamente no peito e eu pergunto-me, tentando sondar este mistério: 
...........Que se passa comigo, se, de repente, me vejo a habitar um mundo deserto, se os meus ouvidos parecem feitos de zumbidos e os meus olhos já não servem para ver, se a própria boca indomável das palavras emudeceu? 
...........Como entender este tremor louco sem febre, este gelo que me inteiriça os membros a par deste fogo que pega na caruma interior das minhas veias, este ficar mais verde do que a erva, esta proximidade constante de morrer? 
..............Dizem que tudo se deve suportar. Mas para quê?
                                                                            
                                                               (fragmento 2 D)

Adaptação de Manuel Pulquério, Univ. Católica




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Google



Safo terá vivido no século VII AC e é a Poetisa. A poesia clássica ainda é inigualável. 
Como ousaria, eu, corromper este Dia com a banalidade ou a imitação da lírica pós-moderna?




BEM HAJAM! 









quarta-feira, 11 de março de 2020

Pandemia...

 María de los Remedios Alicia Rodriga Varo y Uranga
N. 1908, Anglès (Gerona), España
M.1963, Ciudad de México, México

Gostaria de um discurso íntimo e feliz. 

Remedios Varo

Gostaria de falar-vos destas pintoras invulgares. Mulheres inquietas e visionárias. Mulheres, heroínas da normalidade dos dias atormentados.


 Leonora Carrington
N. 1917, Lancashire, Inglaterra
M. 2011,Ciudad de México, México

Gostaria de recordar que as duas viveram duas guerras que assolaram o mundo. 


 Leonora Carrington
E nos seus olhares o caos se tornou uma mágica desordem. A beleza pode ser assim: conjuga uma harmonia entre o diurno e o nocturno.

Tenhamos a serenidade dos que contemplam, mas a acção dos fazedores de um mundo novo, no qual o medo seja apenas usado de forma luminosa para nos levar a agir contra aqueles que, na sombra, o usam para do caos reerguer nova ordem!


A cidade inteira, 1936 por Max Ernst (1891-1976, Germany) |  | ArtsDot.com
«A cidade inteira», Max Ernst


Gostaria de dizer-vos que não seremos despersonalizados e não afirmaremos, como Max Ernst, depois da guerra. De nós não falaremos na terceira pessoa:

“Max Ernst morreu em 1.º de Agosto de 1914. Ressuscitou em 11 de Novembro de 1918, na forma de um rapaz que queria ser mágico e pretendia descobrir os mitos de seu tempo”. (Wiki)


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Para ti






Vladimir Kush


Da minha mão, nasceu o poema
eterno como a luz, rápido como o vento.
No sossego da palavra, crio o alento
da verdade pura, que tornei em lema.

No céu distante, mais além de Deus,
uma alma pura de paz se incendeia
na escuridão dos passos, fio de candeia,
abraço a tua alma e os carinhos teus.

E na rocha imensa, com orvalho puro,
teu nome de amor, tão terno e tão duro,
vai aquecer no mundo, a minha alma triste

porque no Amor, só Amor criado
esquecerá no templo, junto ao ser amado,
a voz da Razão, o Destino em riste!


José M. T. Alves 


O blogue, hoje, abre-vos uma excepção. Apresenta-vos o meu marido/alma gémea de décadas. Mas...não foi a primeira vez que aqui o trouxe!

https://raraavisinterris.blogspot.com/2009/08/nao-te-quero-senao-porque-te-quero.html




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Rumo

Alto Alentejo, 2020


A minha vida faz-se olhando a planície. As cores que se transmudam ao sabor dos dias pautam-me uma melodia íntima que não vos saberei transmitir. É uma cantata de comunhão e harmonia, de serenidade e de sonoridades que orquestram cada momento.
Vou a trabalho, pois aqueles que longe legislam não se perdem na distância e desconhecem a luminosidade que escorre da lonjura.



Alto Alentejo, 2020

As nuvens viajantes são minhas companheiras e nelas arrumei a infância. Mas reconheço o cheiro da erva cortada e esta humidade que a terra respira. Nunca estarei só, nestas paragens. Tudo se reduz na sua mesquinhez citadina, quando se espraia o olhar pelo longe do horizonte.


Alto Alentejo, 2020

A Primavera que espreita não me retira a inquietação. Eu sei o perigo que se disfarça em cada ondulado do caminho. É estreita a via. Há rumores de que novas guilhotinas se aprestam e de que rondam as sombras esquivas de novos senhoritos e inquisidores.



Alto Alentejo, 2020

Um velho leva as suas cabras. Atravessa a rua deserta. Traz-me o tempo antigo e as portas fechadas. Vou a trabalho, já to disse. Não sou a «cabrita» livre que saltitava pela aldeia da minha infância rodeada de amigas «cabritas» como eu. As avós e mães já não gritam por nós e este não é o tempo das amoras que colhíamos no largo. Agora, só o horizonte é largo e a sua vastidão grita-me a força vital que não nos abandonou, ainda...
O céu não nos cairá sobre a cabeça.


Alto Alentejo, 2020