Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

À Amizade!

 



São longos os dias de trabalho e curtas as horas...mas a AMIZADE não se esquece!


BOAS FESTAS, MEUS AMIGOS.

MUITA SAÚDE.



Depois eu voltarei.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

E quando vive?

 

Jury Annenkov, 1918


Faltam alunos na sala. O Sol outonal doura, levemente, o ambiente interior. Uma suavidade na dureza dos dias. A calma, o receio e o entusiasmo do início do ensino secundário alargam o texto até à vila de Avis, aqui tão próxima, e levam, num voo rasante de pássaro deste Sul indomável, até ao silêncio pacífico e cheio do interior da Torre do Tombo, em Lisboa. Fernão Lopes é matéria dura para jovens de quinze anos pós-modernos! 
M. não está presente, a irmã mais nova está com covid19 - ela e a turma inteira, confinaram-se. Outros três lugares estão vazios, na pequena sala em que vinte e sete alunos se amontoam atrás das máscaras azuladas. Em anos anteriores, essa prótese ainda tinha laivos de adereço e moda. Agora não! Luta-se pela assepsia, desesperadamente.
O conhecimento encolheu. A Gramática perdeu-se, mesmo se a História da Língua ainda fascina alguns deste alunos de Ciências e Tecnologias. Desdobro-me para cativá-los, como a Raposa no Principezinho de Antoine de Saint-Éxupéry.




Subitamente, J. que tem um interesse habitual por História, não resiste a perguntar-me se já estive dentro da Torre do Tombo. Digo-lhe que sim, que por força de quatro anos da minha vida de estudos lá entrei e estive muitas vezes. Então, olha-me em silêncio e remata entre  a interrogação e uma ironia piedosa:
- E quando vive, professora?

Todo o dia pensei na interrogação arremessada por esta menina sábia e frágil. Que lição!

Ana

domingo, 24 de outubro de 2021

Subindo a montanha

 

A Acropolis, Atenas, Setembro 1911; reproduzida em Voyage d’Orient,
 Carnet 3, p. 123. Lápiz sobre papel. Fundação Le Corbusier © F.L.C


Infatigável e luminosa subida
Da vida inigualável...
Saudosa montanha perfumada,
Na caminhada morosa,
Encantada e sentida!

Infatigável e luminosa subida,
Onde oníricas palavras
Sonham, ainda, inalterável
A Vida morosa e inacabada...

Ana



sexta-feira, 10 de setembro de 2021

No fio do tempo

 

Mankthi, Shamsia Hassani, artista afegã

É ainda o Verão. Dias quentes feitos de partidas e de chegadas, de retornos fugazes a que o excesso de luz queima as pontas, como a mariposas descuidadas. Alguns dramas, muitas alegrias. Partidas sem retorno e reencontros melífluos.
Há fugas e cobardias, recomeçam guerras. A religião, como desculpa para a maldade dos homens, envenena e o dinheiro das armas corrompe...inocentes nasceram anónimos em lugares de fogo. Sangue ou choro, que faz a Humanidade? Espartilha e separa.

Alto Minho, Agosto, 2021

Outra vez o Minho, agora sem nortada, quente e húmido como um ventre criador que não se quer separar da sua cria. Superstições na memória colectiva, rituais de tribo que haveremos de cumprir, contrafeitos mas obedientes. Eu, que não sou de tribos, observo indiferente - são décadas de hábito. Sejam felizes! Estejam satisfeitos.

Opernhaus (ópera), Zurique, 2021


Outra vez Zurique, doce esvoaçar do Amor. Plena, a vida, enche-se de sentido. O sorriso de Madalena traz promessas de futuro. A felicidade veio instalar-se aqui e temos de lhe trazer os nossos peitos abertos. Galgados os Pirenéus, ultrapassados os Alpes...olhamo-nos em silêncio, olhos nos olhos, sentados no Largo da ópera, temos o mais intenso brilho destes tantos milionários que caminham para a Bahnhofstrasse. Tanta coisa já nos é familiar, até o preço deste café que ousámos beber.

Quintas, Schlieren - 2021

Subamos às quintas, ali onde em 11 minutos a cidade abraça o campo, tudo se torna idílico e percebemos a civilidade com que se trata a natureza neste lugar. Sim, rodearmo-nos de cimento e de periferias engaioladas, há muito  que nos atirou para a retaguarda. José não resiste às compras e vai retirando e pagando os ovos, a fruta...sem vendedor. Um elogio à confiança! Os bens alimentares custam parcas moedas. Em breve voaremos para um lugar que se aqui viesse se espantaria.

Alvor, 2021


E lá está o Infante, no seu promontório olhando do passado. Ali, na curva do mar! Enquanto caminho pelos passadiços, adivinho o rumor das naus aportando ao Futuro.

Agora, atravesso o parque, no lugar de sempre, sonhando com lugares na memória.


Ana

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A Luz que Vem das Pedras


Alentejo, 2020


A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

                                                                     Pedro Tamen, in Agora, Estar