Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

sábado, 15 de abril de 2023

Depois da Páscoa

 

Cá de casa



    Depois de um ano de luto (8 de Abril)...depois de oito anos de luto, (15 de Abril)... a Deus mãe... a Deus pai.




sexta-feira, 31 de março de 2023

31 de Março, em Castelo de Vide

 

Jorge Martins


    Desde há muito tempo que o trimestre da Primavera me escapa. É Sul que me atropela! Silencia-se o blogue, por excesso de vida e, nos últimos anos, também de morte...são de Abril os meus mais queridos. Partiram, assim, entre flores no Outono das suas vidas. Talvez essas memórias íntimas e de pensamento recorrente me bloqueiem o estro rudimentar...
    As escolas atolam-se de burocracia, agitam-se de medos e desconforto, numa profissão que deveria ser livre, na sua beleza diversa, e suficientemente remunerada para atrair os que a amam e precisam, a um tempo, de ganhar o seu pão. Mas tudo se tornou imposição, complicação, desnorte! Curiosamente, os alunos caminham para um analfabetismo de diversas ordens. Sinais dos tempos. 
    O Alentejo clama por mim e o exterior é, agora, o habitáculo por excelência. Jardim, pátio, parque, charneca, planície, meu amor...
    Hoje, deixo apenas o sonho do respeito mútuo, da tolerância, do ar sereno...talvez um pouco triste pelos atropelos da recordação e, também, da memória dos dias da intolerância. O Alentejo não esquece.
 
   



"Desta água não beberei."


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Dias assinalados...máscaras

 

Pablo Picasso – Garota em frente ao espelho, 1932


Depus a máscara e vi-me ao espelho. —

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —

Era a criança de há quantos anos.

Não tinha mudado nada...

É essa a vantagem de saber tirar a máscara.

É-se sempre a criança,

O passado que foi

A criança.

Depus a máscara e tornei a pô-la.

Assim é melhor,

Assim sou a máscara.

E volto à personalidade como a um terminus de linha.

18-8-1934

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 61.

Lapso corrigido segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.


Arroz doce

Ainda assim é... mesmo que não aprecie minimamente o Carnaval...
Depois de ter estado em Nice  e em Veneza, a memória deste dia habita a minha cozinha de infância, algures no Alto Alentejo. Aprecio a simplicidade, a emoção que vem de um tempo remoto a qual se estilhaça, dia após dia, nesta sociedade espectáculo. E... a minha mão alentejana reproduz a tradição...


Filhós
    
A máscara da palavra

A máscara da palavra
revela-esconde
o rosto vago
de um sentido mundo

Paraíso acidental
metódico exercício
a máscara da palavra
colou-se ao rosto:
agora é
o nosso mais vital artifício

Com a máscara da palavra
reinventamos
o som da voz amada
que nos inunda
com seu luar de espuma 

Ana Hatherly, in A idade da escrita, 1998


   

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Sinais de Luz

 

"cometa verde"C/2022 E3 (ZTF) - DN, 1/2/2023


    A educação era, naquela altura, um misto de ternura e de terror. A avó contava que, no monte, à noite, sinais luminosos tinham anunciado a I Guerra, a Guerra Civil de Espanha que ecoara ali ao lado e a II Guerra - onde o avô estivera. De noite, num sono perturbado, a mente povoava-se e imagens, vindas dos confins de um tempo primitivo, em que a península ibérica era vizinha do Ártico e se situava na primitiva Pangea.     Quiçá Saramago terá sido um visionário e, num dia por vir, a Ibéria se desprenda deste continente europeu e rume para algures...




        
«Pensando bem, não há um princípio para as coisas e para as pessoas, tudo o que um dia começou tinha começado antes, a história desta folha de papel, tomemos o exemplo mais próximo das mãos, para ser verdadeiro e completo, teria de ir remontando até aos princípios do mundo, de propósito se usado o plural em vez do singular, e ainda assim, duvidemos, que esses princípios não foram, somente pontos de passagem, rampas de escorregamento, pobre cabeça a nossa, sujeita a tais puxões, admirável apesar de cabeça de tudo, que por todas as razões é capaz de enlouquecer, menos por essa.»,  pág. 50



    Andam instáveis os tempos, os lugares e a mente dos humanos. 


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Humanidade comum


Jerusalém Oriental, Nablus Road - José Alves, 2019


    Chegámos e sei que não poderei sorrir. Devo baixar o olhar, em sinal de respeito e de humildade. Todos os funcionários do hotel são homens. Este não é um mundo para as mulheres. Apesar da paixão que sempre tive pela Semiótica e leitura dos sinais, símbolos, gestos, ambientes...sinto um súbito desconforto. Em lugar nenhum me senti refém do meu género, porém o solo coberto pela carpete de tons vermelhos tornou-se a minha paisagem. Não contesto costumes alheios. A estrangeira, aqui, sou eu. Começo a entender exactamente onde estou.


José Alves, 2019


        O atendimento decorre através das vozes masculinas e a resiliência terá que me acompanhar por alguns dias, de forma a tornar-me a sombra. Não venho pelas religiões, venho pela História. Aqui, a tensão está latente e o ar tem um peso algo soturno. Só vivendo, conhecendo por dentro poderemos ajuizar. Eu não julgo, observo. Ajusto-me. A má descolonização britânica deixou uma herança de guerras e conflito sucessivo. Logo em 1948 este lugar foi dominado pela Jordânia e a criação do novo estado de Israel minou, até hoje, o sossego dos habitantes anónimos. Agora, a maioria da população é árabe e, aqui, estamos na Cisjordânia (uma parte da Palestina dependente da A.N.P.). Temos consciência de que assim é.


Jerusalém oriental - José Alves, 2019


    Deste lado, temos a cidade velha muito acessível a pé e queremos conhecer os lugares, demoradamente. Nas viagens, o mais interessante é conhecer o espírito dos lugares! A porta de Herodes é logo ali...
    Saímos para o trânsito caótico e a primeira mulher com que me cruzo usa hijabe, ensaio maquinalmente um sorriso e sou correspondida. Não se importou de ser fotografada, coisa que, por cuidado e respeito, não faremos a uma mulher muçulmana. Esse unanimismo singelo recordou-me a nossa Humanidade comum. 

Ana