Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Areópagos

12.º D

Falo-vos hoje da ternura. Esta é a profissão certa, mesmo se a mudança desordenada dela nos leva o rumo certo. Precisávamos da serenidade dos areópagos para cativar, aperfeiçoar e lapidar a pedra angular. Vivemos tempos de instabilidade e de confrontos entre o firme e o fluído. 
O professor ajuíza e julga, é duro e inflexível nas suas decisões. O seu caminho segue a recta dinâmica da consciência. Isenta-se e distancia-se, pois assim deverá ser. 
Falo-vos hoje da ternura, porque as pernas trémulas dos meus alunos se dirigiram para a sala de exame nacional. Partem sozinhos, mal sabendo andar, nos corredores que tão bem conhecem. Estou lá para os ver entrar, disfarçando o nervoso miudinho que me entrou no estômago. Quero que tenham sucesso. Se pudesse teria entrado para resolver, eu, o teste. Sempre fui assim, todos o sabem se me conhecem. 
Como puderam, hoje, depois de pautas publicadas e assim trémulos, lembrar-se de mim, meus queridos alunos?


Fui atleta, sim, e vocês descobriram




Talvez eu tenha chegado lá, a esse lugar silencioso, onde a humanidade nos une. Ouso pensá-lo e sinto-me feliz. Foi por momentos desses que há muitos anos, aos dezoito - na vossa precisa idade - me fiz professora. Primeira geração feminina que trabalha fora de casa, na minha família, foi bom sair para vos encontrar. Que o futuro vos abrace e acarinhe nestes tempos inóspitos.


Cuidadosamente
Aqui vos instalo, onde tantas vezes a música acontece. Vocês são, hoje, a melodia que dialoga com a imortalidade e cura os poetas desse excesso de sensibilidade que se acomoda sob o olhar da exigência e do rigor. São árduos os dias, mas deixem-me falar-vos da ternura que, ainda, nos habita - velhos herdeiros da colina de Ares...




Não vos esquecerei. OBRIGADA!


Ana




Post scriptum: desculpem as fotos ao meu telemóvel.

domingo, 10 de junho de 2012

Portugal - 10 de Junho

Merello







Convosco, não, traidores!
Que poeta decente poderia
Acompanhar-vos um segundo apenas?
À quente romaria do futuro
Não vão homens obesos e cansados.
Vão rapazes alegres,
Moças bonitas,
Trovadores,
E também os eternos desgraçados,
Revoltados
E sonhadores.


Miguel Torga, Cântico do Homem


sábado, 2 de junho de 2012

Fluir do tempo


Serra de Marvão, Rua.Direita.com


Afloram rochas de um tempo remoto e cerejeiras inesperadas espreitam das quintas anichadas em curvas repentinas. É um território inóspito por onde se espraia a solidão. No alto, a vila é uma ravina muralhada contra invasores de antanho.
O calor intenso não aquece, queima. Talvez a trovoada rasgue, de surpresa, o horizonte. Então, o meu medo será manifesto. Até lá, contida, falarei calmamente das aves e dos sonhos, do cheiro forte do arvoredo e daquelas casinhas com escadas embutidas no rochedo vivo.
Uma fina angústia esconde-se nos confins deste país perdido, parado na mudança sucessiva. Para onde rumaram os que por aqui caçavam, os que vieram dos areais do sul e lutaram por este chão? Para onde rumaram os pastores e os corpos enérgicos dos juncavam de searas este chão?
Quem te disse que a minha terra alentejana era um horizonte raso com uma árvore sozinha a feri-lo? 
Aqui, a violência da solidão cristalizou-se na pedra e a vida agónica não se instala no Além. Esta mestiçagem de sangues tornou-nos descrentes e lúcidos como o destino mortal dos homens. A ruína do tempo instala-se, inglória, como um entardecer sem Primavera.

Ana






terça-feira, 29 de maio de 2012

Flores


Alentejo, Maio







Era preciso agradecer às flores 
Terem guardado em si, 
Límpida e pura, 
Aquela promessa antiga 
Duma manhã futura. 


                Sophia de Mello Breyner Andresen






terça-feira, 22 de maio de 2012

Obrigada, Xavier Narval! Obrigada, Ximena Luna!



Alfredo Rodriguez, pintor mexicano 


Os meus amigos são jovens, ainda deambulam na imortalidade da segunda década de vida, têm um ar doce e feliz. Habitam um país distante, imenso, quente e vivem numa megapolis. Os meus amigos têm um sorriso de quem sonha e é generoso. Hoje, fizeram-me chegar um espantoso livro que me traz ecos de arte, História e escrita da sua terra.




Parte de um projecto muito maior, que começou com os doze capítulos da série de televisão do mesmo nome, este livro reproduz nas suas páginas os textos originais, utilizados como roteiros para a série, realçados com imagens e fotografias que ilustram cada um dos capítulos. Reconta a história do país na época pré-hispânica, do México durante o período colonial até ao México contemporâneo, sob a pena de especialistas. Com uma fantástica abertura escrita pelo recém desaparecido escritor Carlos Fuentes, adentro-me e perco-me na leitura e no deleite das belíssimas ilustrações. Carlos Fuentes, também ele, alma democrática do México e lição de Humanidade que nos vai faltando... 

Por momentos saí do meu país cinzento e dos meus dias de exaustão pelo trabalho.

Obrigada pela viagem!

Ana